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Correio Braziliense

Preto é lindo! Quem não vê?


postado em 21/11/2010 08:40

As gêmeas univitelinas Karen e Karina Ferreira Flores, negras, têm a perspectiva de começar uma carreira “em mercados comerciais da Alemanha e da Grécia”, diz Juliana Rife, booker internacional da Mega Model, agência de modelos de Brasília. O que significa possibilidade de trabalho em fotos, catálogos, showroom. Apesar da beleza, da altura (1,77m), do peso (50 kg), dos seios generosos, da boca carnuda, dos olhos oblíquos e de serem muito jovens, talvez elas não consigam chegar facilmente às passarelas. Quem explica a razão é o dono da HAD Models, de São Paulo, a maior agência especializada em modelos negros do Brasil. “Quem promove desfile de passarela acha que negro não veste roupa”, diz Helder Dias, espicaçando o preconceito que ainda persiste no universo fashion.

No ano passado, o Ministério Público de São Paulo forçou a organização do São Paulo Fashion Week a incluir nos desfiles pelo menos 10% de modelos negros, afrodescendentes ou indígenas, mas ficou só nisso. “Os eventos de moda no Brasil não são para os meus modelos negros. Eles não contratam negros e, quando contratam, é sem cachê. Participar ou não participar não muda muita coisa”, diz Helder Dias. É nas campanhas publicitárias que a cor da pele dos brasileiros vem mudando. “O negro passou a ter poder de compra, então o mercado despertou para a inclusão da pele escura”, explica Helder, que comanda 250 modelos negros e negras. “O preconceito não é só racial, é econômico também”, diz o empresário.

Há um complicador a mais para brasileiros e brasileiras afrodescendentes que queiram enfrentar a carreira de modelo — seja de passarela, publicidade ou marketing. Se a pele do candidato ou da candidata puxa para o preto, o funil é mais estreito. “As exigências são muito maiores. Elas têm que ser lindas, ter estilo, corpo muito bom, passarela impecável. As brancas também precisam de tudo isso, mas o rigor não é tão grande”, conta Juliana Rife. Mesmo assim, tem crescido o mercado para modelos afros em Brasília. Para cada 10 brancas, há três negras na agência de Juliana. Até há pouco tempo, a proporção era bem menor, nove para uma. Como as exigências são demasiadas, não é fácil superá-las.

As gêmeas têm conseguido vencer a rigidez do mercado para modelos negros, mas continuam sendo a exceção da exceção. “Mesmo com todos os avanços dos últimos anos, é raro ver um negro trabalhando em shopping, aparecendo na TV. Até aparecem, em número muito inferior ao da realidade racial brasileira”, diz a empresária Maria das Graças Santos, dona do primeiro salão especializado em cabelos étnicos do Distrito Federal, o Afro N’Zinga, que durante muitos anos funcionou no Conic e agora está no Venâncio 2000. “No fim dos anos 1970, começo dos anos 1980, era difícil encontrar alguém que soubesse cortar cabelo black. Encontramos na UnB uma estudante africana que nos ensinou o ponto afro [para trançado de cabelo] e começamos com uma cabeleireira e uma manicure”. Foi um sucesso, mas o Afro N’Zinga não era apenas um salão. “É um negócio, só que até hoje é visto como um movimento”, diz Graça, pioneira no ativismo das questões raciais na capital do país.

Bem depois do surgimento do Afro N’Zinga, surgiu no Centro de Ensino Médio de Taguatinga (CEMTN) um movimento de afirmação da beleza negra que há cinco anos se repete todo novembro, mês de Zumbi. No fim da tarde de sexta-feira passada, o júri oficial escolheu os 12 adolescentes negros (e nem tão negros) mais bonitos entre os cerca de 1,5 mil alunos da escola. Nos dias anteriores, o júri popular havia feito a sua própria escolha.

Os mais belos negros do CEMTN no gosto do júri popular foram, entre as meninas: Sayonara, Ana Alice e Letícia. Entre os meninos: Paulo, Benedito e Hendrix. O júri oficial escolheu Ana Alice, Sayonara e Gileade. E Raniere, Luiz Henrique e João Marcos. Parece exagero, mas a vida desses garotos dentro da escola e na comunidade vai mudar de agora em diante. “A gente percebe que há um aumento da autoestima deles, os outros alunos passam a vê-los de modo diferente e eles se transformam nos gatos e nas gatas da escola. Todo mundo quer namorar com eles depois do concurso [risos]”, conta a professora Elidete Teixeira da Silva, a organizadora.

Quando os alunos de pele alva reclamam da falta de uma promoção para a escolha dos mais belos entre eles, a professora explica que os brancos não precisam de estímulo para se reconhecem bonitos. “Ninguém questiona a beleza-padrão, a loira, a branca. Quem não se sabe belo é o negro. O que queremos é ampliar o conceito de beleza. Não estamos dizendo que o branco é feio, estamos dizendo que o negro é bonito.” O concurso de beleza do CEMTN é uma das atividades pedagógicas do projeto Sankofa, coordenado pela professora Elidete Teixeira. Sankofa é um ideograma africano que significa “nunca é tarde para voltar e pegar o que ficou para trás”.

CONVERSA COM O MINISTRO

Eloi Ferreira de Araújo, da Seppir

"Não são passos na areia

É muito intenso o esforço que tem sido despedido pelo governo para mudar a realidade do negro no Brasil, mas num país com dimensões continentais, mesmo um grande esforço acaba sendo insuficiente. Será preciso um pouco mais de tempo. A demanda histórica é muito grande. Desde 2005, quando o ProUni, foi implementado, conseguimos colocar 700 mil jovens na universidade, e 50% deles são pretos e pardos. Nunca antes neste país tivemos tantos negros na universidade pública, especialmente naquelas que decidiram adotar o sistema de cotas. Mas estamos dando passos largos e consolidados. Não são passos na areia.

Resistência aos avanços

A população brasileira abraçou a política de cotas, o ProUni, a garantia do direito dos quilombolas à terra. A resistência que existe é localizada, quase tem nome e sobrenome. E o partido que resiste [o DEM] não tem nenhum deputado negro, pelo que sei. E só ele entrou na Justiça contra as políticas de acesso à universidade e de regulamentação das áreas quilombolas. O presidente Lula sancionou esse instrumento extraordinário, que é o Estatuto da Igualdade Racial. Quando converso com os que combatiam o texto aprovado, eles ficam surpresos com as conquistas nele asseguradas. ‘Rapaz, é isso?’, eles dizem. Agora só falta a regulamentação para dar concretude à inserção da população negra aos bens econômicos, culturais e sociais.

Vítima de racismo

Há algum tempo, minha mulher me pediu para ir a um mercado próximo de casa, no Rio. Coloquei a bermuda furada, o chinelão, a camisa do Vascão [risos] e fui. Entrei numa fila menor, com minhas poucas compras, e uma senhora quis entrar na minha frente com um carrinho cheio. Disse que alguém havia guardando o lugar dela. Argumentei que eu não havia visto ninguém guardando o lugar. Ela insistiu, e eu também. Como ela viu que não ia conseguir passar na minha frente, largou o carrinho e foi chamar o segurança. O homem chegou e a discussão se repetiu. Ela perguntou para o segurança: ‘Posso entrar?’. Eu reagi: ‘Não pode, nem que tivesse alguém guardando, isso não é certo’. Ela olhou bem pra mim e disse: “Sabe por que eu vou entrar na sua frente? Olha a cor da minha pele e olha a cor da sua”. Nisso, a caixa do supermercado, uma negra de cabelo de trancinha, começou a passar minhas compras. O homem que estava atrás de mim colou nas minhas costas e a senhora ficou falando sozinha."

Seppir
Criada em 2003, a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial é o instrumento mais emblemático do governo federal para a promoção dos direitos da população negra. Ligada ao Palácio do Planalto, é chefiada por um ministro.

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