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Correio Braziliense

Jornalista que veio para Brasília com o STF fala da resistência à mudança


postado em 28/08/2010 07:57 / atualizado em 28/08/2010 10:48

Anarquista, sim, mas conservador também. O poeta, jornalista, síndico, escritor e funcionário público aposentado Ézio Pires tem a tese e a antítese em si mesmo. É a sua singular dialética. O bravo candango nascido em Cantagalo, Rio de Janeiro, acompanhou de muito perto a resistência do Supremo Tribunal Federal a se mudar para Brasília. Ele era assessor de imprensa do STF quando os ministros da mais alta corte do Judiciário emitiram decisão contrária à transferência da capital em 21 de abril de 1960. Continuou assessorando o Supremo até 1998, quando se aposentou, aos 49 anos.

Sentado em uma cadeira de praia, de chapéu, ao centro: tempos de agitação na capital(foto: Encontro Cabeças/Divulgação )
Sentado em uma cadeira de praia, de chapéu, ao centro: tempos de agitação na capital (foto: Encontro Cabeças/Divulgação )
Ézio explica seu anarco-conservadorismo: “Sou um anarquista que defende a lei, que precisa da lei para fazer anarquia. O Estado é o principal opressor do homem, mas eu preciso da lei para dizer isso. Sou anarco-conservador porque preciso do Estado de Direito. Preciso do Estado para combater o Estado”.

Ézio Pires está com 84 anos, mas continua pensando e falando com o fôlego de um atleta olímpico da natação. Há duas décadas vive com uma companheira 44 anos mais jovem, Regina, agora com 39. Há três meses, foi eleito síndico de uma de suas duas moradias, o apartamento do Lago Norte. O casal e as duas filhas, de 14 e 10 anos, moram no Plano Piloto e no Condomínio Entrelagos. É Ézio quem leva e busca as garotas na escola. Nos intervalos, escreve poemas, cartas aos jornais, livros e conversa o quanto pode. Tem mais três filhas do primeiro casamento.

A aventura de ser Ézio Pires começou para valer quando ele tinha 14 anos. A mãe havia morrido no parto e o adolescente decidiu então que era chegada a hora de pegar “a carta de alforria”. Embarcou num trem e desembarcou em Niterói. Tentou ser marinheiro, mas, quando ia embarcar no Almirante Duque de Caxias para aprender a profissão de comissário de bordo, foi impedido de navegar por causa da idade, 16 anos.

Ézio é quem melhor se define:
Ézio é quem melhor se define: "O Estado é o principal opressor do homem, mas eu preciso da lei para dizer isso" (foto: Carlos Moura/CB/D.A Press)
Com a ajuda de amigos do pai, virou redator de anais do Tribunal Superior Eleitoral, depois se transferiu para a Procuradoria-Geral da República até chegar ao STF. Ao mesmo tempo, era repórter da Asa Press e do Correio da Manhã, o poderoso jornal carioca que, como os demais, era contrário à mudança da capital. Assessor de imprensa, repórter (“naquele tempo tudo podia”) e poeta. Enfronhado nos meios culturais, conseguiu a publicação de seu primeiro livro de poemas — feito mirabolante, como costumam ser os acontecimentos na vida de Ézio.

Concretista
Era preciso encontrar um título para o livro, e rapidamente. Encontrou, num dos bolsos de um casaco, um pedaço de papel onde anotara: “Menina S30”. Tratava-se do lembrete do endereço de uma garota com quem cruzara no bonde. “Ela tinha a batata da perna muito bonita. Ela desceu do bonde e eu desci atrás dela. Ela entrou num prédio que tinha uma placa do Partido Comunista Brasileiro com um letreiro sobre o socialismo. Era o número 30 da rua. Então, escrevi: Menina S30.” (S de socialismo). Pronto. Estava escolhido o nome do primeiro livro de poemas de Ézio.

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Um jornalista que recebeu um exemplar do Menina S30 viu na obra a estreia de um poeta concretista. “Me deram meia página no Jornal do Brasil. E eu nem sabia o que era concretismo. Aí tive de descobrir, né?” Tudo isso aconteceu quando Ézio ainda morava no Rio de Janeiro. O ano: 1958. O poeta aproveitou o sucesso do primeiro livro e passou a frequentar os meios culturais, a Livraria São José entre eles. Quando chegou 1959, o debate entre os intelectuais era a transferência da capital. Foi então que o mais novo poeta concretista soube que Augusto Frederico Schmidt, também poeta e amigo de Juscelino Kubitschek, havia sugerido ao presidente um modo eficaz de convencer o Legislativo e o Judiciário a virem para Brasília. Que ele doasse aos magistrados e aos políticos lotes para construção de mansões em áreas nobres de Brasília, que dobrasse seus salários e lhes desse dois anos de redução do período de contribuição para a aposentadoria. “Desse jeito, Juscelino acabou com a resistência. Até eu me beneficiei com isso”. Ézio só não ganhou lote do Setor de Mansões Park Way.

Seduzidos pelos benefícios que Juscelino lhes concedeu, os resistentes se convenceram a deixar o Rio de Janeiro. Em junho de 1960, Ézio chegou a Brasília acompanhando os ministros do STF. “A cidade era de uma beleza de morrer, estarrecedora, de quem estava querendo morar no céu.” Mesmo assim, os funcionários dos três poderes ficavam na nova capital de segunda a sexta-feira. Antes do final da tarde do último dia útil, todos estavam no aeroporto para pegar o voo da Cruzeiro do Sul rumo ao Rio.

Anos de chumbo

Ézio é um poço sem fundo de histórias. São tantas que ele encadeia uma na outra, sem ter terminado a anterior, numa corrente frenética que o deixa sem fôlego. Dos últimos 50 anos de testemunho de Brasília, o concretista guarda com fervor os dias que antecederam a decretação do AI-5, o ato institucional que endureceu a ditadura militar de 1964. “Aquele dia (13 de dezembro de 1968) foi angustiante. No final do dia, três amigos meus, os ministros Hermes Lima, Evandro Lins e Silva e Victor Nunes Leal, me pediram pra levá-los a um bar discreto onde pudessem…”. Ézio não consegue completar a frase. Os olhos ficaram vermelhos. Os três foram cassados. As memórias desse período estão registradas em Histórias não publicadas da Justiça em Brasília, ainda não publicado.

O poeta — que trabalhou 19 anos no Correio Braziliense, de 1961 a 1980 — também foi vítima dos anos de chumbo, e por culpa da poesia. Ele havia organizado uma exposição do “movimento pós-concretista do poema processo”, que traduz como uma “encrenca revolucionária”. A intervenção artística consistia em “despojar a palavra”. Um desses despojamentos, porém, não agradou ao Pelotão de Investigações Criminais do Exército. Tratava-se de uma tela na qual a palavra Chevrolet aparecia dividida em duas partes: “Che”, bem grande, e “Vrolet”, bem pequena. A polícia política viu naquela composição uma homenagem ao parceiro de Fidel Castro na revolução cubana. Ézio só saiu da cadeia depois que o diretor-geral STF ligou para o Exército.

Quem tem tanto a contar e a fazer não tem tempo para envelhecer. Mas não se esconde da morte. “Ela é a companheira inseparável de todos os que lutam pela vida. É aquela que quanto mais você foge, mais ela gosta de você. Então você tem que deixar que ela chegue.” A morte vai chegar um dia, mas terá muito trabalho para encontrar Ézio Pires. Ele não para quieto nem calado.

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