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Correio Braziliense

Movimento pela natureza

Moradores de um condomínio da cidade se organizam em torno da nascente Luar do Cerrado, que, embora tenha sido criada como refúgio da flora, devido aos desmatamentos constantes, expõe ao risco de destruição boa parte da mata ciliar próxima ao local


postado em 14/08/2010 07:00


O estudante Mikael Campos (de verde): %u201CSe continuarmos desmatando, não teremos mais água potável%u201D(foto: Elio Rizzo/Esp/CB/D.A Press)
O estudante Mikael Campos (de verde): %u201CSe continuarmos desmatando, não teremos mais água potável%u201D (foto: Elio Rizzo/Esp/CB/D.A Press)
No lugar de cascalho, valas de concreto. Em meio a cipós e vegetações rasteiras, cimento e blocos. A nascente Luar do Cerrado, no Condomínio Império dos Nobres, em Sobradinho, está fadada a desaparecer caso a vala de escoamento de água da chuva, construída sobre a bica, continue a desaguar enxurradas de destroços durante as chuvas. “Nos próximos meses, a correnteza da água da chuva que descerá vai destruir as vegetações da mata ciliar, causando grande erosão e destruindo a nascente”, explicou o professor de biologia da Universidade de Brasília (UnB) Gabriel Rizério aos cerca de 30 alunos do 6º ao 9º ano de duas escolas públicas de Planaltina de Goiás. Preocupados em proteger o meio ambiente, os futuros heróis do planeta deixaram as salas de aula para, de perto, discutir temas que minimizem os impactos causados pelo homem na natureza.

Entusiasmados a cuidar da nascente, os alunos se ajudavam na íngreme descida da reserva. Atrás da casas, no Condomínio Império dos Nobres, há uma reserva quase virgem, com cipós, árvores fechadas e muita vegetação rasteira. Os cães soltos correm pela mata como donos do pedaço. As folhas secas caídas sobre a terra fofa deixam a descida ainda mais escorregadia e perigosa. De longe, na trilha, uma vala chama a atenção. O cinza do cimento se destaca em meio ao verde. “É uma obra faraônica”, avalia a proprietária do terreno, Lauréti Mascarin, 56 anos.

A canaleta construída para escoar a água das chuvas do condomínio tem pelo menos 30mde comprimento e 3m de largura. A cada 10m, há uma caixa d’água. Com a seca extrema (há mais de dois meses não chove no DF), é possível perceber a profundidade da canaleta. “Cada uma delas suporta pelo menos 30 mil litros. Em época de chuva, elas enchem e transbordam em questão de minutos. Por baixo, é possível estimar que desçam cerca de 100 mil litros por hora. Tudo isso cai sobre a nascente”, explica a advogada Luiza Mascarin, 25 anos, também moradora.

Chuvas
A força da água da chuva prejudica a mata ciliar, que é a formação vegetal localizada nas margens dos rios, córregos, lagos, represas e nascentes. “Sem a proteção da mata ciliar, a nascente pode sofrer com erosão”, completou Gabriel Rizério. “Este lugar deveria estar protegido. Não se pode construir nada em pelo menos 50m de diâmetro da nascente”, apontou o professor de biologia. No discurso aos alunos, Rizério se embasa na Lei n° 4.771/65, do Código Florestal. “Deve-se manter intocada, e caso esteja degradada, deve-se prever a imediata recuperação”, determina a legislação (ver O que diz a lei).

Num clima propício ao aprendizado, os olhares ficam atentos às explicações. A consciência ambiental dos alunos nas escolas municipais Darcy Ribeiro e Marcelo Lemgruber começa a se formar ao perceber os estragos. Aluno do 6º ano do ensino fundamental, Tauã Pereira da Silva, 11 anos, repete o que acabara de aprender: “As árvores protegem a natureza. Não se pode desmatar para construir prédios”. Atento à preocupação com a bica de água, Mikael Lopes Campos, 12 , também estudante do 6º ano do ensino fundamental de Planaltina de Goiás, completa a fala do amigo: “Se continuarmos desmatando, não teremos mais água potável. E não há vida sem água”, completou. “As proteções naturais devem ser conservadas, ao contrário do que vimos aqui”, ressaltou Danilo Kauã Dantas Sousa, 12, do 6º ano.

O projeto de conscientização de crianças e adultos faz parte da 6ª edição do Festival Água no 3º Milênio do Distrito Federal. A programação do fim de semana tem eventos de arte, cultura, educação ambiental e de preservação de nascentes. A abertura da 7ª edição será realizada amanhã, no Parque Olhos d’Água (ver programação). O festival lança programas de conservação a serem implantados durante todo o ano. O Correio procurou o Condomínio Império dos Nobre e o Instituto Brasília Ambiental (Ibram), mas não obteve retorno.



"Este lugar deveria estar protegido. Não se pode construir nada em pelo menos 50m de diâmetro da nascente”
Gabriel Rizério, professor de biologia




Importância da mata ciliar

Escassez da água
A ausência da mata ciliar faz com que a água da chuva escoe sobre a superfície, não permitindo sua infiltração e armazenamento no lençol freático. Com isso, reduzem-se as nascentes, os córregos, os rios e os riachos.

Erosão e assoreamento
A mata ciliar é uma proteção natural contra o assoreamento. Sem ela, a erosão das margens leva terra para dentro do rio, tornando-o barrento e dificultando a entrada da luz solar.

Pragas na lavoura
A ausência ou a redução da mata ciliar pode provocar o aparecimento de pragas e doenças na lavoura e outros prejuízos econômicos às propriedades rurais.

Qualidade da água
A mata ciliar reduz o assoreamento dos rios e deixa a água mais limpa, facilitando a vida aquática.

Impede a formação de corredores naturais.
Essas áreas naturais possibilitam que as espécies, tanto da flora quanto da fauna, possam se deslocar, reproduzir e garantir a biodiversidade da região.


Programação
Hoje
10h: atividades de preservação de nascente
14h: atividades no Núcleo Gaspar, na zona rural de Brazlândia. Em seguida, atividades em estações de agrofloresta e fossa ecológica, reservatórios para captação de água da chuva, irrigação, compostagem e biogel, plantio de sementes com reuso de caixas de leite e suco, sabão ecológico, arte e cultura

Amanhã
10h: caminhada ecológica e saudação à água no Parque Olhos d’Água, na Asa Norte. Encerramento da 6ª edição e abertura da 7ª Edição do Festival Água no 3º Milênio no Distrito Federal.


O que diz a lei
A mata ciliar é uma área de preservação permanente, que, segundo o Código Florestal (Lei n.° 4.771/65) deve-se manter intocada; e, caso esteja degradada, deve-se prever a imediata recuperação. Toda a vegetação natural (arbórea ou não) presente ao longo das margens dos rios e ao redor de nascentes e de reservatórios deve ser preservada. De acordo com o artigo 2° dessa lei, a largura da faixa de mata ciliar a ser preservada está relacionada com a largura do curso d'água. A tabela apresenta as dimensões das faixas de mata ciliar em relação à largura de rios, lagos, represas e nascentes.

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