Publicidade

Correio Braziliense

A luz de Clara

A história da mulher que mudou o rumo da própria vida, transgrediu normas, odeia preconceitos e seguiu a sua intuição. Aos 85 anos, quando a ribalta se acende, ela vira tantas outras, igualmente libertárias. Ainda chora, ri, encanta e renasce.


postado em 25/07/2010 07:54 / atualizado em 25/07/2010 09:20

Atriz e pioneira conhecida Clara Luz, 85 anos, segura fotografias em sua residência(foto: Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press )
Atriz e pioneira conhecida Clara Luz, 85 anos, segura fotografias em sua residência (foto: Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press )
Eram 11h. Quando o portão dos fundos da casa simpática, sem ostentação alguma ou piso superior (paisagem comum naquela região), na 712 Sul, se abriu, ela disparou, às gargalhadas: “Se vocês não chegassem agora, eu iria me encontrar com meu namorado”. E nos manda entrar, segurando o chapéu elegante que a embelezou. Na sala, fotos de uma vida passada, presente sempre. Retratos em que ela vira outra pessoa. Vida que ri, chora, representa e renasce. Vida real. A dona da casa nos convida a sentar. E conversa como se fôssemos amigos de longa data. Conta a vida como se escrevesse um conto. É bom ouvi-la. É boa a sonoridade da sua voz. Faz bem vê-la, de qualquer forma. Até quando ela nem é ela.

A dona da casa se chama Clarestina Maria de Jesus. É mineira, um pouco goiana e candanga — de verdade e essência. Muito antes de a cidade de linhas retas existir, ela já estava por aqui, driblando a poeira e a incerteza vermelha do barro do Planalto Central. Era 1957 quando Clarestina decidiu que Brasília seria seu porto seguro. “Eu amo esta cidade. Foi a melhor escolha da minha vida”, ela se derrete, 53 anos depois.

A filha caçula do marceneiro Francisco e da dona de casa Maria Rita nasceu para brilhar. Mas a menina de Bambuí, lá nas Minas Gerais, só descobriu isso há pouco mais de duas décadas. Faz mal não. Não se conta o tempo quando se trata de Clarestina. “Me chamam de louca. Eu me amo por ser louca e não tenho limites. Nem meu pensamento”, avisa ela, logo nos primeiros minutos de conversa.

De fato. Clarestina está além do seu tempo. Sempre esteve. “Só fui feliz com meus amantes. Nem a rainha da Inglaterra teve tanta felicidade no amor como eu”, diz a mulher que se casou três vezes (“nenhum deles me fez feliz”), teve três filhos e amou com força de leoa. Ah, sim, Clarestina tem 85 anos. Por extenso: oitenta e cinco. Sim, não há equívoco. “Mas, sinceramente, me sinto com cabeça de 40 anos”, diz, sem pudores.

Do primeiro casamento, em Goiânia, nasceram suas duas filhas mais velhas. “Um dia, ele (o marido) quis me bater. Eu não deixei barato. Arrumei a mala, saí de casa, levei minhas duas filhas — uma doente (nasceu com problemas físicos e neurológicos) e a outra recém-nascida.” Clarestina contava 25 anos.

Tempos depois, arrumou o segundo marido. Mudaram-se para o sonho que seria Brasília. “Ele era funcionário da Caixa Econômica Federal”, diz. No primeiro ano, a família viveu no Núcleo Bandeirante. Depois, foram para a 712 Sul, endereço onde está há 53 anos. Veio o terceiro e último filho. Novamente a separação. E o terceiro marido, um militar pernambucano que servia em Brasília, mais jovem que ela nove anos. “Ele era ciumento demais. Tinha ciúme do ar que batia na minha perna. Não aguentei aquilo. Pedi para ele ir embora. Ele me ameaçou, falou até em me matar, mas consegui me livrar dele...”

Depois dos três maridos, Clarestina decidiu que não levaria mais nenhum homem para sua casa. “Como se diz hoje, só fiquei. Tive muitos amantes. E eles me fizeram a mulher mais realizada do mundo. Até na Prainha namorei. O último, que foi há muitos anos, uma noite me levou para a Prainha e me disse: ‘Aqui, meu amor, você pode gemer à vontade’. Ah, meu filho, fui muito amada e dei muito amor...”

Uma estrela
A vida de Clarestina seguiu. Criou seus dois filhos — uma menina e um menino. A filha mais velha, que nasceu com problemas, morreu ainda em Goiânia, aos 2 anos. A menina e o menino cresceram. Tiveram seus filhos. A mulher que nasceu para brilhar assistiu à chegada dos netos e dos bisnetos. “Minha bisneta mais velha tem 15 anos”, diz, orgulhosa da descendência.

A casa simples na 712 Sul ficou grande. Os espaços, enormes. Clarestina decidiu que era hora de fazer alguma coisa. Lendo jornal, descobriu uma oficina de teatro para pessoas de sua idade. “Odeio quando as pessoas usam a expressão terceira idade. É pejorativo. Tudo que é de terceira não presta. Prefiro idoso, é mais direto. Mais real”, ralha.

Clarestina contava 60 anos. “Fui lá. Era no Teatro Mapa’ti. Gostei do que vi.” Ali, ela se descobriu. Encantou-se com o palco. Encenou peças. Descobriu-se atriz. Há 10 anos, participa ativamente do grupo Viva a Vida, do diretor Tullio Guimarães. Ensaia no Espaço Cultural Renato Russo, na 508 Sul. Virou, definitivamente, Clara Luz, nome que adotou artisticamente. Ninguém nunca mais a chamou de Clarestina.

Clara Luz estrelou dezenas de peças. Participou de filmes. Fez comerciais para televisão. Ganhou medalhas, certificados. E vive, com a aposentadoria do INSS de um salário mínimo, a ajuda dos dois filhos e a intensidade de adolescente feliz. “O teatro é uma faculdade de educação. É um desafio de vida. Ali você acaba com todos os seus preconceitos.” E revela: “Hoje, me libertei de todos eles (preconceitos). Odeio quem possa ter, seja ele qual for, por qualquer motivo. Preconceito é ignorância. Não entendo como alguém pode discriminar o outro”.

A mulher de 85 anos foi criada no catolicismo, mas conta que, hoje, sua religião é “a energia com Deus”. E acrescenta: “E com minha consciência também. É ela que me dá tranquilidade para chegar à compreensão de Deus”.

Planos? “A estreia da próxima peça, Vira virou, em setembro, no Teatro Dulcina”. Do que se trata? “É um texto bem bonito, de Maurício Witczak, que fala de uma mulher que não desiste do teatro. Faço a Leonora. No começo da história, ela diz à filha: ‘Não é assim que funciona a linha do tempo de um artista. É como um novelo de lã... O problema é que não consigo achar a ponta. Mas ela está aqui, no meio dessa madeira carcomida, desse cheiro de lembrança quase morta.. Nós tínhamos que ter estreado o espetáculo naquela virada do ano. Tudo teria sido diferente...” A lucidez de Clara é impressionante. E comove.

Viva em êxtase
Passava das 13h. Clara Luz precisava almoçar. A equipe do Correio a convidou para ir ao Beirute, na 109 Sul, reduto de sua gente — atores, formadores de opinião, intelectuais, gente que há muito não se importa mais com o que a mesa ao lado pensa. Ela prontamente aceitou. Colocou os óculos escuros, o chapéu, a bengala que lhe dá charme e partiu. Parecia adolescente.

Indago se ela deseja tomar suco de laranja. Clara Luz vira-se para o garçom e pergunta: “Você tem cerveja preta? Se tiver, aceito uma pequena”. Comeu quibe com nata, charuto e tomou sua cervejinha. Deliciou-se. Sentiu-se em casa. “Esse lugar é sensacional. Há tempos não vinha aqui. O quibe daqui não existe em lugar nenhum da cidade.” E riu, como menina-moça que faz travessuras longe dos pais.

A prosa, meio mineira, meio goiana, muito candanga, continuou. Clara Luz contou sobre suas viagens para o exterior. As vezes em que andou de navio na costa brasileira. Falou sobre política: “Sempre votei, mas desta vez não tô nada animada. Nem com os políticos, muito menos com a população, que não reage a nada, aceita essa safadeza toda”.

Discursou sobre a morte. “Sou a favor da eutanásia, mas o Brasil ainda não aceita. Pra que insistir quando alguém já não tem mais chance, só vegeta? Deixei um documento pronto onde autorizo que desliguem meus aparelhos e me cremem, aliás, o crematório já tá pago. Esse negócio de enterrar é um horror. A terra nos dá vida, alimento e a gente devolve pra ela a p... de um corpo podre...”

Despiu-se do falso moralismo: “Não sou santa, não. Quando tenho que mandar alguém para a PQP, mando mesmo...” Falou de amor: “Não, meu filho, encerrei a conta. Amei muito. Agora, só a vida e o teatro”. E fez uma revelação emocionada: “Tenho plena consciência dos meus 85 anos, mas não consigo conviver com as pessoas da minha idade. O papo é sobre idas ao médico e doença. Eu vou, sou hipertensa e diabética, mas me cuido e não falo só disso. Falo de vida. Pra que armazenar o que é ruim?”.

Essa é Clarestina Maria de Jesus. Ou seria apenas Clara Luz? Seja quem for, essa é uma mulher que ousou, rompeu, apostou, transgrediu. Chorou, riu, amou. Ainda transgride, ama, ri (“chorei o suficiente pra nunca mais ter que chorar, só no palco”) e vive como se hoje fosse para sempre. Clara é luz. É a luz de Clara, uma mulher incrivelmente arrebatadora.

Aplausos! Sempre.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade