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Correio Braziliense SUCATEAMENTO

IML pede socorro

Apesar da demora no recolhimento de corpos, o órgão garante que a greve dos policiais não alterou a rotina de trabalho. Falta de estrutura é apontada como causa do problema


postado em 26/06/2010 07:00 / atualizado em 26/06/2010 08:10


Os carros estão muito rodados e o quadro de funcionários também é antigo Malthus Galvão, diretor do Instituto Médico Legal(foto: Bruno Peres/CB/D.A Press - 9/9/09)
Os carros estão muito rodados e o quadro de funcionários também é antigo Malthus Galvão, diretor do Instituto Médico Legal (foto: Bruno Peres/CB/D.A Press - 9/9/09)
O quadro de funcionários e viaturas do Instituto de Medicina Legal está defasado. Dos cinco carros que recolhem corpos pelas ruas do Distrito Federal, dois estão na oficina com problemas mecânicos e um, que está muito desgastado, só é usado em casos emergenciais. Sobram assim dois carros — cada um com cerca de 200 quilômetros rodados — para remover os mortos de todo o DF, que tem uma população de mais de 2 milhões de pessoas. Segundo o diretor do IML, Malthus Galvão, a quantidade de profissionais, técnicos, enfermeiros e agentes de polícia é 30% menor que o necessário para o bom funcionamento do órgão. “Nosso quadro é pequeno e está vazio”, revela.

Os reflexos dessa defasagem são sentidos pela população, que tem que esperar durante horas pelo serviço de transporte de corpos de parentes e amigos falecidos. A dona de casa Marta Martins, 58 anos, se viu refém do sistema sucateado na tarde de quinta-feira. Filha adotiva da uruguaia Enriqueta Barragan Farina, 98, a moradora de Ceilândia aguardou por mais de oito horas para que o corpo da mãe fosse recolhido ao IML para a emissão do atestado de óbito. “Essa demora é muito triste. A pessoa quando morre é tratada como um bicho. Não há dignidade. Minha mãe ficou largada, jogada, abandonada por eles como se fosse um animal”, desabafou.

A aposentada faleceu às 14h30 de quinta-feira, em casa. O Serviço de Atendimento Médico de Urgência (Samu) foi chamado, mas nem chegou a prestar socorro. O coração de Enriqueta Barragan já havia parado de bater. “Eles (médicos do Samu) providenciaram tudo. Ligaram para a delegacia e nos pediram para aguardar”, lembra. “Apesar de estarem em greve, os policiais civis não demoraram. Chegaram às 15h e registraram a ocorrência”, relata a dona de casa. Mas ela não teve a mesma sorte com a remoção. Das 15h às 23h, a agonia só aumentava ao olhar para o corpo da mãe e não poder fazer nada. “Entendo que eles tinham outras pendências, mas é muito humilhante esperar tanto tempo”, reclama.

Diretor do Sindicato dos Policiais Civis do Distrito Federal (Sinpol), Luciano Marinho garantiu que o serviço não foi prejudicado em virtude da paralisação em prol dos reajustes salariais e reestruturação da carreira dos agentes, que completa uma semana hoje. A justificativa para o atraso nos procedimento na quinta-feira se deu por causa de duas ocorrências policiais registradas em horários próximos. Uma ossada teria sido encontrada em Sobradinho e, em Samambaia, os peritos transportavam o corpo de uma adolescente que estava desaparecida. Segundo Marinho, quem morre em uma via pública do DF tem prioridade no recolhimento. O diretor ainda explicou que o tumulto no trânsito, ocasionado depois do retorno das atividades dos rodoviários, também contribuiu para a demora.

Responsável por comandar a equipe médica do IML, Malthus Galvão explica a dificuldade de se trabalhar sem poder prever uma rotina diária. “Já houve circunstâncias em que o IML recebeu ao mesmo tempo muitos pedidos em diferentes lugares do DF. A remoção de corpos de pessoas que morrem por motivos naturais deveria ser realizada pelo Serviço de Verificação de Óbitos(SVO), da Secretaria de Saúde, como acontece em outras capitais”, argumenta. No DF, porém, o serviço ainda não é oferecido pelo GDF. Galvão explica que há um pedido para aumentar o quadro de funcionários e para a compra de novas viaturas. “Os carros estão muito rodados. Temos um pedido para a aquisição de quatro rabecões ( cada um com capacidade para transportar quatro corpos) e dois carros menores (para apenas um corpo). Nosso quadro de funcionários também é antigo e temos 30% dos profissionais com restrições médicas, impossibilitados de trabalhar.”


DELEGADOS REJEITAM PARALISAÇÃO
Após uma longa assembleia, que terminou na madrugada de ontem, os delegados da Polícia Civil decidiram, por unanimidade, não aderir à greve deflagrada pelos colegas da coorporação há cerca de uma semana. A categoria pede a reestruturação da carreira, que prevê um aumento salarial de até 30%, mas encontra no governo federal entraves para que a proposta seja votada no Congresso Nacional. “Apesar de não entrarmos em greve, aprovamos a redação de uma nota de repúdio ao descaso do governo federal na implementação da reestruturação da carreira da Polícia Civil. Damos apoio ao direito de greve da categoria”, declarou João Carlos Couto Lóssio, presidente em exercício do Sindicato dos Delegados de Polícia do Distrito Federal (Sindepo). Como a segurança pública do Distrito Federal é custeada pelo Fundo Constitucional, subsidiado pelo governo federal, qualquer proposta de reajuste tem que ser aprovada pelo Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, onde o processo está travado. O ministro da pasta, Paulo Bernardo, já havia adiantado que não concederia reajustes este ano.



Peritos de Goiás aderem à paralisação

Os peritos criminais e os médicos legistas de Goiás também resolveram aderir à greve da Polícia Civil do estado, decretada em 17 de maio. A categoria reivindica um reajuste salarial de 100%. A Secretaria de Segurança Pública de Goiás ainda não se posicionou sobre o pedido. Segundo o presidente da Associação dos Peritos em Criminalística de Goiás (Aspec), Carlos Kléber da Silva Garcia, os peritos decidiram paralisar as atividades após o governo oferecer um aumento salarial aos policiais militares. “Esta é a hora de pedirmos uma melhoria no nosso salário, que está congelado desde 2006”, esclarece.

A principal reivindicação é pela equiparação salarial com os PMs do estado, além da reposição das perdas referentes à inflação. Os grevistas têm presas, já que o prazo estipulado pela Justiça eleitoral para a concessão de reajustes é de 180 dias antes das eleições, ou seja, 30 de junho, a próxima quarta-feira. Com a adesão dos peritos à mobilização, alguns serviços ficam prejudicados. Segundo o presidente da Aspec, os servidores trabalham em esquema de plantão, com 50% do efetivo. “Os atendimentos são feitos em casos de urgência. Cadáveres serão recolhidos, mas com mais demora devido ao efetivo reduzido”, afirma. Serão realizadas apenas as perícias que envolvam vítimas de mortes violentas, flagrantes, exames de crimes sexuais, estupro e atentado ao pudor. (NT)

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