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Correio Braziliense

Em nome da fé

A 310km de Brasília, num vilarejo goiano onde nem celular pega, mais de 200 mil pessoas veneram Nossa Senhora d%u2019Abadia, padroeira da região. Cenas de devoção convivem lado a lado com uma festa nada santa, que se encerra hoje. São o sagrado e o profano em perfeita harmonia


postado em 15/08/2010 08:57 / atualizado em 15/08/2010 10:22

Marcelo Abreu (Texto) e Breno Fortes (Fotos)
Enviados especiais

Muquém (GO) — A caminhada é longa. São 45 quilômetros, contando da primeira estação, até chegar ao destino, o santuário. Mas eles vão. A pé, a cavalo, de carro, em ônibus entupidos. Vencem sol e frio. Vencem a sede. A fome. E chegam. Os que vão a pé desabam. Os pés vêm em carne viva. E, sangrando, entram naquele templo para pegar numa fita longa de cetim que conduz ao pé de uma santa, miudinha, colocada a oito metros do altar. O nome disso? Fé. Que lugar é esse? Muquém, povoado de Niquelândia (GO), um lugar tão improvável que parece quase não existir. Nem celular pega. Nem com todas as rezas. Nem subindo os morros da região.

Mas esse lugar existe. E é tão real que comove. Carrega pra lá mais de 200 mil pessoas atrás de Nossa Senhora d’Abadia de Muquém, a padroeira da região. Hoje, essa multidão — que foi chegando aos poucos desde o último dia 5, quando os romeiros levaram a imagem da santa de Niquelândia ao povoado — despede-se dela, numa enorme procissão em torno do gigante santuário. Haverá lágrimas, risos, aplausos. Velas iluminarão o povoado. E eles terão a certeza de que nem o sangue que saiu dos pés e dos joelhos em carne viva será capaz de detê-los.

A devoção daquela gente impressiona. E no ano que vem tem mais — há 262 anos a santa espera pelos seus devotos, no mesmo lugar improvável. E todo o ritual se repetirá na mais antiga festa religiosa de Goiás (começou em 1748) e uma das maiores do mundo. Amanhã, Muquém voltará a ser Muquém. A multidão deixa o povoado. Ficarão o enorme santuário e os moradores do vilarejo, que não passam de 300 pessoas.

Na manhã da última quinta-feira, o Correio chegou ao lugar, depois de vencer 265km até Niquelândia e mais 47km ao povoado. No caminho, na GO-237, chamada de Rodovia da Fé, as primeiras cenas de devoção revelam que lugar é aquele. Ao longo de toda a estrada, as 15 estações (últimos momentos da vida de Cristo, antes da morte na cruz) se apresentam. Imagens de concreto em tamanho normal repetem a vida e o martírio do Filho de Deus.

Depois da 7ª estação, ao longo do caminho, uma mulher anda a pé. São11h50. E ela já caminhou 15km. Gislaine de Fátima Alcântara, pedagoga de 49 anos, casada, dois filhos, está na estrada desde as 5h30. O suor lhe encharca o rosto. Mas ela não desiste. O marido, Osmar Luiz de Alcântara, 60, para lhe dar apoio, com água, fruta e biscoito, vai à frente, dirigindo o Fiat Uno da família, que saiu de Brazlândia para Niquelândia. Ali, da primeira estação, Gislaine começou a peregrinação.

Gislaine paga promessa por uma graça muito particular. Carrega um terço na mão. De uma estação para outra, reza. “É a quarta vez que venho. A primeira a pé. Tô cansada, mas vale a pena cada passo. A fé me dá força”, diz, com a respiração ofegante. A família inteira, pelo menos umas 50 pessoas — gente de Brazlândia, Taguatinga, do Guará, Núcleo Bandeirante e Plano Piloto — já havia chegado a Muquém, para montar as barracas.

Milagres
Gislaine segue sua caminhada. Há muita estrada para andar. Mais à frente, três cavalos despontam na pista. São dois homens e uma criança. José Amaral, agricultor de 70 anos, o sobrinho dele Edmar Ferreira, 37, e o sobrinho-neto Pedro Augusto, 7, saíram de Cocalzinho (GO) com destino ao Muquém. “Uai, sô, essa festa é linda demais. É a segunda vez que venho”, diz José.

O três cavaleiros pegaram a estrada no domingo. Saíram na madrugada, para cavalgar por 250km. Nos fins de tarde, pousaram em ranchos de gente conhecida. Na quinta-feira, venciam o quarto dia. E se aproximavam, às 13h30, da 12ª estação — Jesus morto na cruz.

José e os sobrinhos descem do animal. Tiram o chapéu e rezam. A cena é de uma beleza que só o silêncio daquela estrada pode explicar. “Sou devoto do Divino Espírito Santo e de Nossa Senhora. Onde tem santo eu vou atrás”. diz, simplesinho, o homem da roça que fez da fé, no lombo de um cavalo, o sentido da peregrinação.

José e os sobrinhos seguem suas cavalgadas. Muquém se aproxima. Veem-se carros, de todos os tipos e ano, abarrotados de gente, barracas e tralhas. O vilarejo está entupido. Vira um verdadeiro acampamento. Depois, mais à frente, chega-se ao Santuário de Nossa Senhora d’Abadia. É um lugar simples e gigante, com chão de cimento e bancos de madeira.

Cabem ali 22 mil pessoas — sentadas e em pé. Antônio Cupertino de Carvalho, 60 anos, saía do santuário com sua mulher, Dorgalina Maria, 59. Eles moram em Faz Tudo, um povoado próximo. Chegaram espremidos numa van. Antônio veio agradecer a cura da doença. “Por causa de um problema no joelho, fiquei deitado num sofá um ano. Curei de tudo”, diz. E se extasia: “Há 12 anos, apareceu um tumor do lado esquerdo do rosto. Fiquei bonzinho. Foi ela, Nossa Senhora d’Abadia, quem curou. Tive dois milagres”.

Sangue no joelho
São quatro missas por dia. Entre uma e outra, as cenas de devoção se repetem. E de fato comovem. Abadio Xavier, roceiro de 57 anos, deixou Santo Antônio do Descoberto rumo a Muquém. Trouxe o filho, Bruno, de 14 anos. “Eu venho há 20 anos, mas é a primeira vez que pago promessa”, conta. Com os joelhos em carne viva, desde a rampa do santuário, ele entrou na casa da santa. Até chegar ao altar, teria que vencer 150 metros. Fez isso, em prantos e segurando uma vela acesa. O filho ia em pé, segurando outra.

Abadio, batizado com esse nome pela devoção da mãe a Nossa Senhora d’Abadia, chorou durante todo o tempo em que se arrastou naquele santuário. E chegou ao pé da santa, atrás do altar. Pegou a fita e sentiu uma paz tamanha, que o fez cessar as lágrimas. “Parecia que eu tava anestesiado. A dor passou”. E explica o motivo da promessa: “Caí de um caminhão e o doutor disse que ia ficar sem andar pra sempre. Tô aqui, andando, curado. Quando a gente acredita, moço, tudo pode acontecer. Eu não me canso de ter fé”.

Responsável pelo santuário, padre Aldemir Franzin, 50 anos, paranaense de nascimento e “goiano de coração”, tenta explicar o que leva aquela multidão a rezar por nove dias em Muquém. “Eles vêm atrás do alimento de Nossa Senhora, da bênção. E encontram.”

Santidade e pecado
Cenas e mais cenas de catarse de fé continuam. A noite se aproxima. A missa das 19h, a sertaneja, é a mais esperada. Adão Soares, o padre de chapéu de cowboy, faz a celebração. Oito sacerdotes ajudam. Há, pelo menos, 10 mil pessoas ali — dentro e do lado de fora do templo.

A missa, toda cantada em estilo sertanejo, empolga os romeiros. Homens e mulheres, de bota e chapéu, rezam. Moças de microvestido também desfilam. O berrante toca de tempos em tempos. O padre avisa: “De pequeninho, pequeninho, o erro chega ao pecado...” Um homem chora ajoelhado, segurando o chapéu de couro gasto. Uma mulher soluça, agarrada a um terço de madeira.

Cabines de confissões se espalham por todo o santuário. O padre sartanejo alerta: “Não se pode ter limite no perdão. Se eu não posso perdoar meu irmão, não posso rezar o Pai-Nosso”. O berrante toca. Os fiéis rezam de mãos dadas. Duas horas e meia de missa. Ninguém arreda pé.

Mas a noite em Muquém, lotada de barracas e gente, está apenas começando. Nos acampamentos, música, comida, bebida. Famílias inteiras reunidas. Elvécio Rodrigues, 59 anos, nesta época do ano, deixa o comércio em Taguatinga e segue para Muquém. Leva a família inteira. São 14 barracas e 20 pessoas. “Venho pela fé. Meu pai era devoto”, ele conta. A cozinheira do grupo, Maria de Fátima Souza, 54, é evangélica. Mas estava lá. “A procissão é bonita”, admite. Luana Rodrigues, 24, filha de Elvécio, se arruma para ir ao bailão com o namorado. “Tem hora de rezar e dançar”, diz a moça.

Longe da igreja, o comércio, improvisado em barracas cobertas por lonas, toma espaço. São mais de duas mil. Tem de tudo: roupa, calçado, bijuteria, comida e bebida, muita bebida. A renda com o aluguel dos pontos, devidamente cadastrados, vai para a igreja. Num barracão de chão batido perto do morro, a festa rola até tarde. O poeirão sobe e a balada promete. Tem forró, house, axé e, claro, sertanejo. A caipirinha, de cachaça ou vodka, com nomes picantes, é pra quem aguenta o tranco. Nossa Senhora d’Abadia, nessa hora, deve estar dormindo.

Sagrado e profano. Reza e axé. Hóstia e cachaça. Devoção sem limites e curtição adoidado. Não importa. Essa história já valeria a pena ser contada quando mais de 200 mil romeiros invadem, durante nove dias, um povoado onde vivem não mais que 300 pessoas e quase nada tem, exceto um santuário. Caminham, esfolam os pés, vêm em bandos, rezando, dançando e bebendo. Vêm de carro, em vans entupidas, a cavalo. Acomodam-se em barracas improvisadas. E chegam, extasiadas, àquele vilarejo. No Muquém, santidade e pecado convivem juntinhos. Na mesma barraca. No ano que vem tem mais.
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