Cidades

Sumiços dos jovens de Luziânia assassinados começaram há um ano

Em 30 de dezembro de 2009, Diego Alves, um adolescente de 13 anos, morador do Parque Estrela D'Alva, saiu de casa para não mais voltar. Assim como ele, outros seis jovens do município goiano desapareceram na sequência. Todos foram assassinados pelo pedreiro Ademar de Jesus Silva. Preso, ele confessou os crimes. O homem cometeu suicídio em 18 de abril

Naira Trindade
postado em 30/12/2010 08:06
O tempo não apagou o sofrimento das mães de Luziânia. Um ano após o primeiro adolescente desaparecer misteriosamente do Parque Estrela D; Alva, o fantasma da ausência dos filhos ainda assombra as casas simples das sete mulheres do município goiano distante 66km de Brasília. Todos os dias, essas guerreiras se levantam da cama munidas de uma força maior que aos poucos as coloca de volta aos trilhos da vida. Vítimas do descaso do estado com a segurança pública, elas compartilham a mesma dor com os parentes de outras 1.451 pessoas que foram assassinadas de janeiro de 2010 até ontem, em todo o território de Goiás, numa média de 120 crimes por mês, segundo dados da Polícia Civil do estado.

O calvário de vasculhar por todos os cantos da cidade de 174 mil habitantes à procura dos filhos começou há exatos 365 dias com o sumiço repentino de Diego Alves, 13 anos. O menino humilde de Luziânia ; considerado um sedutor pelas amigas da escola ; saiu de casa, no Parque Estrela D;Alva 4, na manhã de 30 de dezembro de 2009. Acompanhado do primo mais novo, seguiu até uma oficina de carros no mesmo bairro. Permaneceu por uma hora no endereço. Teve fome e quis voltar para almoçar. Encontrou um homem, que teria lhe arrastado para a morte, na Fazenda Buracão.

Ademar de Jesus Silva, 40 anos, pedreiro, carregava ferramentas de trabalho. Ex-presidiário, o homem que ficou conhecido como maníaco de Luziânia havia conquistado a progressão da pena em 23 de dezembro de 2009. O benefício foi concedido depois de cumpridos quatro anos dos 14 de prisão por abusar de dois menores de idade no Distrito Federal. Apesar de um laudo criminológico antigo apontar transtornos de sexualidade, o Ministério Público manifestou-se favorável à soltura do detento. Novamente nas ruas, Ademar começou a buscar novas vítimas. A primeira, Diego, veio apenas sete dias após Ademar ganhar liberdade.

O sumiço do menino que nunca havia passado uma noite sequer fora de casa movimentou a cidade. Cartazes com a fotografia do garoto foram espalhados em paradas de ônibus, supermercados e na delegacia. A dona de casa Aldenira Alves de Sousa, 52 anos, acompanhada da filha Gláucia, 25, iniciou minuciosas buscas. Viraram investigadoras. Delegacia, hospital, instituto médico legal e matas fechadas fizeram parte do itinerário de procuras diárias.

Sem amparo das autoridades locais, outras mães choraram pelo sumiço de Paulo Victor Vieira de Azevedo Lima, 16; George Rabelo dos Santos, 17; e Divino Luiz Lopes da Silva, 16. Em 16 de janeiro, o Correio publicou, com exclusividade, a primeira reportagem sobre o caso e motivou o início das investigações oficiais. Mesmo assim, o maníaco seguiu agindo. Flávio Augusto dos Santos, 14, seria o quinto a deixar a casa da família para nunca mais voltar. Em 22 de janeiro, Márcio Luiz de Souza Lopes,19, tornou- se o sexto jovem a desaparecer. E em meio às apurações, em 15 de março, Eric dos Santos, 15, fechou o ciclo de sete vítimas do maníaco.

Um ano após o sumiço do filho, Aldenira está mais reservada. Não concede entrevistas. Prefere não falar para não reavivar as lembranças na memória. Sofre ao recordar de Diego. A filha, Gláucia, programa uma oração no túmulo do irmão para hoje. ;O horário ainda está indefinido, mas o dia não pode passar em branco; , disse.

Discussões
As manifestações das mães levantaram assuntos polêmicos. A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), do Ministério da Justiça, chegou a discutir sobre a legislação que define a progressão de pena para crimes no país. O barulho não resultou em nada. As abordagens sobre o tempo decorrido entre o registro de um desaparecido e o início das investigações policiais também silenciaram com o abaixar da poeira. Nem o tão sonhado Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas deslanchou. Funciona com cadastros incompletos e até com informações incorretas de homens, mulheres e crianças sumidas.

Aldenira, Sônia, Cirlene, Marisa, Valdirene, Maria Lúcia e Benildes entraram para as estatísticas. Seus filhos somaram-se aos 371 registros de desaparecimentos no estado goiano. Segundo a Secretaria de Segurança Pública de Goiás, somente na capital, 206 pessoas saíram de casa sem deixar o paradeiro durante este ano. Delas, 164 foram localizadas ou retornaram aos lares tempos depois. A estimativa de solução para os casos, segundo a Secretaria de Segurança Pública do estado, gira em torno de 80%.

Ainda em Luziânia, outra mãe luta sozinha para encontrar o filho, desaparecido em 2008. Esperançosa, a auxiliar de produção Marlúcia Matos Caixeta, 36 anos, procura diariamente pelo filho Diego Henrique Matos Meireles, que hoje estaria com 15 anos. Ele saiu de casa às 16h de 5 de novembro de 2008. Encontraria colegas em uma quadra de esportes da Vila Santa Luzia. Nunca mais voltou para casa. Marlúcia registrou o sumiço no dia seguinte. ;A cada quatro dias passo na delegacia. Eles disseram que meu filho está morto. Mas nunca apresentaram o corpo. Sou mãe e tenho direito de enterrá-lo se ele estiver mesmo morto;, lamenta.

Dez quilos mais magra desde que passou a viver em busca de notícias do filho, Marlúcia é a única que ainda estampa o rosto do menino no peito da camiseta branca. ;Acredito que um dia conhecerei a verdade. Somente neste dia vou parar de usar a camiseta. Enquanto isso, vou continuar usando a blusa todos os dias, quem sabe alguém não o reconheça;, espera. Josuemar Vaz de Oliveira, delegado-chefe do Departamento de Polícia Judiciária de Goiânia, confirma encontrar dificuldades na apuração do caso. ;O delegado (de Luziânia) José Luiz (Martins) está empenhado, mas realmente não está fácil. Há indícios de homicídio e um suspeito está preso, mas não encontramos o corpo;, explicou.


MEMÓRIA
Exclusividade e repercussão nacional

Em 16 de janeiro deste ano, o Correio Braziliense publicou, com exclusividade, a primeira reportagem sobre o caso dos desaparecimentos de jovens no bairro Parque Estrela D;Alva, em Luziânia. A matéria destacou o clima de medo que rondava a cidade que, à época, já registrava o sumiço de Diego Alves Rodrigues, 13 anos; Paulo Victor Vieira de Azevedo Lima, 16; George Rabelo dos Santos, 17; e Divino Luiz Lopes da Silva, 16. Dois dias depois, seria a vez de a quinta vítima, Flávio Augusto dos Santos, 14, deixar a casa da família para nunca mais voltar. Em 22 de janeiro, Márcio Luiz de Souza Lopes,19 anos, tornou- se o sexto jovem a desaparecer em Luziânia.

Depois das primeiras reportagens do Correio, o caso ganhou repercussão nacional e mobilizou parlamentares e até o Ministério da Justiça. As investigações, comandadas pela Polícia Civil de Goiás, receberam o reforço da Polícia Federal. Em 20 de março, mais uma vez, o jornal foi o primeiro a revelar a notícia de mais um sumiço. Tratava-se de Eric dos Santos, 15 anos, que saiu de casa, no bairro Santa Fé, para dar aulas de dança. Em 10 de abril, a polícia prendeu o pedreiro Ademar de Jesus Silva, 40 anos, que confessou os crimes. No dia seguinte, o homem acompanhou os investigadores até a Fazenda Buracão e indicou o local onde havia enterrado os corpos.

Os restos mortais recolhidos no local foram encaminhados para o Instituto Médico Legal, onde, por 30 dias, foram periciados. Em 18 de abril, oito dias depois de ser preso, Ademar de Jesus Silva suicidou-se em uma cela de 6m; do complexo da Polícia Civil em Goiânia (GO). Os agentes encontraram o pedreiro morto com uma tira no pescoço feita com o pano que envolvia o colchonete. A série de reportagens sobre o desaparecimento e a morte dos adolescentes de Luziânia rendeu ao Correio Braziliense o prêmio Imprensa Embratel, na categoria Centro-Oeste.

Inquérito foi encaminhado só no último dia 23

O esquecimento do caso pelas autoridades resultou em um processo lento até o encerramento do inquérito policial. O delegado adjunto da 1; Delegacia Regional de Goiânia, Juracy José Pereira, afirma ter encaminhado somente em 23 de dezembro último os documentos para a Justiça de Luziânia. ;Esperávamos a conclusão de laudos periciais para o encerramento do inquérito. Recebemos muita cobrança. Na semana passada, encaminhei o inquérito ao Judiciário mesmo sem receber os dois laudos que faltavam: um da Polícia Federal e outro do Instituto de Criminalística de Goiás. Agora, aguardo a Justiça. Se ela entender que não foi suficiente, devolve e incluiremos os laudos, mas tudo vai depender do Ministério Público;, resumiu.

Promotor de Justiça em Luziânia que acompanhou todo o trâmite das investigações, Ricardo Rangel atendeu o Correio em meio às suas férias e contou que ainda não teve ciência do encerramento do inquérito. Rangel afirmou que recebeu os laudos dos exames cadavéricos do Diego Alves, primeiro a desaparecer, apenas em meados de novembro e dezembro. Eles eram fundamentais para o desfecho do caso. Apesar de ter sido o primeiro a sair de casa para nunca mais voltar, Diego foi o último a ser identificado pela polícia. Entre os seis corpos encontrados pelos agentes na Fazenda Buracão, estava Eric, último a sumir na cidade, que a polícia teimava em não relacionar com as outras mortes.

Rangel volta a trabalhar no próximo mês com a tarefa de devolver os laudos ao Instituto Médico Legal de Luziânia para correção no ;equívoco das datas de óbitos dos jovens;. ;Eles cometeram um equívoco entre a data dos óbitos e a da descoberta dos cadáveres. No caso do Diego, por exemplo, a data que consta é posterior à morte de Ademar;, apontou. ;O IML não presumiu a data da morte. É necessária uma retificação das certidões de óbito, processo simples;, completou.

Sem erro
Diretora do Instituto Médico de Luziânia, Sônia Cristina Arantes de Brito, por sua vez, negou qualquer erro nos exames. ;Não há como prever quando o menino morreu. O corpo encontrado estava em avançado período de putrefação. E o médico coloca no exame a data que o IML recebeu o corpo. O promotor é que tem que justificar isso por escrito no processo;, considerou. ;Através do laudo, sabe-se quanto tempo o corpo esteve no local, mas a data exata da morte não há como estimar;, frisou. Sônia também negou atraso em relação à entrega dos exames. ;Entreguei tudo em agosto. Não devo nada. Se falta algum laudo, é da Polícia Federal;, insinuou. A reportagem não conseguiu contato com a PF.

Os atrasos nas perícias e nas investigações policiais estão relacionados ao quadro insuficiente de profissionais em Goiás. O contingente tem 396 delegados de polícia, 2.110 agentes, 1.056 escrivães, 119 servidores administrativos e 191 auxiliares em geral. A Secretaria de Segurança Pública de Goiás admite que o número não é o ideal. ;O número existente ainda não é suficiente, mas o último concurso público, em 2009, para agentes, delegados e escrivães amenizou o problema;, constata, em nota. A secretaria prefere não divulgar a quantidade de profissionais de Luziânia por motivos de segurança.

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