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Correio Braziliense

Seguranças acusados de espancamento


postado em 24/04/2010 08:33

"Sai correndo sem olhar para trás. E se você denunciar a gente, vai morrer." Essa foi a última coisa que Pedro* ouviu após ser espancado até desmaiar. Os agressores, segundo ele conta, são oito seguranças da Companhia do Metropolitano de Brasília (Metrô-DF). A sessão de pancadaria teria ocorrido por volta de 1h de quinta-feira, em Samambaia, quando ele voltava da festa dos 50 anos de Brasília com um grupo de cinco amigos.

Pedro, que tem 17 anos e é aluno do ensino médio, está com o braço esquerdo enfaixado. Tem um grande hematoma roxo no ombro esquerdo. E vários outros menores nas costas, nas pernas e no olho esquerdo. Andando devagar por conta das dores pelo corpo, o jovem e a mãe dele, Joana*, 50 anos, denunciam a brutalidade e esperam punição dos culpados.

Toda a confusão teria começado quando o trem chegou à estação da Quadra 112, em Samambaia. Houve um tumulto no vagão do lado e os seguranças decidiram tirar todos os passageiros do metrô. "Eles mandaram todo mundo descer. A gente resistiu porque só ia descer na estação seguinte. Eles começaram a xingar e deram uma gravata no meu amigo. A gente mandou eles pararem com aquilo, que o João* não era cachorro para ser arrastado daquele jeito. Eles partiram para cima, e nós revidamos", relatou o adolescente.

Assim que o confronto teve início, ainda dentro da estação, outros seguranças chegaram. Pedro e os amigos teriam saído correndo, exceto João, que estava imobilizado pela "gravata" e teria sido levado para um furgão da segurança do Metrô. Já do lado de fora da estação, a caminho de casa, o grupo avistou o furgão e saiu correndo cada um para um lado. Naquele momento, começaria a primeira sessão de espancamento. "Fiquei sozinho. Eram oito. Deram chutes, socos e bateram com cassetete em mim. Me enforcaram tanto que desmaiei. Quando acordei, já estava dentro da viatura, com meu amigo", relembra Pedro.

Mato


O adolescente sentia tanta dor que nem teve tempo para pensar sobre o destino que estavam tomando. Ele conta ter sido levado com o amigo para um matagal perto da última estação do metrô de Samambaia Norte. Lá, afirma, os oito seguranças mandaram João sair do furgão e espancaram-no. Depois, mandaram que ele corresse sem olhar para trás. "Aí me tiraram do carro e começaram a bater de novo. Pisaram em mim, bateram com o cassetete e falaram: 'Agora você está sozinho. Você não é homem, seu valentão?'. Depois disseram: "Sai correndo sem olhar para trás. E se você denunciar a gente, vai morrer." Mas Pedro não conseguiu ir longe. Diz que sentia tanta dor nas costas que caiu logo na frente e ficou no chão, no meio da madrugada durante algum tempo até conseguir caminhar.

O relato do jovem é ouvido de perto pela mãe dele. Encostada na porta do quarto, com as mãos no queixo, ela não se conforma. "Não acoberto coisa errada de filho meu. Até hoje, se precisar, eu bato. Mas, por mais errado que os jovens estivessem, nada justifica o que eles (seguranças) fizeram. Por que não pegaram todos e levaram para a delegacia?", pergunta.

Joana conta que, ao ver o filho todo roxo e ouvir dele o que aconteceu, caiu no choro. "Eu penso que nada justifica isso. Nem a polícia pode espancar as pessoas. Eu quero que eles paguem por isso", diz. Na tarde de quinta-feira, Joana e Pedro registraram um boletim de ocorrência na 26ª DP (Samambaia). De lá seguiram para o Hospital Regional da cidade, onde o jovem foi medicado. No início da tarde de ontem, Joana levou o filho para fazer um exame de corpo de delito, no Instituto de Medicina Legal (IML). E agora espera por justiça. Pedro não sabe dizer se João registrou queixa.

A assessoria de imprensa do Metrô informou que a denúncia está sendo apurada pela área de segurança operacional com o auxílio da Polícia Militar. Se houver indícios da participação de seguranças no espancamento do adolescente, será aberto um processo administrativo com proposta de demissão dos envolvidos.

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