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Correio Braziliense

Venda indiscriminada de antibióticos está com os dias contados

Conselho Regional de Farmácia apoia a decisão da Anvisa de tornar obrigatória a apresentação de duas vias da receita médica na compra de remédios, para conter a superbactéria KPC


postado em 25/10/2010 08:38

A venda indiscriminada de antibióticos está com os dias contados. Esse é o objetivo da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) com a norma que pretende publicar até esta quarta-feira. Na tentativa de conter a evolução de superbactérias como a Klebsiella pneumoniae carbapenemase (KPC), a agência criou uma norma que torna obrigatória a apresentação de duas vias da receita médica na compra de qualquer antibiótico: uma cópia para o paciente e uma que deve ficar retida por um mês na farmácia.

A Anvisa afirma que o uso descontrolado dos medicamentos antibióticos é uma das causas da mutação que deu origem à KPC, bactéria transmitida em ambientes hospitalares, altamente resistente a antibióticos.

O ministro da Saúde, José Gomes Temporão, pediu ontem tranquilidade em relação à proliferação da superbactéria KPC. “A população fique tranquila porque essa é uma situação que acontece apenas em ambiente hospitalar e em pacientes debilitados”, disse ele após participar de encontro em São Paulo.

Segundo o ministro, com a adoção de medidas pela Anvisa, “a situação vai ficar sob controle”. Entre as ações da agência, ele destacou a norma que determina a retenção da receita médica na compra de antibióticos. “[Isso] vai impedir muito o que hoje é um problema seríssimo, que é a automedicação, o uso abusivo e indiscriminado”, garantiu. Temporão afirmou que a importância de procedimentos simples de higiene, como lavar as mãos, diminuem muito o risco de contágio pela bactéria. “Isso serve para os profissionais de saúde e também para os visitantes ao entrar e ao sair [de um hospital]”.

Para o presidente do Conselho Regional de Farmácia do Distrito Federal, Hélio José de Araújo, a iniciativa da Anvisa chega com atraso. “Essa ação de coibir o uso indiscriminado de antibióticos já vem tarde.” Segundo Hélio, o surgimento da superbactéria já vinha sendo anunciado há alguns anos, desde que outras bactérias como a MRSA (1) passaram a fazer vítimas na última década. O presidente do conselho explica que é impossível dizer quantos antibióticos estão disponíveis no mercado, mas garante que o medicamento representa uma grande fatia das vendas da indústria farmacêutica. “Em alguma coisa deve interferir no mercado, mas não é algo que irá prejudicar o comércio. Em primeiro lugar vem a saúde da população”, assegura.

Hélio José também frisa que o uso indiscriminado de antibióticos não é culpa unicamente do paciente: “Às vezes os próprios profissionais de saúde prescrevem um antibiótico de terceira geração para combater uma bactéria que seria tratada com um de primeira geração. Também existe muita insistência da indústria farmacêutica em fazer propaganda em cima dos médicos”, critica. Para Hélio José de Araújo, o problema poderia ser amenizado se todos os pacientes fizessem os exames que ditam qual o antibiótico apropriado — o antibiograma é capaz de identificar o agente causador da doença e a qual medicamento ele é sensível ou resistente.
Somente no Distrito Federal, a superbactéria contaminou 183 pessoas, resultando em 18 mortes. Em entrevista ao Correio na semana passada, a secretária se Saúde do DF, Fabíola Nunes, garantiu que o quadro não é motivo para que a população evite os hospitais. A secretária anunciou que a erradicação da bactéria será alcançada com a capacitação de um número maior de servidores sobre as ações necessárias para evitar a contaminação.

Resistência às indicações
Sempre que Mary Medeiros, 45 anos, moradora de Sobradinho, apresenta os mesmos sintomas, não hesita em comprar por conta própria o velho medicamento de confiança. Por falta de paciência em consultar um profissional, a técnica em informática admite que tem o costume de adquirir antibióticos sem receita médica. “Eu não preciso ir até lá para o médico me dizer que eu tenho de tomar Amoxicilina”, critica. Com o surgimento da superbactéria, Mary conta que ficou mais apreensiva e que pretende mudar de hábitos para cuidar da própria saúde. “Vou ter de tomar mais cuidado e pedir todos os exames no médico.”

Pacientes como Mary são os principais responsáveis pela resistência adquirida pela KPC aos medicamentos comuns. “Se a bactéria se torna mais resistente, a pessoa sempre tem de tomar um antibiótico mais forte, e existe um limite”, ensina a farmacêutica Karla Regina de Madeiros. A profissional explica que, ao não apelar para substâncias mais poderosas, também é possível evitar efeitos colaterais perigosos, que vão além dos costumeiros mal estar, dor e náusea causados pelos antibióticos comuns. “Aprovo a medida da Anvisa. Assim as pessoas vão ver que antibiótico é um medicamento sério”, diz.

O hábito de escolher o próprio tratamento sem orientação é um costume que os profissionais da saúde atribuem especialmente aos brasileiros, mas em áreas mais privilegiadas como o Plano Piloto o costume é menos comum. “A maioria que compra antibióticos aqui é com receita. Mas ainda há os que têm o costume de pedir orientação direta do farmacêutico, principalmente em casos de infecção urinária e de garganta”, analisa Elidete Leite, farmacêutica e subgerente de uma farmácia no Sudoeste. Outro costume comum, segundo a profissional, é a preferência dos clientes por anti-inflamatórios, pois alguns pacientes têm receio de recorrer a antibióticos e ainda não sabem discernir os dois medicamentos — mais um engano que pode ser evitado se a prescrição médica sempre for seguida à risca.

O que diz a norma

» O paciente deve receber duas vias da receita do antibiótico.

» A primeira via fica retida na farmácia por 30 dias, contados a partir da compra do remédio.

» A segunda via é devolvida ao paciente, comprovando o atendimento.

» Nas bulas e rótulos dos remédios deve constar, além da tarja vermelha, as inscrições “Venda sob prescrição médica” e “Só pode ser vendido com retenção de receita”.

» Até quarta-feira a norma deve ser publicada no Diário Oficial, quando começa a contar o prazo de 30 dias para sua validade.
Resistência

1 - O Staphylococcus aureus resistente à meticilina (MRSA, na sigla em inglês) é uma bactéria que resiste ao tratamento de muitos antibióticos, como a penicilina. Devido à mutação sofrida pelo Staphylococcus, ele atingiu grandes índices de contágio em escala mundial nos últimos dez anos. O MRSA é responsável por muitas infecções hospitalares e ainda pode levar à morte.

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