Jornal Correio Braziliense

Cidades

Delegada Martha Vargas será chamada a depor

A ex-chefe da 1ª DP terá de explicar o nebuloso episódio da chave dos Villela encontrada numa casa de Vicente Pires

>> Ary Filgueira
>> Mara Puljiz
>> Adriana Bernardes

A ex-delegada-chefe da 1; Delegacia de Polícia (Asa Sul) Martha Vargas será intimada a depor sobre o triplo assassinato ocorrido na 113 Sul em 28 agosto de 2009. O Correio apurou com fontes policiais que ela provavelmente deverá ser ouvida ainda nesta semana. Com o testemunho, a nova delegacia que apura o caso ; a Coordenação de Investigação de Crimes Contra a Vida (Corvida) ; busca desfazer um nó referente à chave encontrada em uma casa de Vicente Pires, em novembro passado. O objeto, considerado uma prova dos homicídios, acabou descartado com a divulgação de um laudo do Instituto de Criminalística (IC) em abril deste ano. Isso porque teria sido plantado no local.

A delegada Martha também informou que utilizou a ajuda de uma paranormal, que teria lhe indicado onde viviam os assassinos do ex-ministro do Tribunal Superior Eleitoral José Guilherme Villela, 73 anos, da mulher dele, Maria Carvalho Mendes Villela, 69, e da principal empregada do casal, Francisca Nascimento da Silva, 58. Esse tipo de ;serviço espiritual; é outro fato que Martha Vargas deverá explicar aos responsáveis pelo inquérito, os delegados da Corvida Luiz Julião Ribeiro e Mabel de Farias.

Os policiais vão querer saber detalhes sobre a relação de Martha e da clarividente Rosa Maria Jaques, que está presa desde a semana passada em Brasília. Com o auxílio de Rosa Maria, que mora em Porto Alegre (RS) e veio à capital em outubro do ano passado, a delegada chegou à casa de dois homens em Vicente Pires. Lá, agentes teriam encontrado uma chave que abria a porta dos fundos do imóvel dos Villela, o 601/602 do Bloco C da SQS 113. Dez dias depois, a polícia ainda prendeu o vizinho da dupla. Depois de passar um mês presos, o trio foi solto por falta de provas de envolvimento nos assassinatos. Sobre a paranormal, Martha Vargas chegou a conversar com jornalistas, num entrevista coletiva há quatro meses: ;Eu recebo aqui (na 1; DP) todo mundo, prostituta, mendigo. Ela me procurou dizendo que tinha uma informação e eu a recebi. Não vejo mal algum de ter feito isso;.

Por conta do episódio da chave, Martha Vargas acabou exonerada da chefia da 1; DP e é investigada pela Corregedoria de Polícia Civil. A policial ainda é acusada pelos três homens presos como suspeitos. Eles disseram terem sido torturados por agentes da 1; DP para confessarem o crime.

Habeas corpus
Na última semana, o crime da 113 Sul voltou à tona. A Justiça decretou a prisão temporária de cinco pessoas(1) por atrapalharem as investigações. Entre elas, a própria vidente, o marido dela, João Tocchetto, o ex-braço direito de Martha Vargas José Augusto Alves, a ex-faxineira dos Villela Guiomar Barbosa da Silva e até a filha do casal assassinado, Adriana. Aliás, Adriana é considerada pela polícia a principal suspeita de ser mandante do crime. E a delegada Mabel Faria, da Corvida, afirmou no sábado que não se pode descartar que a filha dos Villela tenha ;participado da execução;.

Dos cinco que tiveram a prisão decretada, apenas Adriana, Rosa Maria e Tocchetto continuam detidos. O pedido de relaxamento da prisão da paranormal e do marido foi apresentado na sexta-feira passada, mas o julgamento foi adiado pelo desembargador Romão Cícero, da Primeira Turma Criminal do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios. Ele espera receber informações sobre o Inquérito n.; 113/2009 para decidir se concede ou não o habeas corpus. A análise ainda deve ocorrer nesta semana. Procurado, o advogado do casal, Marcelo Motta Coelho Silva não retornou as ligações. O desembargador Romão Cícero é o mesmo que mandou liberar Guiomar e o policial José Augusto Alves.

A filha do casal Villela, a artística plástica Adriana, 46 anos, já teve o habeas corpus negado em caráter liminar, e o mérito deve ser examinado nesta quinta-feira. A defesa de Adriana Villela está confiante de que os desembargadores concederão o relaxamento de prisão. ;Para que se decrete a prisão temporária, é preciso haver os requisitos da lei e esses elementos não estão presentes;, garante o advogado Rodrigo Otávio Barbosa de Alencastro. Adriana Villela está detida no Presídio Feminino do Distrito Federal, no Gama.

1 - Indiciamentos
A paranormal Rosa Maria Jaques, o marido João Tocchetto e a faxineira Guiomar Barbosa da Silva foram indiciados por denunciação caluniosa, isto é, imputar falsamente crime a alguém ; pena de dois a oito anos de prisão. Além dessa tipificação, Adriana Villela foi enquadrada por fraude processual, cuja pena vai de seis meses a quatro anos de detenção. O policial José Augusto Alves responderá por fraude processual. Ele é acusado de ter plantado a chave na casa de dois moradores de Vicente Pires.

O número
100 dias
Tempo em que a investigação do crime da 113 Sul ficou sob a responsabilidade da 1; DP, então comandada por Martha Vargas