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Correio Braziliense

Retomar a vida após sofrer uma violência brutal não é uma tarefa simples

Vítimas e seus familiares mostram a dificuldade de retomar a vida após serem alvos de seus algozes. Pró-Vítima fez quase mil atendimentos que passam por esse drama


postado em 23/08/2010 08:08

Retomar a vida após sofrer uma violência brutal não é uma tarefa simples. O medo de andar sozinho, a dificuldade em se relacionar e o prejuízo no estudo e no trabalho são apenas alguns dos traumas que milhares de pessoas carregam depois de se tornarem vítimas de espancamento, estupro, assalto, entre outras formas de agressão. Em 12 meses — entre abril de 2009 ao mesmo mês deste ano —, a Subsecretaria de Proteção às Vítimas de Violência (Pró-Vítima), órgão vinculado à Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Cidadania (Sejus), prestou 955 atendimentos (veja quadro) psicossociais a brasilienses que se enquadram nesse perfil. O tratamento consiste em ajudá-los a cicatrizar um sofrimento que parece não ter fim.

Os números revelam que a violência é mais acentuada dentro de casa. Quase 40% dos tratamentos são oferecidos a crianças, adolescentes e mulheres que apanharam de algum integrante da família. Em seguida, aparecem aqueles que não conseguem superar a dor de ter perdido um ente querido em homicídios, latrocínios (roubos seguidos de mortes) e suicídios (26,9%). O luto pode parecer eterno para alguns. Muitos veem sua vida pessoal e profissional desandar após enterrar alguém próximo, mas a subsecretária do Pró-Vítima, Valéria Velasco, ressalta que, com acompanhamento psicológico, é possível minimizar o sofrimento.

Valéria, que empunha a bandeira contra a violência, passou por uma experiência semelhante. Em 1993, o seu filho Marco Antônio Velasco, então com 16 anos, foi espancado até a morte por 10 jovens de uma gangue, na 316 Norte. Todos eram praticantes de artes marciais e cinco, menores de idade. “Dependendo da circunstância do crime, ficam marcas para o resto da vida, mas elas podem ser amenizadas com um tratamento sério. No Pró-Vítima, há casos de pessoas que ficam tão maltratadas que desaparecem, não dão prosseguimento ao tratamento, mas esses são poucos. Em geral, percebemos que o trabalho desenvolvido aqui tem gerado resultados extremamente positivos”, ressalta.

Recentemente, três famílias foram abaladas pela violência desmedida. No dia 10 de julho, um casal de adolescentes foi baleado durante um assalto na 706 Norte. Os dois entregaram tudo que tinham, mas o bandido não se contentou e disparou primeiro na nuca do garoto, de 16 anos. Depois, apontou para a namorada dele, da mesma idade, e também puxou o gatilho. Por sorte, as balas eram velhas e não tiveram pressão suficiente para romper o crânio e atingir partes vitais do cérebro.

O pai do rapaz, o servidor público Petrônio Caldas França, 45 anos, preocupa-se com o estado psicológico do filho. “Ele tenta demonstrar que superou esse trauma, mas percebo que ainda está revoltado e assustado com tudo o que aconteceu. Depois dessa dupla tentativa de homicídio, eu e minha esposa sempre o acompanhamos nos lugares. Nas poucas vezes em que ele sai sozinho, nós ficamos com o coração na mão, até porque esse sujeito ainda não foi preso”, contou Petrônio.

A situação da nora, segundo o servidor público, é ainda mais delicada. “Ela tem medo até de chegar na janela. Está muito traumatizada. Os dois estão fazendo acompanhamento psicológico, mas sei que não vai ser fácil fazer com que eles esqueçam tão cedo essa barbaridade”, complementou.

Selvageria
A mãe de David (nome fictício) também procura entender as razões de uma selvageria protagonizada por oito rapazes contra seu filho de 15 anos, aluno do Centro de Educacional Caseb, situado na 909 Sul, no último 1º de julho. A agressão ocorreu na parada de ônibus que fica a 300 metros do colégio.

O menino levou várias pauladas e chutes na cabeça e teve que fazer duas cirurgias no Hospital de Base do DF (HBDF). “Estamos assustados. Até hoje eu sonho com meu menino hospitalizado. Sinto que tem gente nos seguindo. Nossa vida virou uma paranoia”, contou a cobradora de ônibus Ana Lúcia das Chagas Lessa, 41 anos.

Ainda se recuperando em casa da operação, o jovem diz não ter mais coragem de pisar na escola. “Lá (no Caseb) eu não estudo nunca mais. Pode ser que a família de algum deles venha atrás de mim. Eles (agressores) acabaram com o meu sonho de ser jogador de futebol. O médico disse que eu não posso mais jogar bola, porque meu crânio está colado e existe o risco de abrir se eu receber uma pancada”, lamentou o garoto, espancado logo após defender a prima, também estudante do Caseb, que se chateou com uma brincadeira de mau-gosto feita pelos acusados.

O mesmo sentimento vive a família de Ricardo (nome fictício), de 11 anos, que recebeu um tiro nas costas durante uma abordagem policial na Fercal, em Sobradinho, no último dia 7. O garoto, que ainda está internado no Hospital de Base, corre o risco de ficar com sequelas. “Meu filho tem medo quando qualquer pessoa entra no quarto. Acha que vão matá-lo a qualquer momento. Ele está muito traumatizado”, disse o pai, o garçom Antônio Paulo de Oliveira, 38 anos.

Tudo de novo
Quem passa por esse tipo de sofrimento pode adquirir o transtorno de estresse pós-traumático. Trata-se de uma perturbação psíquica decorrente e relacionada a um evento fortemente ameaçador ao próprio paciente ou sendo este apenas testemunha da tragédia, como assaltos violentos, sequestros, estupros, entre outras. Além de recordar as imagens, o paciente sente como se estivesse vivendo novamente a tragédia.
O transtorno pode causar profundas alterações no comportamento.

Ajuda
Pró-Vítima
3905-7152 ou 3905-1434

Reação às tragédias

Para a doutora em psicologia do desenvolvimento e professora da Universidade de Brasília (UnB) Sueli Guimarães, é preciso uma avaliação criteriosa para afirmar se a vítima de violência está com o chamado transtorno do estresse pós-traumático. “Primeiro, é importante que se saibam as reais condições de segurança de quem sofreu algum tipo de violência. No caso pontual desse garoto do Caseb, tem que avaliar se ele não corre nenhum risco ao retomar a rotina. A questão da preservação da integridade física deve ser considerada antes de se falar em trauma”, ponderou.

Os principais sintomas de quem passa por esse trauma são medo excessivo, sonhos repetitivos com o fato ocorrido, insônias, alterações no comportamento, ansiedade e dificuldades em retomar as atividades anteriores. “Em alguns casos, a vítima pode parar de trabalhar e até prejudicar o relacionamento com pessoas do seu convívio”, ressaltou.

Petrônio França mostra radiografia do crânio do filho, baleado na nuca por um assaltante na Asa Norte: rotina da família foi alterada(foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press - 12/7/10 )
Petrônio França mostra radiografia do crânio do filho, baleado na nuca por um assaltante na Asa Norte: rotina da família foi alterada (foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press - 12/7/10 )

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