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Correio Braziliense

Geraldo Campos largou a clandestinidade para cuidar da família na nova capital em construção

Veio para Brasília em 1958 e foi responsável por muitas das conquistas dos servidores públicos brasileiros, mas hoje faz uma autocrítica


postado em 17/07/2010 07:00

Um velho candango comunista anda prestando contas a si mesmo e à história. Ontem pela manhã, ele tinha sobre a mesa notícias recentes (com trechos assinalados em vermelho) de que Brasília não apenas é a cidade mais desigual do país, como essa desigualdade só aumenta, apesar da expansão da economia local. O ex-líder sindical e ex-deputado federal constituinte Geraldo Campos se inquieta com a existência de uma elite burocrática que detém boa parte da riqueza da capital do país. Tem suas razões: ele foi um dos mais importantes ativistas dos direitos dos servidores públicos na Assembleia Constituinte de 1988. “Minha ação foi fortemente corporativa. Faço essa autocrítica”, diz hoje, aos 84 anos, um dos primeiros líderes sindicais da nova capital do país.

Ex-líder sindical e ex-deputado federal constituinte, ele hoje reavalia sua trajetória(foto: Kleber Lima/CB/D.A Press)
Ex-líder sindical e ex-deputado federal constituinte, ele hoje reavalia sua trajetória (foto: Kleber Lima/CB/D.A Press)
Antes de ser um bravo candango, Geraldo Campos já era militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB), o Partidão. Conheceu o ideário vermelho quando ingressou na Marinha, aos 17 anos. Sete anos depois, estava tão enfronhado nas lutas de esquerda que foi expulso da força armada por envolvimento em atividades subversivas. Depois de uma temporada de estudos comunistas na então União Soviética e de oito anos de clandestinidade, reassumiu sua identidade civil no canteiro de obras onde a nova capital do Brasil começava a ser construída.

Veio para a cidade em 1958, com a mulher, Lourdes, e a única filha, Vivian, então um bebê recém-nascido. Conseguiu, com a ajuda de amigo, um posto de auxiliar administrativo da Novacap. E, no mesmo ano, uma moradia entre as 500 da Fundação da Casa Popular, construídas para abrigar os servidores da Companhia Urbanizadora da Nova Capital, onde mora até hoje, 52 anos depois. O velho comunista conta que os colegas de partido apoiavam, de certo modo, a construção de Brasília, ainda que não seguissem Juscelino Kubitschek com o fervor dos demais candangos. (Campos revela que Luís Carlos Prestes, o mais importante líder do PCB, não se encantava com a ideia de transferência da capital. Considerava um gasto demasiado alto, que poderia ser usado para construção de fábricas, por exemplo.)

Protesto malcontado
Fazia apenas quatro meses que o comunista candango comia poeira e mergulhava as botinas na lama quando um protesto contra a má qualidade da comida servida no acampamento da construtora Pacheco Fernandes acabou numa operação policial cujas reais consequências até hoje não foram devidamente apuradas. Àquela altura, carnaval de 1959, Geraldo Campos já participava da Associação dos Servidores da Novacap. Nessa condição, na manhã seguinte à ação policial, acompanhou o presidente da entidade e alguns companheiros ao acampamento da empreiteira, onde hoje é a Vila Planalto, para saber o que de fato havia ocorrido. Lá, ouviu o relato dos operários — de que os policiais chegaram metralhando e de que caçambas teriam retirado corpos do local.

Apurado o caso com os peões, Campos e os demais se reuniram para decidir o que fazer com as informações. “Temos o direito de divulgar o episódio para o país? Não vamos prejudicar o movimento mudancista? Não vamos dar arma para o Carlos Lacerda?”, perguntavam-se. “Concluímos que não tínhamos o direito de não divulgar o que havia acontecido, que era uma obrigação contar ao Brasil o que havia acontecido.” Havia um problema, porém. Nenhuma informação saía de Brasília sem a autorização de Israel Pinheiro, presidente da Novacap. E, à época, a única forma de comunicação possível na cidade era via radiotransmissor. Um dos participantes da reunião se ofereceu para ir a Goiânia transmitir a informação de lá. Foi assim que todo o país ficou sabendo do episódio da Pacheco Fernandes.

Mais de 50 anos e muitas discussões depois, Geraldo Campos diz estar convencido de que alguma coisa muito grave aconteceu naquele acampamento no domingo de carnaval de 1959. Mas não se arrisca a dizer o número de mortos, porque não os viu. “As estimativas vão de um a 100!” Mas sabe que nem a cúpula da Novacap nem Juscelino tinham interesse em revelar o acontecido. Seria um golpe terrível no projeto mudancista.

O velho candango acredita que o episódio mudou a consciência dos operários. Logo depois da violência policial, o presidente da Associação dos Funcionários da Novacap, Heitor Silva, saiu “valentemente”, de acampamento em acampamento, fazendo discursos na hora do almoço: “Vocês estão pensando que estão seguros? Vejam o que aconteceu na Pacheco Fernandes… Pode acontecer com vocês também”. Até o episódio, o operário pensava apenas em si mesmo, na hora extra, no dinheiro que ia mandar para a família no Nordeste. “Depois daquilo, as assembleias da associação no Núcleo Bandeirante começaram a encher.” Nascia, assim, um compromisso coletivo entre os operários.

Diferenças
O episódio da Pacheco Fernandes não interrompeu a crescente adesão de Geraldo Campos à construção da nova capital. Cada bloco de superquadra inaugurado, cada via aberta e asfaltada era uma alegria coletiva para os candangos, até para os comunistas. Mas as diferenças começaram a ficar evidentes entre os servidores. Quando a capital foi inaugurada e os primeiros funcionários públicos vieram do Rio de Janeiro e começaram a ocupar os novos apartamentos, os da Novacap chiaram. Queriam, no mínimo, o direito às casas da W-3 Sul. “Quem enfrentou a lama e a poeira não vai entregar o asfalto sem luta”, era uma das frases de ordem dos candangos. Eles queriam comprar as casas.

Geraldo Campos liderou o movimento para que os empregados da Companhia pudessem ter a escritura da casa, depois para serem dmitidos como funcionários públicos federais. Mais tarde, destacou-se pela sua atuação na conquista dos servidores na Constituinte. Os mesmos avanços corporativos que hoje fazem o velho candango comunista reconhecer seu erro de avaliação. “Eu acreditava na luta contra a exploração do homem pelo homem. E o que me coube fazer foi defender os servidores. Tudo isso deu no que deu”, reconhece, olhando para a foto da Estrutural na matéria onde se revela que Brasília é a cidade mais renitentemente desigual do país.

Presidente de honra do PSDB, viúvo há seis anos, Geraldo Campos se diz surpreso com o fato de ainda estar vivo. Tem uma filha, um neto, uma ponte de safena, um marcapasso, um stent (prótese de angioplastia), uma vida de aventuras e de conquistas políticas. Tanto tempo depois, ele está convencido de que o grande acerto de Juscelino foi fazer o Brasil se voltar para o interior. Mas lamenta: “O sucesso econômico dos servidores públicos fez com que a periferia ficasse fora de Brasília.” Há tristeza (mas há doçura) nos olhos do ex-marinheiro comunista.

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