No subsolo da praça havia um bar onde as pessoas conversavam e se livravam do estresse do dia de trabalho. Do lado de fora, alguns formavam uma roda para cantar e tocar violão, ao mesmo tempo em que admiravam o céu estrelado da capital federal e da imponente arquitetura dos monumentos onde são tomadas as decisões políticas do país. Todo o cenário foi projetado no início da construção de Brasília pelo arquiteto Oscar Niemeyer, mas, em 50 anos, o lugar não foi bem aproveitado e a casa já não funcionava há cerca de 20 anos (veja memória). Um risco de desabamento da estrutura e interferências políticas foram responsáveis pelo fim dos encontros e pelo consequente abandono.
Na inauguração, diversas autoridades no ramo de turismo e representantes de restaurantes de 27 estados do Brasil marcaram presença. A decoração rústica e a iluminação deram ainda um toque europeu ao lugar. No cardápio, foram servidas carnes exóticas como a de javali, de tartaruga e de capivara. Para a data, foram realizados polimento do piso, pintura, reparos nas instalações hidráulicas, troca de 90 lâmpadas e limpeza do ar-condicionado. Ainda estão previstos a impermeabilização e o ajuste do depósito.
A notícia da reabertura da casa trouxe felicidade para a tradutora Vanira Tavares, 44 anos. Ela se lembra que, em 1981, quando tinha 19 anos, saía direto do trabalho no Supremo Tribunal Federal (STF) para observar o pôr do sol e encontrar os amigos. ;A Casa de Chá era nosso happy hour. Sempre foi um lugar romântico para pessoas sensíveis.; Vanira conta que o espaço servia também de abrigo do sol e da chuva para os visitantes daquela época. ;Não poderia ter ficado tanto tempo fechada, porque sempre foi um lugar muito agradável;, destacou.
Filho de pioneiro, o engenheiro Marcelo Alves Venzi, 44 anos, foi um dos frequentadores assíduos da casa em 1984. Tinha 18 anos à época em que se divertia na minipista de dança da antiga estrutura. ;Tocava pop rock. Era muito animado. Às vezes a galera ficava até umas 6h, quando amanhecia. A casa era muito boa para bater papo e para namorar também;, relembrou.
Toda a decoração para a inauguração da Casa de Chá é assinada por Virgínia Darc, 56 anos. Ela também foi uma das jovens da década de 1970 que se divertiam no local. ;Era época de ditadura e de muita repressão. As pessoas podiam ser presas por qualquer motivo. Só aqui é que ninguém chegou a perturbar. A Casa de Chá tinha um restaurante muito charmoso e parecia muito pequena, de tanta gente.; O local era muito frequentado por gente de paletó e gravata. ;Eles chegavam em carrões pretos;, contou, entre risos.
Turista bem servido
A reforma da Casa de Chá faz parte do pacote de obras na Praça dos Três Poderes, iniciadas no ano passado e com previsão inicial de conclusão para as comemorações do cinquentenário de Brasília, em 21 de abril. Ao todo, R$ 103 milhões foram investidos somente no Palácio do Planalto, entregue em maio deste ano. A Casa de Chá custou cerca de R$ 500 mil, e as reformas na bandeira nacional da praça e do Panteão da Pátria (ainda não finalizada) já somam juntas mais de R$ 1 milhão.
Segundo o secretário de Turismo do DF, Delfim da Costa Almeida, a casa abrigará um dos CATs ; Centro de Atendimento ao Turista ; que tem previsão para ser aberto neste semestre. Por determinação da lei, não será permitida a venda de bebida alcoólica, como ocorria antigamente. A casa terá por finalidade atender visitantes e turistas que circulam todos os dias pela Praça dos Três Poderes. Haverá um cybercafé onde serão servidos lanches e bebidas como chá, água e refrigerante. ;Hoje o turista que visita a praça não tem banheiro e lugar para beber água. Tem que comprar do camelô, em caixas de isopor. A casa reaberta vai trazer conforto para os visitantes;, acredita o secretário. A partir deste mês, a Secretaria de Turismo pretende abrir processo de licitação para decidir a empresa que vai explorar o ponto. A casa deverá ter as portas abertas ao público até meia-noite.
Palavra de especialista
Praça valorizada
Não basta ter monumento e não ter estrutura para recepcionar as pessoas. A reabertura da Casa de Chá resgata uma tradição e vai ao encontro das expectativas do turista. Naturalmente, a novidade acarretará em um aumento no tempo de permanência do turista na Praça dos Três Poderes.
Neio Campos, presidente do Centro de Excelência e Turismo da Universidade de Brasília (UnB)
Neio Campos, presidente do Centro de Excelência e Turismo da Universidade de Brasília (UnB)
Memória
Uma obra arrastada
Nas décadas de 1970 e 1980, a Casa de Chá ficou sem administração por falta de arrendatário. Em setembro de 1994, o espaço virou um Centro de Atendimento ao Turista (CAT), que ficou aberto por seis anos, mas acabou fechado por risco de o teto desabar. Um convênio entre o Governo do Distrito Federal(GDF) e a Fundação Israel Pinheiro, em setembro de 2003, aumentou as esperanças de reabertura da casa. O prazo estabelecido para a entrega da reforma era 30 de abril de 2004, mas o investimento de R$ 150 mil do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDES) não foi suficiente. Os problemas estruturais demandaram mais verba e então o GDF resolveu assumir a obra. Desde dezembro de 2005, a Casa de Chá está sob responsabilidade da Secretaria de Obras. Na época, o presidente Lula pediu à então governadora Maria de Lourdes Abadia que resolvesse o problema o mais rápido possível. No dia seguinte, Maria Abadia ordenou que a licitação fosse realizada na semana posterior e garantiu à população que a reforma ficaria pronta em quatro meses.