Publicidade

Correio Braziliense

A fauna exótica do Park Way

Animais esculpidos em concreto fazem a alegria de moradores e de visitantes do bairro. As obras são de um único artista, que, ao longo dos anos, conquistou a comunidade local e hoje tem o maior prazer em ver as pessoas interagindo com suas criações. A má notícia é que elas também estão expostas à ação dos predadores humanos


postado em 18/07/2010 08:30 / atualizado em 18/07/2010 16:24

Gil Marcelino faz esculturas de animais da fauna brasileira: amor pelo Brasil(foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press)
Gil Marcelino faz esculturas de animais da fauna brasileira: amor pelo Brasil (foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press)
Parcialmente localizado dentro da Área de Proteção Ambiental (APA) Gama Cabeça de Veado, o Park Way é exemplo de região pouco habitada, com vegetação preservada e exuberante. Quem circula pela Quadra 28, no entanto, pode acreditar que o território é ainda mais selvagem. Logo após a entrada da quadra, ao longo de quase cinco quilômetros, onças, jacarés, garças e capivaras saúdam os visitantes e moradores que transitam pelos conjuntos. Mas os bichos não fugiram do Zoológico nem se perderam vagando pela mata. Feitos de concreto, saíram da imaginação do artista plástico Gil Marcelino, um espanhol de 65 anos que decidiu recorrer à fauna para democratizar a arte e declarar seu amor pelo Brasil.

Plantada no chão, sua arte adquire uma outra dimensão ao ser tocada por todos que se aproximam. “Em qualquer lugar do mundo que você vá, encontra estátuas de heróis. Mas ninguém abraça um general. Quando encontra um boi, um cavalo pela frente, a postura muda. Estas esculturas foram feitas para esse tipo de interação”, explica. Para Marcelino, como não existe no país a tradição de se relacionar com a arte, é importante levar as obras para onde o povo circula. O tema escolhido, animais selvagens, pretende traduzir uma fauna genuinamente brasileira. “Temos um colorido próprio, diferente de outros países. Não é fácil encontrar por aí essa gama de verdes, marrons, amarelos. Nossa exuberância dura o ano todo”, entusiasma-se.

A reação da plateia tem sido intensa. Muitos abraçam, fotografam, admiram os bichos por um longo tempo. “Ver a Monalisa a dois metros de distância é muito bom. Mas também é legal poder se aproximar da arte”, acredita Marcelino. Enquanto o Correio fotografava o escultor diante de suas obras de arte, uma moradora da quadra perguntou se ele era o autor das peças e o parabenizou pelo trabalho. Um vizinho parou Gil Marcelino no meio da rua para oferecer sacos de cimento e vergalhões usados nas obras, tentando garantir a evolução da galeria a céu aberto. Até o momento são 12 obras espalhadas pela região, e a ideia é chegar a 28, para homenagear a quadra. “Os projetos, depois de um tempo, têm vida própria”, admite Marcelino. Ou seja: o zoológico de concreto pode ganhar proporções que superam os sonhos dele.

Agrado geral
A vizinhança é unânime em aplaudir a iniciativa do artista. Moradora do mesmo condomínio onde Marcelino montou sua casa e ateliê, a empresária Maristela Moreno, 39 anos, notou que a novidade agradou a pessoas dos mais variados gostos. A filha de 10 anos já pediu para tirar fotos ao lado da bicharada. “Na primeira vez que veio aqui em casa depois da instalação das obras, minha mãe deu de cara com uma onça na esquina da minha rua e pensou que fosse de verdade”, conta, bem humorada.

Outro entusiasta dos animais de enfeite é o empresário britânico Richard Harrop, 58 anos. A entrada do condomínio em que vive ganhou como adorno um casal de garças brancas, com as compridas pernas entrelaçadas. Há três semanas, chegou companhia para elas. Harrop caminhava pela pista quando viu uma garça de verdade pousar ao lado das imitações. Correu para pegar a câmera fotográfica e registrar o momento. “Provavelmente enquanto voava, o bicho reconheceu um semelhante. Nunca tinha visto garças no Park Way”, constata.

Antes de ganhar prestígio entre os vizinhos e curiosos, a ideia precisou migrar da cabeça de seu mentor para a vida real. Ele apresentou o projeto à Administração do Park Way, que, além de aprová-lo, decidiu investir na criatividade do artista. Depois de conversar com a Associação Comunitária, que endossou a proposta, eles doaram duas placas com os dizeres: “28, a quadra da arte”. Mais duas placas estão sendo confeccionadas. “Estamos sempre abertos a apoiar boas ideias. E a comunidade tem ligado bastante para elogiar”, avalia o administrador-substituto do Park Way, Carlos Alberto Kacau.

Os animais geralmente são retratados em movimento, com expressões faciais marcantes, e nunca sozinhos. Em uma família de onças-pintadas, o pai, mais corpulento dos três, vigia a área, como se controlasse a aproximação de predadores. A mãe, com o corpo mais delicado, aproveita a grama verdinha do canteiro para se alimentar. O filhote espia quem passa por perto, com olhos sorrateiros. Em outro ponto da quadra, um jacaré de boca aberta, escoltado pelo filhote, assusta os desavisados. “ Tento criar uma cena e invisto no instinto materno”, revela o artista.

Vandalismo
Mas o apelo familiar das obras não livra a bicharada da ação dos vândalos que rondam a área. Uma das onças teve a cauda destruída, provavelmente por alguém que tentou roubá-la. Ao ver que um pedaço da escultura havia se partido, o contraventor desistiu. Outra tentativa de roubar uma das obras de arte teve testemunha. Uma moradora da quadra passava de carro quando viu uma conhecida, que também mora na região, tentando agarrar uma das onças. Durante a ação desajeitada, a felina teve uma pata e o focinho danificados. A moradora anotou a placa do carro da vizinha e mostrou ao autor das esculturas, mas Marcelino decidiu não agir. “Vou deixar um tempo sem restaurar, para que as pessoas se conscientizem do que podem fazer”, comenta.

Para evitar a retirada, todos os bichos da coleção, feitos de concreto, recebem vergalhões nas partes do corpo que serão fixadas no solo. Literalmente, são chumbados ao chão. Todo o procedimento pesado que envolva lixar, polir, manusear fibras e levar as peças ao forno é feito em um sítio em Arniqueiras. O restante é preparado nos fundos da casa de Marcelino. As peças que já enfeitam as ruas do Park Way pesam entre 5kg e 280kg. As menores têm cerca de 30cm e as maiores chegam a 15m. Mas o cliente pode customizar e determinar os moldes das peças, desde que aceite pagar entre R$ 200 e R$ 5 mil, dependendo da encomenda.

O projeto não trouxe despesas à comunidade e é totalmente custeado por Gil Marcelino. Em seu ritmo próprio, ele vai continuar enfeitando as ruas da sua vizinhança. E o resultado é que há uma fila para ter o privilégio de abrigar um animal na porta da casa. O síndico do condomínio escolhido para receber o par de jacarés vai criar uma base elevada, para dar mais visibilidade aos répteis estilizados. Enquanto vivencia o sucesso do sonho ecológico que contagiou os vizinhos, o artista continua sonhando em aumentar a fauna de concreto. “Está vendo aquelas árvores ali ? Quero construir uma coluna por trás delas e colocar uma ave em cima, de asas abertas”, antecipa.

Espanhol de alma brasileira
O artista nasceu no vilarejo portuário de Vigo, na Espanha, e foi para o Rio de Janeiro, de barco, aos 11 anos de idade. Até hoje, não se esquece do momento em que se aproximou do convés do barco e enxergou, pela primeira vez, o Cristo Redentor, de braços abertos sobre a Guanabara. “Sou brasileiro por natureza. Meus olhos ficam marejados quando ouço o Hino Nacional ou vejo a ‘nossa’ bandeira”, emociona-se. A sensibilidade, no entanto, ele trouxe da terra natal. Menino que pastoreava as ovelhas, passava dias solto pelas montanhas, namorando a paisagem e familiarizando-se com os animais. “Até hoje me lembro do cheiro de uma cascavel”, garante. O primeiro objeto que entalhou foi uma caixa de madeira, dada de presente à mãe.

Depois da mudança para o Brasil, Gil Marcelino foi pistonista, alfaiate, sapateiro, gráfico e trabalhou até com enrolamento de motores. Tornou-se fiscal da Receita Federal, carreira pela qual se aposentou, há 12 anos. A arte sempre foi hobby e diversão, e, com a saída do mercado de trabalho, ele pôde voltar à dedicação e ao entusiasmo com suas criações. Hoje, mantém um ateliê com mais 18 amigos, entre escultores, pintores e artesãos. Vive com a mulher e os dois filhos.

E seu estilo não fica restrito aos bichos expostos no Park Way. Ao longo dos últimos anos, ele desenvolveu variadas coleções. As maiores, e em constante exposição, são 150 esculturas feitas em madeira, contando passagens da vida de Dom Quixote, lendário personagem da obra homônima de Miguel de Cervantes. Essas peças, no entanto, não devem ser tocadas. Mas, para que possam ser apreciadas em todos os ângulos, foram encaixadas em uma base giratória. Além de sua Chicoteca — vasta coleção com os mais variados modelos de São Francisco — seu pequeno “museu” reserva um espaço para a arte sacra. Para conhecer o espaço, saber mais sobre o artista ou encomendar obras, os interessados podem ligar para 9986-0028 ou escrever para gil.45@superig.com.br. Em poucos dias, a página pessoal do escultor, www.gilmarcelino.com.br, deve entrar no ar.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade