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Estado de Minas

Pivô do protesto em Santo Antônio do Descoberto, prefeito tenta obter verba


postado em 25/01/2011 08:00

A revolta da população de Santo Antônio do Descoberto contra a administração local repercutiu diretamente no comércio e na vida dos usuários do transporte público. Segundo a Associação Comercial da cidade, cerca de 80% dos estabelecimentos ficaram fechados durante todo o dia de ontem. Quem dependia de ônibus para ir trabalhar também foi prejudicado, pois a Taguatur, única empresa que opera na cidade, optou por recolher todos os veículos à garagem. A decisão foi tomada depois que manifestantes queimaram um dos carros e apedrejaram outros seis.

A diarista Aline Souza e Silva, 21 anos, estava no ônibus incendiado. Ela conta que pensou se tratar de um assalto quando um grupo invadiu o coletivo ordenando todos os passageiros a descer. Ao saber que o ato era um manifesto popular em prol da cidade, ela aderiu ao movimento, mesmo perdendo R$ 180 por duas faxinas que faria no Guará II. “Deixei de ganhar um dinheiro que eu ia usar para pagar água e luz, mas é por um motivo justo. Vale tudo para tirar esse prefeito e toda sua corja de Santo Antônio do Descoberto, porque ele está destruindo nossa cidade”, afirmou.

Outra diarista, Cláudia Maria de Souza, 49 anos, também não conseguiu chegar ao trabalho, na Asa Sul. Ela saía de casa em direção à rodoviária quando viu sua rua transformada numa praça de guerra. “Era polícia dando tiro em trabalhador, gente no chão apanhando de cassetete, criança chorando, uma cena horrível, parecia que eu estava numa guerra. Em 20 anos morando aqui, nunca tinha visto uma coisa dessas”, disse.

A maioria dos donos de lojas preferiu dispensar os funcionários. Eles temiam que a violência se estendesse para dentro dos seus estabelecimentos. Proprietário de uma distribuidora de bebidas, Cléber Domingues Ferreira, 31 anos, atendeu os clientes por trás de uma grade. Ele conta que, embora com a proteção, ficou em dúvida em manter a loja aberta. Mesmo diante da situação tensa que predominou durante todo o dia, o comerciante apoiava a decisão dos moradores. “Vivemos numa cidade órfã de serviços básicos. Esses dias fui fazer uma entrega de moto e caí, porque a rua está totalmente esburacada. Esse é o menor dos problemas, porque a situação da educação, da saúde e da segurança é bem pior”, reclamou.

A autônoma Damiana Firmina da Silva, 41anos, foi outra que amargou um prejuízo grande por não abrir seu restaurante. O temor dela era que a polícia invadisse seu estabelecimento à procura de manifestantes. “Eu vi a polícia entrando em algumas lojas, fazendo pergunta. Fiquei com medo de eles acharem que eu estava escondendo alguém. É melhor ficar um dia sem ganhar dinheiro do que ter que se explicar por uma coisa que eu não fiz”, afirmou.

Até o fechamento desta edição, os ônibus da empresa Taguatur permaneciam na garagem. Um funcionário que preferiu não se identificar alega que existe o medo de novos ataques. “Tivemos um prejuízo de R$ 200 mil com o ônibus queimado. Nessa situação, o seguro não cobre a destruição. Fora os seis veículos que tiveram o vidro quebrado. Por baixo, teremos de desembolsar pelo menos R$ 205 mil”, afirmou. A Taguatur diz que o serviço só será restabelecido se a Polícia Militar garantir a segurança na cidade.

Ação e reação
Ao saber que a cidade estava em estado de emergência, o prefeito do município, David Leite da Silva, embarcou para Goiânia (GO) para se reunir com o governador do estado, Marconi Perillo. O objetivo do prefeito é conseguir o adiantamento de verba para começar a investir em áreas sucateadas como saúde, educação e infraestrutura. Hoje, uma das maiores reclamações dos moradores é com relação à conservação das vias públicas. O prefeito considerou legítimas as manifestações, mas as atribuiu a um grupo político de oposição ao seu governo. “Eu acho essas reivindicações justas, mas elas só tomaram essa proporção porque foram iniciadas por adversários. Ao longo do dia, populares foram se juntando e acabou nisso”, acredita David Leite.

De acordo com ele, no início do ano, o governador de Goiás tinha previsto liberar recursos até o fim de março, mas diante da insatisfação da comunidade, ele vai pedir que o dinheiro saia antes. Segundo o próprio prefeito, somente para resolver o problema de pavimentação, seriam necessários mais de R$ 2 milhões.

David Leite encerrou justificando que as lacunas da sua administração foram provocadas pela crise econômica mundial de 2009. “Nós também sofremos as consequências dessa crise, que teve reflexos em 2010. Este ano, o cenário é diferente. Com certeza vamos conseguir realizar as obras de que a cidade precisa e a população pode esperar porque isso vai ser feito”, garantiu o prefeito de Santo Antônio do Descoberto.

O governador de Goiás, Marconi Perillo, por meio de nota, determinou ao secretário de Segurança do Estado, João Furtado Neto, que possíveis excessos cometidos tanto por parte da polícia goiana quanto por parte dos manifestantes durante o protesto em Santo Antônio do Descoberto sejam apurados com rigor. Segundo Marconi Perillo, em seu governo “não serão aceito abusos de qualquer natureza”.

Segundo colocado
O prefeito David Leite não foi o candidato mais votado nas eleições de 2008. Ele ficou em segundo lugar, mas assumiu o cargo porque o vencedor, Padre Getúlio, teve a candidatura impugnada pela Justiça Eleitoral por denúncias de improbidade na época em que era prefeito.


MEMÓRIA
Gestor condenado

Em dezembro de 2010, reportagem do Correio mostrou que o atual prefeito de Santo Antônio do Descoberto havia sido condenado pelo Tribunal de Justiça de Goiás por improbidade administrativa. A ação movida pelo Ministério Público do estado indicava que, no período de 2005 a 2008, quando exerceu o cargo de vice-prefeito da cidade, David também ocupava a função de fiscal de atividades urbanas na Secretaria de Governo do Distrito Federal.

Na época, a Justiça considerou a prática ilegal e condenou Leite a devolver aos cofres do município parte dos valores recebidos no período em questão. O político teve de arcar com multa no valor referente à metade da remuneração total recebida no período, considerada enriquecimento ilícito, e que somou algo próximo de R$ 400 mil.

Apenas com a função de servidor do GDF, o atual prefeito teria acumulado, entre 2005 e 2008, R$ 286.182,05, levando-se em consideração as correções monetárias. Pela lotação no governo do DF, David recebia mensalmente R$ 6.459,23. Em relação ao mandato de vice-prefeito, o salário variou de R$ 5.724 a R$ 7.430 por mês.

Com a condenação, David Leite teria seus direitos políticos suspensos pelo prazo de oito anos e não poderá contratar com o Poder Público ou receber incentivos fiscais. Apesar da condenação, David Leite conseguiu permanência no cargo de prefeito do município goiano, pois o político só pode ser cassado após a conclusão do processo em todas as instâncias judiciais.

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