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Correio Braziliense DROGAS

Asa Norte é refém do tráfico

Reportagem do Correio percorre o bairro e verifica a presença constante de viciados nas quadras, em plena luz do dia. Segundo comerciantes, o crescente uso de entorpecentes na região tem levado ao aumento no número de furtos e roubos


postado em 09/08/2010 07:00 / atualizado em 09/08/2010 08:20

Uma das regiões mais nobres de Brasília, a Asa Norte está perdendo espaço para as drogas. Os traficantes e usuários, que antes atuavam na calada da noite, hoje já não se intimidam com o movimento intenso de pessoas em plena luz do dia. A presença constante de viciados nas quadras faz a violência aumentar em larga escala. Entre os comerciantes, difícil encontrar quem nunca teve seu estabelecimento furtado ou roubado. De acordo com eles, o perfil dos criminosos é quase sempre o mesmo: jovens maltrapilhos, sob efeito de drogas e portando armas de baixo calibre ou objetos cortantes.

Durante dois dias, o Correio percorreu a Asa Norte. Na tarde da última quarta-feira, na SQN 308, a Polícia Militar abordou um deficiente que usa muletas. Ele era suspeito de traficar entorpecentes e, inclusive, já foi detido uma vez. Dois PMs fizeram revista minuciosa na mala que ele carregava, mas nada encontraram. Um dos militares, que pediu para não ser identificado, comentou que é difícil dar o flagrante. “Esses caras que fazem o tráfico formiguinha, são espertos. Eles nunca ficam com a droga. Nós temos fortes indícios da atuação deles, mas não podemos prendê-los sem a prova material do crime”, comentou.

O porteiro de um bloco da 313 Norte conta que a quadra já foi mais problemática à noite, mas ressalta que, atualmente, é possível ver meninos e meninas de classe média consumindo cigarros de maconha nos “pontos cegos” dos prédios. “Isso aqui já foi uma cracolândia à noite. Ficavam mais de 15 pessoas fumando crack(1) nos muros dos prédios. A polícia começou a vir aqui várias vezes e acabou com essa bagunça. O que tem hoje são filhinhos de papai que vêm de outras quadras fumar maconha. Eles sentam debaixo das árvores, ou nas pontas dos prédios, onde não há movimento de pessoas, sempre no fim da tarde”, relatou o funcionário.

Na SQN 302, a calçada sob um toldo de uma lanchonete que fechou as portas recentemente é o lugar escolhido por moradores de rua para consumo de crack. O garçom de um restaurante, localizado ao lado, diz que as reclamações dos frequentadores são recorrentes. “Alguns clientes ficam assustados com isso. Normalmente, eles (viciados) se reúnem mais à noite, quando fechamos, mas, vez ou outra, algum deles para aí na hora do almoço e acende o cigarro de maconha ou crack sem nenhuma cerimônia. Fora que ficam pedindo dinheiro para todo mundo que passa”, denunciou.

No entanto, o ponto mais crítico da Asa Norte fica nas proximidades do Teatro Nacional, onde adultos, adolescentes e até crianças usam entorpecentes sem nenhuma preocupação. Na quinta-feira última, dois garotos, aparentando não ter mais de 12 anos, consumiram duas pedras de crack. Eram por volta de 16h30 e eles não pareciam incomodados com o trânsito de pessoas no local. No mesmo lugar, um rapaz vestido com uma camiseta de um projeto social do Governo do Distrito Federal produzia um cigarro de maconha e consumia ali mesmo. Quando percebeu que estava sendo fotografado, tirou do bolso uma máquina e começou a fingir que estava registrando imagens do ambiente.

Também na última quinta-feira, no gramado próximo ao Teatro Nacional, nem mesmo a presença de três motocicletas da Polícia Militar inibiu um grupo de 11 jovens. Eles usavam crack antes de o dia terminar, justamente o horário de maior movimento na região. Quando a droga acabou, um deles foi para o semáforo mendigar. Os trocados que conseguiu dos motoristas foram investidos em pedras, que ficam guardadas com um homem de blusa azul, aparentemente o organizador do comércio clandestino.

Para o presidente do Conselho Comunitário da Asa Norte, Raphael Rios, o crescente aumento na criminalidade no bairro é reflexo da expansão das drogas. “As pessoas assaltam para roubar R$ 50, R$ 100. É o típico crime que o ladrão comete para sustentar o vício. Já virou uma questão de saúde pública o tráfico de drogas aqui na Asa Norte, e não apenas de segurança. Não falta apenas policiamento. Faltam também políticas públicas voltadas para o tratamento dos usuários, oferecer educação e lazer para que eles não se envolvam com isso. Ainda não chegamos ao fundo do poço, mas se uma ação inteligente não for feita, em breve estaremos lá, pois a Asa Norte passa por um dos piores momentos da sua história”, afirmou Raphael.

1 - Apreensões crescem
As apreensões de crack no Distrito Federal subiram 175% no ano passado em comparação com o ano anterior, de acordo com a Polícia Civil. A droga age no sistema nervoso central, provocando aceleração dos batimentos cardíacos, aumento da pressão arterial, dilatação das pupilas, suor intenso, tremores, excitação, maior aptidão física e mental. Os efeitos psicológicos são euforia, sensação de poder e aumento da autoestima. Seu consumo pode levar à morte.


Memória

Casos de violência na Asa Norte nos últimos meses

29/3
O segurança da matriz do Hortifruti Oba, na 306 Norte, Thiago de Almeida Martins, 29 anos, foi assassinado ao tentar impedir o roubo de um malote de dinheiro. O rapaz foi atingido com dois tiros nas costas e morreu antes de ser socorrido.

28/5
Uma mulher foi encontrada morta dentro de um apartamento, no Bloco B da Quadra 308 Norte. A vítima, Ana Maria Pinto da Costa, 23 anos, seria garota de programa e usaria o local, onde mora com uma amiga, para atender seus clientes. A vítima foi encontrada de bruços sobre a cama, com as mãos amarradas para trás com fios de uma extensão e uma blusa dentro da boca. Ela vestia roupas íntimas e calçava sandálias.

7/7
Na Pizzaria Valentina, situada na 214 Norte, três homens encapuzados e armados invadiram o lugar e levaram dinheiro e objetos pessoais dos clientes. Os bandidos trancaram os clientes em uma sala da loja e fizeram o arrastão.

7/7
O canteiro de obras da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Ciência da Informação e Documentação (FACE) foi assaltado. Dois homens armados amarraram oito pessoas que trabalham no local. Ninguém se feriu. A dupla, no entanto, levou seis telefones celulares, quatro cartões de crédito, três notebooks, documentos pessoais e aproximadamente R$ 160 em espécie.

10/7
Um casal de adolescentes é baleado depois de um assalto na 706 Norte. Eles foram atingidos na cabeça, mas foram submetidos a uma cirurgia e receberam alta dois dias depois, sem ficar com sequelas. Os jovens caminhavam pela quadra, por volta das 19h30, quando um homem anunciou um assalto. Os dois entregaram o que tinham nos bolsos, mas o rapaz não se contentou e disparou primeiro na nuca do garoto, de 16 anos. Depois, apontou para a namorada dele, da mesma idade, e também puxou o gatilho. A polícia acredita que os dois se salvaram porque a arma utilizada pelo criminoso era velha demais.

11/7
Três homens armados invadiram as portarias de dois blocos, H e G, da 109 Norte, renderam os porteiros e levaram aparelhos eletrônicos, celulares e dinheiro dos porteiros. O trio ainda atravessou o Eixinho Norte e assaltou o posto de gasolina da mesma quadra.


Carros guardam armas

O poder público decidiu atacar o problema das drogas na Asa Norte removendo das quadras veículos abandonados. Somente na semana passada, uma ação conjunta envolvendo a Administração Regional de Brasília, o Departamento de Trânsito (Detran) e a Polícia Civil retirou de estacionamentos de quadras residenciais 14 carros. De acordo com a delegada-chefe da 2ª Delegacia de Polícia (Asa Norte), Mônica Loureiro, os automóveis estariam sendo usados como esconderijos de drogas, armas e produtos roubados. “Já recebemos diversas denúncias de pessoas que usam esses veículos para deixar drogas e até mesmo ‘esfriar’ (guardar por algum tempo para buscar depois) produtos roubados, além, é claro, de ser um risco para a saúde pública, pois um carro abandonado é altamente propício para a proliferação dos mosquitos transmissores da dengue”, alertou a delegada.

O gerente de uma panificadora na 313 Norte, Rivelino de Oliveira Bessa, 25 anos, aprovou a iniciativa, mas diz que outras medidas também devem ser adotadas. O estabelecimento em que ele trabalha já foi assaltado três vezes em menos de um ano e o trabalhador acredita que, em todos os casos, os autores dos roubos estavam sob efeito de entorpecentes. “Dá para perceber que não são pessoas que estudam o ambiente antes de assaltar. Eles agem de acordo com a oportunidade, querem levar qualquer quantia para comprar droga. Sem contar que alguns ficam pedindo esmolas sem nem conseguir ficar em pé direito, de tão drogados que estão. Muitos clientes evitam até estacionar o carro em frente à padaria. Acho que a polícia deveria fazer operações maiores para prender os grandes traficantes. Não adianta prender um rapaz com um cigarro de maconha porque logo ele vai estar nas ruas de novo. Tem que colocar atrás das grades quem abastece os viciados”, afirmou Rivelino. (SA)

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