Publicidade

Correio Braziliense

Grupo teatral formado no Centro Educacional 1 do Cruzeiro ganha destaque

Além de terem tido um espetáculo selecionado pela Fundação Athos Bulcão, os estudantes vão representar o Centro-Oeste em São Paulo


postado em 27/10/2010 08:26

Sobre o palco, os alunos esperam o sinal do professor Getúlio Cruz. Sentado em uma cadeira da plateia, o diretor move levemente a cabeça e a cena começa. Silencioso e atento, ele observa seus atores aprendizes torcerem o rosto, darem gargalhadas, soltarem gritos, andarem, caírem no chão de joelhos e até chorarem. Nem parece que o grupo Cutucart está apenas ensaiando passagens da peça O verbo é o lixo, selecionada para a 10ª edição do festival Teatro na escola, a ser realizado pela fundação Athos Bulcão entre 11 e 14 de novembro. No mesmo mês, a turma, composta de alunos do Centro Educacional 1 do Cruzeiro, viaja ao interior de São Paulo, onde apresenta outro trabalho, Seca. Lá, o grupo será o único representante do Centro-Oeste no Festival Luz, Palco e Ação (LuPA), dedicado ao teatro amador.

O professor Getúlio Cruz (C), entre os membros do Cutucart: inspiração no mímico francês Marcel Marceau(foto: Oswaldo Reis/Esp. CB/D.A Press )
O professor Getúlio Cruz (C), entre os membros do Cutucart: inspiração no mímico francês Marcel Marceau (foto: Oswaldo Reis/Esp. CB/D.A Press )
As peças recebem os últimos retoques, e é por isso que o professor Getúlio se contenta em passar poucas orientações. “Ele confia tanto em nós, que só dá um toque e sabe que somos capazes de fazer o que ele quer”, comenta Tuan Emanuell, 17 anos, estudante do 3º ano. “É como se fosse um quebra-cabeça: ele dá as peças e a gente vai montando.” O grupo, criado em 2006, participa do festival pela terceira vez. Já a ida ao LuPA traz uma novidade: é a estreia fora do Distrito Federal. Em São Paulo, os estudantes vão concorrer com outros sete grupos, sendo quatro deles locais e os demais vindos de Minas Gerais, Paraná e Rio Grande do Sul. “É uma oportunidade muito grande de crescimento, de fazer contato para futuros convites”, acredita Angela Amorim, 16 anos, do 2º ano. “O maior prêmio a gente já ganhou: o reconhecimento”, comemora Iuri Pereira, 18, do 3º ano.

Os dois textos levados ao palco são os primeiros escritos pelo próprio grupo. As histórias se parecem e retratam pessoas em situações de carência extrema. Em O verbo é o lixo, um casal de catadores de material reciclável divide um barraco, atulhado de caixotes de madeira, latas velhas e outras tralhas. O marido, rude e alcoólatra, destrata a mulher, infértil. Ela acolhe duas crianças abandonadas, que são repelidas pelo homem até que começam a ajudá-lo no trabalho. Em Seca, o casal é transportado para o solo áspero do Nordeste, onde a água do açude se esvai com o calor e tudo no ambiente morre aos poucos. A mulher, lavadeira, também não consegue engravidar e sofre com o marido agreste. Um dia, ela adota duas crianças, que se deparam com a antipatia do homem.

Gestual
“O grupo trabalha muito o gesto, as expressões faciais, mais que palavras”, observa Getúlio. “Por isso, nos inspiramos em artistas como (o mímico francês) Marcel Marceau.” O Cutucart é formado por 15 alunos, que têm entre 16 e 20 anos, com exceção da pequena Izabella, 11, filha do diretor. Parte dos jovens atua, enquanto outra compõe a equipe técnica, responsável por quesitos como sonoplastia e iluminação. A ideia de formar o grupo nasceu em uma oficina ministrada pelo professor na escola do Cruzeiro. “A turma tinha 50 alunos, alguns iam só para tirar onda. Quando passamos a cobrar compromisso, o pessoal foi saindo”, lembra Getúlio.

Desde então, o trabalho tem conquistado admiradores. No mesmo ano em que surgiu, o grupo emplacou a peça Fragmentos no Teatro na escola, e repetiu o feito em 2007, com Quem casa quer casa, texto de Martins Pena. Em 2009, eles encenaram três espetáculos. Uma véspera de reis, de Artur Azevedo, foi selecionado para o projeto Teatro na mochila, também realizado pela fundação Athos Bulcão, e premiado no 1° Campeonato de Teatro Sub-17 da Funarte. Baseado em texto do americano Tennessee Williams, Quando você me disse adeus estreou em mostra de cenas curtas na Casa D’Itália. Depois, o grupo foi convidado para apresentar o clássico texto Galileu Galilei, do alemão Bertold Brecht, em uma feira de ciências da Universidade de Brasília (UnB).

A trajetória bem-sucedida animou os jovens, que pretendem seguir com o teatro mesmo após concluir o ensino médio. A integrante Bianca Oliveira, 17 anos, deixou o colégio no ano passado e ingressou logo na Faculdade de Artes Dulcina de Moraes, onde cursa o segundo semestre de artes cênicas. Outros membros vão tentar passar para o curso da UnB. Eles sabem que a profissão não costuma dar muito dinheiro, mas não se importam com isso. Bianca precisou vencer a resistência do pai. “Ele disse que era para algo mais lucrativo. Eu disse que, se não fosse teatro, não seria coisa nenhuma. Hoje ele aceita e respeita”, conta. “No começo, os pais acham que é só brincadeira. Mas, depois que eles conhecem nosso trabalho, percebem que é sério”, complementa Wesllen Masoliny, 17, aluno do 2º ano. A caçula, Izabella, também está decidida a ser atriz. “Acompanho o trabalho do meu pai desde quando tinha um aninho de idade, cresci no teatro”, diz. “É divertido, a gente erra, erra, erra, mas no fim de tudo consegue fazer um bom espetáculo.”

Poucos recursos
Apesar da empolgação, às vezes o grupo é prejudicado pela escassez de verba. Assim que foi anunciada a seleção para o festival de São Paulo, a alegria se misturou com apreensão. “Todo mundo ficou muito feliz, mas veio a preocupação: temos que arrumar dinheiro para as passagens”, recorda Angela. O LuPA custeia apenas estadia e alimentação. “Ir de avião é impossível. Queremos fretar um micro-ônibus”, propõe Getúlio. A solução está sendo fazer rifas e cobrar ingresso em apresentações de esquetes no colégio. Para a montagem no Teatro na escola, o grupo recebeu R$ 700. “É pouco para produzir um espetáculo, o professor tem que ser criativo”, avalia o diretor.

Getúlio planeja que o Cutucart se torne um grupo amador independente da escola e, afinal, profissionalize-se. A turma, que se reúne três vezes por semana, aceita novos membros. Os interessados devem frequentar as oficinas que precedem os ensaios e são ministradas pelo ator Dênis Bueno. “A pessoa precisa fazer esse treinamento e conhecer o grupo. É só mostrar talento, comprometimento e responsabilidade”, afirma Getúlio.

Os planos se multiplicam. “Após voltar de São Paulo, devemos lançar uma das duas peças no circuito comercial”, idealiza o diretor. “No próximo ano, vamos nos inscrever em outros festivais para viajar mais”, prevê Lucas Isacksson, 16 anos, do 1º ano. O grupo se considera preparado. “Aqui a gente aprende a perceber mais a nós mesmos e aos outros, a reconhecer as qualidades e respeitar os defeitos. Percebo em nós um amadurecimento muito grande”, analisa Bianca. “A gente fica mais observador, mais atento a detalhes”, complementa Iuri. Aproveitando a falta de modéstia, Tuan faz uma promessa brincalhona: “Anota aí, você ainda vai ouvir falar muito sobre nós”.

Na escola
Em 2010, o festival Teatro na escola, realizado pela fundação Athos Bulcão, comemora 10 anos. O evento, que tem o apoio do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), abre espaço para espetáculos produzidos em escolas públicas que ofereçam aulas regulares de teatro. Neste ano, há seis projetos de colégios de Planaltina, Sobradinho, Taguatinga e Cruzeiro. Como a edição é comemorativa, foram convidados professores que dirigiram peças apresentadas em anos anteriores.

Para participar do festival, os educadores participaram de uma oficina de capacitação e receberam R$ 700 para custear a montagem. A novidade deste ano é que cada grupo recebeu consultoria de um ator, diretor ou professor de teatro. “Eles acompanharam os trabalhos, foram aos ensaios. Isso é superimportante, é um olhar de fora que potencializa muito a montagem”, opina a coordenadora-geral do Teatro na escola, Ivone Pereira.

O grupo Cutucart, do Centro Educacional 1 do Cruzeiro, foi acompanhado pela atriz Bárbara Tavares, ex-professora da Faculdade de Artes Dulcina de Moraes e professora de teatro da rede pública. “A gente tenta estabelecer diálogos com o grupo e o diretor a respeito da estética proposta, da técnica de interpretação”, conta Bárbara. Ela elogia a turma dirigida pelo professor Getúlio Cruz. “O pessoal está junto há um tempo, é mais maduro do que os outros grupos do festival”, analisa. “Eles são bastante disciplinados. Os meninos discutem, sabem expor seus pontos de vista.” O professor também aprova a experiência: “Ela trabalhou muito em cima da dramaturgia da peça e nos ajudou a construir algumas cenas, a fazê-las se desenrolar com mais clareza”.

Desde a primeira edição, em 2000, o Teatro na escola contabiliza a participação de cerca de 120 peças, 2,5 mil estudantes, 100 professores e 80 escolas. “Temos conhecimento de muitos jovens que, após essa experiência, decidiram-se pela carreira artística”, comemora Ivone. Além de contribuir para a formação do professor, o projeto faz com que os jovens aprendam a fazer trabalho em grupo e vejam a escola como espaço de produção de arte e cultura.”

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade