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Correio Braziliense BRAVOS CANDANGOS

Laranjeira foi jogador do primeiro time de Brasília, o Rabelo Futebol Clube

Três vezes consagrou-se vice-campeão, jogou nas cidades goianas ao redor de Brasília e viu muito peão despencar do 28


postado em 26/06/2010 07:00 / atualizado em 26/06/2010 15:36


A vinda do bravo candango José da Silva Laranjeira para a nova capital o aproximou de uma de suas mais fortes paixões, o futebol. Tão logo chegou a Brasília, nos primeiros dias de junho de 1957, o craque ganhou o direito a um lugar no time da Rabelo Futebol Clube, o de centroavante, com o qual foi três vezes vice-campeão. Laranjeira começou pegando as bolas ao redor do campo, onde hoje é o espelho d’água do Palácio da Alvorada. Logo, alguém percebeu que aquele candango-gandula levava jeito com a redonda e o colocou no time, na posição de centroavante. “Conheci essas cidades de Goiás todinhas só rodando com o time da Rabelo.” Já em 7 de setembro de 1957, estava em Planaltina, disputando uma partida em comemoração ao Dia da Independência. Depois, vieram jogos em Formosa, Luziânia, Paracatu, Anápolis e Cristalina. Depois de 18 horas diárias de labuta, de segunda a sábado, o domingo era reservado para as partidas. O futebol foi a principal diversão dos candangos, durante a construção, depois, claro, da cachaça e dos prostíbulos.

Não era Brasília o destino de Laranjeira. Era Goiânia. Nascido na Bahia, havia morado em meia dúzia de cidades no Mato Grosso, sofrera o suficiente em São Paulo e estava decidido a buscar prosperidade e tranquilidade numa cidade nova, a capital de Goiás. Na estação de trem de Uberlândia, quando procurava passagem para Goiânia, ouviu três homens conversando. Falavam de Brasília. Laranjeira pediu licença e entrou na conversa. “Essa Brasília de que vocês estão falando é a nova capital do Brasil?” É, respondeu o trio, sem muita animação: “Mas ela só vai prestar daqui a dois, três anos”. O brasileiro solitário não se deixou contaminar pelo desânimo. Decidiu, naquele instante, alterar sua rota. Em vez de ir para Goiânia, iria para Brasília. O dia: 1º de junho de 1957.

Mas, antes disso, até chegar à nova capital, teria de passar por Anápolis. De lá, pegou uma carona de caminhão até o entroncamento de duas pistas de terras, num ponto ainda desconhecido no mapa de Goiás. Era mais ou menos onde é o hoje o Balão do Torto. Dali, saíam estradas para Formosa e Luziânia. Laranjeira já se sentia quase acolhido: na viagem de carona de caminhão, havia conhecido um candango, operário da construtora Pacheco Fernandes, que o havia tranquilizado. Seria fácil, avisou, ser fichado na empreiteira. Os dois homens desceram a pé do Torto em direção à Cidade Livre, por um caminho onde hoje é a Estrada Parque de Indústria e Abastecimento, a Epia. No meio do caminho, conseguiram outra carona até o Núcleo Bandeirante.

Decepção
Logo, o suposto parceiro se revelaria traiçoeiro. Quando os dois chegaram à Cidade Livre, o peão da Pacheco subiu num caminhão e deixou o novo candango para trás. Laranjeira pôs a mão na cabeça, tentando entender o que havia acontecido, mas não demorou nada para se recompor. Um outro caminhão lhe deu carona até o acampamento da Pacheco, nas proximidades de onde hoje é o Palácio do Jaburu. Já era noitinha e o guichê da companhia estava fechado. Laranjeira estava novamente em dificuldades. Decidiu então seguir a pé até o canteiro de obras do Palácio da Alvorada, que estava sendo construído pela construtora Rabelo. Precisava arrumar trabalho e, principalmente, um lugar para dormir e não havia tempo a perder.

Atravessou o começo de escuridão do cerrado até alcançar o acampamento da Rabelo. Conseguiu falar com o responsável pelas contratações mas o homem, — “grossão, estourado” — disse que já era noite, que ele esperasse o dia seguinte para acertar o trabalho. “Estou no cerrado, não tenho onde dormir”, disse Laranjeira ao futuro chefe. Paulo, era esse o nome dele, mandou que ele procurasse o chefe do alojamento que ele conseguiria um canto para dormir. Viria a terceira grande decepção: a cama que lhe foi oferecida “era mais suja que o chão”. Consistia numa armação tosca de madeira com um colchão de capim. O novo candango passou a noite sentado na cama, não teve coragem de encostar o corpo cansado na sujeira.

Laranjeira, 79 anos, ainda é um apaixonado pelo futebol(foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press)
Laranjeira, 79 anos, ainda é um apaixonado pelo futebol (foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press)



“Era assim naquele tempo. Do jeito que o peão chegava da obra ele passava na cantina, comia e brucutu na cama, sem tomar banho nem nada. Noutro dia tinha que estar de pé para as sete horas marcar o ponto. Foi assim nos três anos de construção de Brasília, um salve-se quem puder”, recorda-se Laranjeira, para quem a vida começou a melhorar depois daquela noite em que dormiu sentado. O trabalho duro de peão de obra durou poucos dias. A casualidade somada à sua capacidade de perceber e aproveitar as oportunidades o tirou do ofício de carregar girica cheia de cimento para o de almoxarife. Ele foi organizar o material de construção no depósito e daí passou a padeiro.

No tempo em que foi o padeiro da Rabelo, Laranjeira garantiu a alegria matinal dos operários. Nos dias em que lhe encomendavam pães especiais para servir ao alto escalão da Novacap, o padeiro aproveitava para democratizar a iguaria. Então, todos os peões de obra comiam também do pão sovado, feito com leite e manteiga de boa qualidade. Mas a padaria fechou e os candangos tiveram que se contentar com o pão dos quiosques que já surgiam em Brasília.

Tragédias
O bravo candango José da Silva Laranjeira foi testemunha de uma tragédia contínua na construção do 28, as duas torres do Congresso Nacional. Como eletricista da obra do Supremo Tribunal Federal, ele pôde presenciar as quedas de operários. “De vez em quando a gente via o pacote descer. Eles pegavam o cara, botavam no caminhão e sumiam com ele. Diziam que levavam para o hospital [o HJKO, Hospital Juscelino Kubitschek de Oliveira]. Sumiu muita gente, dificilmente eles falavam que fulano morreu. Diziam: ‘Fulano sumiu’.”

Numa noite de terça-feira de Carnaval, Laranjeira assistia a uma sessão de cinema no acampamento da Rabelo quando começou a ouvir estampidos metálicos na caixa d’água. Um funcionário graduado da companhia interrompeu a exibição e mandou que todos fossem para seus alojamentos porque estava havendo uma confusão no acampamento da Pacheco Fernandes. “Quem estava do lado de fora via as balas batendo na caixa como se fosse um vagalume”. Os operários foram se deitar ainda ouvindo o barulho — “muito tiro, muito tiro.”

Na manhã seguinte, os boatos. “Disseram que eles jogavam o pessoal morto ou ferido em cima da caçamba, como se fosse lixo, e levaram para os buracos de uma cascalheira num lugar onde seria a Cidade dos Pioneiros, perto do Setor Militar Urbano, onde hoje tem um canil. Dizem que o povo que morreu está lá.” O episódio, até hoje não devidamente esclarecido, ficou conhecido como o massacre da Pacheco Fernandes. O inquérito policial concluiu que houve apenas uma morte.

O velho Laranjeira está com 79 anos, tem seis filhos brasilienses e onze netos. Mora no Guará 2 desde a década de 1970. Algumas das obras que ajudou a construir: Palácio da Alvorada, STF, Museu da Cidade, Banco do Brasil, Teatro Nacional e várias superquadras.

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