Jornal Correio Braziliense

Cidades

Dona Rosalina completa 100 anos e comemora com parentes e amigos

A centenária relembrou, emocionada, vários momentos da vida

Várias décadas se passaram, mas dona Rosalina Marques Rodrigues, que completa 100 anos hoje, recorda-se com detalhes da infância e da juventude no Piauí. Perfumada como gosta, usando um vestido cor-de-rosa e sentada em uma confortável poltrona vermelha, ela observa a família em sua festa de aniversário. Puxa pela memória para falar sobre como tudo começou. Conta que nasceu em 1910, em Salinas. Quando os pais se mudaram para Mato Grosso do Sul, ficou com os avós em Floriano, outro município piauiense. Lá, aprendeu a fazer bordados à mão e à máquina com a avó, ofício com que ajudava no sustento da família.

Tornou-se mulher e se apaixonou. O rapaz era um vizinho de rua e trabalhava como sapateiro. Dona Rosalina notou o interesse dele pela maneira como a olhava. Correspondeu ao galanteio. Todos os dias por volta das 17h, quando Clodoaldo Rodrigues de Oliveira voltava do trabalho, a jovem o esperava à janela. Ele era dois anos mais moço do que ela, então com 23 anos, mas isso não foi empecilho. Os dois ficaram noivos e se casaram. Da união, nasceram nove filhos, que geraram 35 netos, 36 bisnetos e oito tataranetos. Ontem, o clã se reuniu para festejar a matriarca.

Com dificuldade para ouvir, mas falando de forma articulada e lúcida, dona Rosalina continua com as lembranças e volta à época do namoro. ;Naquele tempo, era diferente. Ele nem pegava na minha mão. Éramos nós em um sofá e minha avó no outro, olhando;, relata. Fica tímida ao ser questionada se gostava de Clodoaldo. Cobre o rosto com as mãos, dá uma risadinha. ;Gostava. Eu fui muito feliz;, garante.

Dificuldades
Mas a vida da centenária vovó também foi marcada por dificuldades. Nos anos 1970, o marido sofreu um derrame. Passou a depender da esposa para comer, movimentar-se e lavar-se. ;Ele ficou paralítico, na cadeira de rodas. Eu dei banho, vesti roupa, fiz tudo;, relata. À época, a família tinha deixado o Piauí e vivia em Carolina, no interior do Maranhão. Um dos filhos de dona Rosalina e do sapateiro Clodoaldo estava morando no Distrito Federal. Ele sugeriu que a mãe trouxesse o pai para tratar-se em Brasília. Foi assim que o casal veio para o Planalto Central, em 1974. Viveu por 20 anos em Sobradinho.

Mesmo com um tratamento mais adequado, após o derrame, Clodoaldo nunca mais foi o mesmo. Morreu em 1983, após ficar casado com dona Rosalina por 50 anos. Ela virou a página fazendo algo de que sempre gostou: viajar. ;Ela gosta demais de andar;, entrega uma das filhas, a funcionária aposentada do Instituto Nacional de Reforma Agrária (Incra) Violeta Rodrigues Marques, 61 anos, com quem Rosalina atualmente mora, em Valparaíso (GO).

Em um novo acesso de acanhamento, escondendo o rosto e rindo, a matriarca confessa que é verdade. ;Conheci um monte de lugar: Fortaleza (CE), Imperatriz (MA), Goiânia (GO);, enumera. Violeta conta que, depois que o pai morreu, a mãe aproveitou para visitar os filhos e familiares espalhados por várias cidades do Brasil. Rio de Janeiro, Tocantins, Maranhão, Piauí e Mato Grosso do Sul estão entre os lugares onde há membros da família.

Dona Rosalina fez bem em aproveitar a vida após ficar viúva, já que o destino iria desferir-lhe mais três golpes. Ela suportou a dor mais temida pelas mães. Em 1990, 1992 e 2005, respectivamente, ficou sem três de seus cinco filhos homens. Dois tiveram câncer e um, cirrose hepática. A centenária ainda se lembra com emoção da perda mais recente. ;Não gosto nem de falar disso que eu choro;, diz.

Festa
Mas o dia é de comemoração. Afinal, os filhos, netos, bisnetos e tataranetos se uniram para fazer da festa dos 100 anos de dona Rosalina um evento especial. Cerca de 70 pessoas se reuniram no salão de festas do condomínio onde um dos netos mora, em Valparaíso. Alguns dos convidados vieram de muito longe. Gente de Itaguaí (RJ), Gurupi (TO), Imperatriz, Carolina (MA), entre outras cidades. Cada um deu a sua contribuição. O resultado foi um churrasco com 140kg de carne. Dois bolos, um de dois e outro de cinco quilos, eram a sobremesa.

Com a força de quem aproveitou os bons momentos e enfrentou corajosamente as intempéries da vida, dona Rosalina se levanta para fazer um discurso, cedendo à insistência da família. Ela consegue caminhar, auxiliada por uma bengala de madeira. ;Muito obrigada a todos os que estão aqui. Estou satisfeita de ver tanto filho e tanto neto. Graças a Deus, ainda estou viva;, fala ao microfone, sendo ovacionada. No que depender da aniversariante, sua história está longe de acabar. Os filhos contam que ela está em plena atividade e se interessa por tudo ao redor. Toma banho sozinha, lava a louça do café da manhã, faz crochê e assiste ao seriado Malhação, da Rede Globo.

A filha Violeta se emociona. ;Ela é uma vencedora;, comenta. ;É um orgulho ter uma pessoa como ela na família;, acrescenta o neto Edilson Rodrigues Gomes, 38 anos. Até neta postiça dona Rosalina tem, além dos mais de 30 naturais. A representante comercial Antônia Alves Franco, 39 anos, é vizinha dela e há 20 anos a chama de vovó. ;Ela é muito meiga, carinhosa, passa paz para a gente;, diz.


HISTÓRICA
A cidade tem importância histórica. Localiza-se na região das sesmarias, que em 1676 foi distribuída pela coroa portuguesa entre nobres do país. O município ocupa a área em que Domingos Affonso Mafrense fundou as primeiras fazendas de gado do Piauí. Elas formariam o centro de uma expansão pecuária, com animais vindos de Cabo Verde. Em 1897, data próxima do nascimento de dona Rosalina Marques Rodrigues, a vila foi elevada à condição de cidade. Hoje, o local é conhecido como Princesa do Sul do Piauí. É famoso por seu comércio, turismo e pela grande influência de imigrantes árabes.