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Correio Braziliense BRAVOS CANDANGOS

A secretária do Ernesto

Quando veio para Brasília, em 1957, a taquígrafa Yone de Almeida encharcou lençol de tanto chorar de tristeza. Aos 88 anos, ela relembra as aventuras do ex-chefe e conta uma tragédia acontecida depois do primeiro baile de debutantes da cidade


postado em 07/08/2010 07:00 / atualizado em 06/08/2010 23:44


Tantos anos depois de ter chegado, ela se lembra do primeiro dia em Brasília:
Tantos anos depois de ter chegado, ela se lembra do primeiro dia em Brasília: "Não tinha nada, nada. Eu não queria vir para o mato" (foto: Fotos: Adauto Cruz/CB/D.A Press)
Querer, ela não queria, mas teve de vir para a nova capital. Deixou um senhor emprego de taquígrafa na Standard Oil California e veio encontrar o segundo marido, Ubirajara Santos Roland, que chegarara em novembro de 1956. Em 1º de agosto de 1957, Yone de Almeida chegou ao canteiro de obras com as quatro filhas, Cleide, Leila, Lilia e Uiara, e com a sogra. Foram morar numa das granjas nos arredores do Plano Piloto. Foi o primeiro grande susto: “Não tinha nada, nada. Eu não queria vir para o mato. A casa era de estuque, a telha era vã, não tinha banheiro. A primeira coisa que exigi foi banheiro. Meu marido queria fazer o banheiro do lado de fora da casa. Eu disse: ‘Não, senhor’. Quero civilização. Banheiro é dentro de casa”.

Não adiantou. Yone e a sogra choravam “de encharcar lençol”, tamanho o desgosto de haver trocado a cidade de São Paulo pelo sertão goiano. Mas o lamento durou pouco. A taquígrafa foi chamada para trabalhar na Companhia Urbanizadora da Nova Capital. Começou numa “seção qualquer”, mas poucos dias depois foi transferida para uma das salas mais importantes da Novacap, a do diretor administrativo, Ernesto Silva. Naquele fim de 1957, o chefe de Yone ainda morava no Rio de Janeiro, mas vinha com frequência ao canteiro de obras. Trazia a secretária, Dina. “Eu morria de raiva, porque ela chegava e ia passando o dedo nos móveis, reclamando da poeira. Eu tinha um boy, um garotinho de 10, 12 anos, que vivia com um pano na mão limpando os móveis. Era o único trabalho dele. Mas a Dina não entendia que a poeira cobria Brasília, o tempo todo.”

Lembranças do baile de debutantes que ela organizou: o primeiro(foto: Luciano Carneiro/O Cruzeiro )
Lembranças do baile de debutantes que ela organizou: o primeiro (foto: Luciano Carneiro/O Cruzeiro )
O mais admirável em Ernesto Silva, além de sua capacidade de trabalho, era a sua honestidade. “Naquela época se roubava tremendamente. Eles já sabiam qual era o melhor terreno e cada um pegava dois ou três. Havia ene maneiras de a pessoa ficar milionária em Brasília, e ele não ficou.” Doutor Ernesto tinha uma outra característica memorável: era um encantador de mulheres. “Ele me pediu três vezes em casamento”, conta Yone, 88 anos, divertindo-se com as lembranças do tempo de moça.

Solteira e feliz
O segundo casamento da taquígrafa acabou pouco tempo depois da vinda para Brasília. E ela não quis mais repetir a experiência. “Doutor Ernesto, é a terceira vez que o senhor me pede em casamento. Eu não vou aceitar. Não é por ser o senhor, doutor Ernesto. É porque eu não quero mais me casar.” A solteira Yone conta que se divertiu muito nos primeiros tempos de Brasília. Muitas festas, muitos amigos, churrascos no fim de semana na granja.

Segunda à esquerda, ao lado do engenheiro Pery da Rocha França(foto: Monique Renne/CB/D.A Press/Reprodução )
Segunda à esquerda, ao lado do engenheiro Pery da Rocha França (foto: Monique Renne/CB/D.A Press/Reprodução )
O ex-marido veio para dirigir a Cooperativa Agrícola Mista de Brasília. Foi ele quem primeiro trouxe o gado holandês para a nova capital. Os animais não se adaptaram ao altiplano. Morreram aos montes. A cocheira se transformou numa churrasqueira. Algum tempo depois, Yone e as quatro filhas se mudaram para a Quadra 26, na W3 Sul (atual 710), bem próximo ao escritório da Novacap, onde hoje é o Espaço Cultural Renato Russo.

A vaidosa Yone, então, teve a ideia de montar um salão de beleza, o primeiro do Plano Piloto. No primeiro andar de um prédio na W3, ela juntou dois cabeleireiros e uma manicure e passou a atender as senhoras recém-chegadas à cidade. “Dona Coracy (mulher de Israel Pinheiro) ia ao meu salão.” A manicure ganhava tanto dinheiro, lembra-se Yone, que nos fins de semana sentava-se na porta da cozinha para contar o que havia lucrado. “Ela se mudou para o Rio de Janeiro e comprou um apartamento com o dinheiro de manicure.”

Ascensão e queda
Se muita gente conseguiu enriquecer na capital em construção, outro tanto não soube segurar os ganhos. Uma das amigas de Yone, uma alemã de nome Maria (ela não se recorda o nome completo), foi dona de uma das mais luxuosas butiques da cidade. “Ela dava almoços para o grand mond, era minha vizinha, depois se mudou para o Lago Sul.” Alguns anos mais tarde, Yone foi encontrá-la vivendo na casa da ex-empregada, no Guará. “Perguntei pelas joias dela e ela me disse que só havia sobrado um camafeu, que fora presente do pai e por isso ela não teve coragem de vender.”

Yone, a primeira à esquerda, entre as irmãs: elegância irretocável(foto: Monique Renne/CB/D.A Press/Reprodução )
Yone, a primeira à esquerda, entre as irmãs: elegância irretocável (foto: Monique Renne/CB/D.A Press/Reprodução )
Das histórias daqueles tempos aventurescos, Yone guarda com zelo a organização do primeiro baile de debutantes da cidade. Três de suas filhas, Cleide, Leila e Lilia, participaram da festa. Uma das filhas do engenheiro Bernardo Sayão, Lia, também debutou. No fim, uma tragédia. Um acidente de avião matou o jornalista Luciano Carneiro, de O Cruzeiro, que havia feito a cobertura do baile. Restaram negativos chamuscados que foram reproduzidos pela revista.

Assustadas, as 15 garotas enviaram à revista um pequeno texto, escrito por Yone de Almeida, em homenagem ao jornalista morto. Diziam: “Profundamente abaladas com o trágico fim do nosso querido Luciano Carneiro, queremos expressar a essa Revista o nosso imenso pesar por tão grande perda. Não pudemos ainda acreditar na dura realidade! Ele passou, conosco (as 15 debutantes de Brasília), a última tarde de sua vida. Fotografou-nos mais de cem vezes, com um carinho e paciência que nos deixaram até comovidas. Disse-nos que esta seria uma de suas belas reportagens… O Cruzeiro perde um de seus maiores colaboradores, e nós a pessoa que nos fez crer — durante uma tarde — sermos as princesas no Palácio da Alvorada”.


"Doutor Ernesto tinha uma outra característica memorável: era um encantador de mulheres. Ele me pediu três vezes em casamento"

"Naquela época se roubava tremendamente. Havia ene maneiras de a pessoa ficar milionária, e ele (Ernesto Silva) não ficou"’
Yone de Almeida, 88 anos

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