Jornal Correio Braziliense

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DNA definirá identidade da sétima ossada encontrada em Luziânia

Polícia Federal desconfia que os restos mortais encontrados por parentes de adolescente no local onde foram enterrados outros seis jovens sejam de Eric dos Santos, que sumiu em 20 de março

A Polícia Federal pediu ao Ministério Público autorização para examinar a última ossada encontrada no local onde o pedreiro Ademar de Jesus Silva, 41 anos, disse ter enterrado os seis jovens (1) de Luziânia. Os ossos, que seriam de uma sétima pessoa, foram descobertos por parentes de um adolescente durante as buscas aos objetos pessoais dele no último dia 15. A desconfiança das autoridades federais é de que os restos mortais sejam de Eric dos Santos, 15 anos, que sumiu em 20 de março do bairro Parque Santa Fé.

A dúvida será esclarecida com o resultado de um exame de DNA, semelhante ao que está sendo feito com os outros ossos que podem ser dos seis jovens desaparecidos. A análise ficará pronta após a coleta de saliva da mãe de Eric, a auxiliar de produção Benilde dos Santos, 34 anos, o que deve ocorrer na semana que vem. Ela ainda não foi contatada pelos federais. No dia em que sumiu, Eric saiu de casa por volta das 11h em direção à Escola Municipal Santa Fé, onde ele estudava à noite e dava aula de dança durante o dia. A escola fica perto da casa do adolescente: na Rua 9 da Quadra 48 do bairro.

Eric vestia camisa branca, short vermelho e preto e calçava sandálias com tiras vermelhas. Apesar de possuir celular, o adolescente não levou o aparelho. O que, para a mãe dele, desmonta a versão de alguns colegas de que o filho teria saído de casa por conta própria. ;Ele era muito bem tratado aqui. Tinha regalias que nenhum outro irmão possui;, garante Benilde. O Ministério Público de Luziânia deve oficializar a Polícia Civil de Goiás e o Instituto Médico Legal (IML) da cidade para liberar o pedido dos policiais. ;Devo fazer isso (encaminhar o ofício) até a semana que vem;, disse o promotor de Justiça de Luziânia, Ricardo Rangel.

O surgimento de mais uma ossada na Fazenda Buracão abriu brecha para outra desconfiança: de que no lugar esconde-se um verdadeiro cemitério clandestino. Em entrevista ao Correio, no dia 16, o delegado do Centro Integrado de Operações de Segurança (Ciops), Rosivaldo Linhares, disse que a proprietária da terra seria intimada a depor à polícia. E completou: ;Aquele é um outro corpo, que não tem relação com os demais;. A declaração dele causou divergência entre os colegas da corporação. Tanto que Linhares quis desmentir suas próprias palavras. Mesmo a contragosto, a cúpula da PC goiana abriu inquérito para apurar mais esse caso, mas isso só ocorreu exatamente um mês depois do sumiço de Eric.

Para uma fonte policial ouvida pelo Correio, Eric se encaixa no perfil de vítimas preferenciais de Ademar: era jovem, forte e bonito. Além disso, a escola onde ele foi visto pela última vez, antes de sumir, fica a uma distância aproximada de 2km da casa de Flávio Augusto dos Santos, 14 anos, que desapareceu do Parque Estrela Dalva 7, em 18 de janeiro. O horário provável do fato também coincide com o momento em que o suposto autor gostava de agir. Outra evidência que reforça a tese de Eric ser a sétima vítima de Ademar é a distância do colégio para o trabalho do acusado, que fazia serviços autônomos de pedreiro num setor de casas populares, composto por 25 unidades, no Parque Estrela Dalva 3, situado do outro lado da BR-040. O local fica a quase 3km do colégio. ;A distância é muito pouca. Esse menino tem todo o perfil de ter tido o destino dos outros seis;, disse um policial que trabalha no caso e pediu para não ser identificado.

1 - Sumiços em sequência
Seis jovens desapareceram do Parque Estrela Dalva entre o fim do ano passado e o início deste. O primeiro sumiço ocorreu em 30 de dezembro, quando Diego Alves Rodrigues, 13 anos, não voltou para casa. Depois dele, também não apareceram mais em seus lares Paulo Victor Vieira de Azevedo Lima, 16; George Rabelo dos Santos, 17; Flávio Augusto dos Santos, 14; Divino Luiz da Silva, 16; e Márcio Luiz de Sousa Lopes, 19.


Rapaz queria sair de casa
>> Naira Trindade

A Polícia Civil de Goiás ouviu ontem seis pessoas próximas de Eric dos Santos. Amigos, colegas de sala e até a professora que teria escutado do menino o desejo de sair de casa colaboraram com as investigações. Agora, os agentes pretendem colher os depoimentos da mãe do adolescente, a auxiliar de produção Benildes dos Santos, e do marido dela, Airton Carvalho. Ambos devem depor nos próximos dias. O titular da 5; Delegacia Regional de Luziânia, José Luiz Martins de Araújo, acredita que os detalhes contados podem ajudar a solucionar o caso o mais rápido possível. ;A professora nos confirmou sobre o interesse dele em sair de casa, mas ninguém sai de casa sem motivo. Ou existe uma razão ou ele pode ter sido tirado. O primordial é investigar o local onde ele se encontra;, pontuou o delegado.

A paralisação nacional de agentes e escrivães deve atrapalhar as apurações dos crimes e desaparecimentos de Luziânia. A categoria para hoje a fim de pressionar a aprovação de uma PEC que deve estabelecer um piso salarial para policiais civis e militares de todo o país. No sábado, o funcionamento deve voltar ao normal. Em Goiânia, os depoimentos relacionados à morte do pedreiro Ademar Jesus da Silva, 40 anos, ainda não foram marcados. Segundo o corregedor da Polícia Civil de Goiás, Sidney Costa e Souza, as definições de quantas e quais pessoas serão ouvidas ficará para segunda-feira.

Aniversário triste
José Luiz da Silva Lopes completou ontem 51 anos. A data seria motivo de alegria e festa se não fosse marcada também pelo aniversário de três meses de morte do filho Márcio Luiz Souza Lopes, 19 anos, supostamente vítima do pedreiro Ademar Jesus da Silva. Último a desaparecer, Márcio saiu de casa no Parque Estrela Dalva 4, montado na bicicleta Monark azul após trabalhar durante o dia inteiro em 22 de janeiro. Não se encontrou com o pai nem com a mãe. Não pôde se despedir. Ontem, junto dos outros filhos, José Luiz encarou a data como um dia normal, sem comemorações especiais. Perguntado se havia perdoado aquele que tirou-lhe o direito de conviver com o filho, ele respondeu: ;Nunca. Eu bebo, eu fumo, mas jamais serei homem de tirar a vida de alguém. Não posso perdoar quem fez isso aos seis jovens;.