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Estado de Minas

Após a revolta, Santo Antônio do Descoberto segue com os mesmos problemas

No dia seguinte aos protestos dos moradores de Santo Antônio do Descoberto que culminaram em confronto com a polícia, a cidade encara velhos problemas. Criança morta fica cinco horas no hospital


postado em 26/01/2011 08:00 / atualizado em 26/01/2011 02:01

Um dia depois da batalha entre moradores e policiais em Santo Antônio do Descoberto, a rotina no município goiano situado a 45 quilômetros de Brasília começou a voltar ao normal. O comércio abriu as portas, as escolas funcionaram e o transporte público operou sem interferência. Bem diferente da segunda-feira, quando a cidade parou para protestar contra a precariedade dos serviços prestados. O saldo do confronto foi de oito feridos, quatro presos, seis ônibus apedrejados e um incendiado. O Correio voltou à região ontem e conferiu de perto os problemas que deram origem à revolta da população. O retrato do descaso está por todos os lados: ruas esburacadas, hospital sem servidores, obras paradas, falta de segurança e uma série de denúncias de corrupção que mancham a imagem da cidade. O drama de quem vive em Santo Antônio do Descoberto começa na rodoviária. Todas as manhãs, a cena é mesma: filas imensas de pessoas aguardando para embarcar em veículos desconfortáveis e lotados. A falta de concorrência com a Taguatur, única empresa que opera na cidade, faz com que os usuários fiquem reféns da viação. Para piorar, as tarifas foram reajustadas no fim do ano passado. Para ir e voltar do Plano Piloto, o passageiro tem de desembolsar R$ 8.
Ter carro no município não quer dizer que a dor de cabeça seja menor. Basta dar uma olhada nas borracharias e oficinas mecânicas, sempre cheias. O motivo para tanto carro danificado é a buraqueira que toma conta de todas as ruas. Até a avenida em frente ao Fórum está intransitável em alguns trechos. Na parte baixa de Santo Antônio, a situação é ainda mais grave. As três pontes que ligam o centro ao bairro Queiroz estão interditadas. Duas caíram e a cabeceira de uma terceira já desabou. Sem opção, muitos motoristas se arriscam em cruzar a ponte deficiente para evitar uma viagem mais longa. Ontem, caminhões da prefeitura jogavam pedras no acesso para impedir o tráfego. Os moradores não acreditam que a situação vá mudar. “Desde que eu me entendo por gente essas pontes estão abandonadas. Acho que não vai ser dessa vez que vão fazer alguma coisa para melhorar nossa vida”, lamentou o chapeiro Geneci Pedro de Barros, 31 anos. Bebê morre Porém, o que mais causa revolta na comunidade carente de Santo Antônio do Descoberto é a saúde pública, que já está na UTI há décadas. Há apenas um hospital em funcionamento no município. A poucos quilômetros da unidade de saúde, a construção de outro hospital chegou a dar esperanças aos moradores, mas a obra está parada há mais de 10 anos, por determinação do Ministério da Saúde, que, na época, identificou falhas na aplicação das verbas do centro hospitalar. No único centro hospitalar do município, apenas dois médicos prestam atendimento. Além disso, alguns servidores parecem despreparados para exercer suas funções. Enquanto a reportagem do Correio acompanhava a agonia de quem esperava por uma consulta, o choro de uma mãe chamou a atenção. Numa ala ainda em reforma do futuro centro cirúrgico da unidade médica, a dona de casa Regina Costa Lino, 34 anos, chorava a morte do seu filho de apenas quatro meses. O bebê caiu da cama onde dormia e bateu a cabeça no chão. Desesperada, ela correu para o hospital, mas enfrentou a burocracia de uma funcionária que se recusou a fazer a ficha porque a mãe não apresentou a certidão de nascimento do menino. Nervosa, ela invadiu o centro hospitalar e conseguiu que uma médica avaliasse a criança. A família da moça conta que a equipe médica fez um primeiro atendimento e mandou que eles aguardassem numa sala inapropriada, onde o bebê ficou em uma maca sem lençol. A morte do pequeno Taysson foi atestada pela própria mãe, que percebeu que o menino não apresentava sinais vitais. Os profissionais alegam que o bebê já chegou morto ao hospital. Na sala que deveria ser usada para salvar vidas — agora usada como necrotério —, em meio à poeira e sem nenhum amparo, Regina esperou quase cinco horas para que IML ou alguma ambulância do Estado recolhesse o corpo do seu filho, o que não ocorreu. Um amigo da família foi quem transportou o cadáver de Taysson para a funerária. Sem nenhum exame mais detalhado, a conclusão do atestado de óbito ressaltava: “Morte por traumatismo craniano”. “Foi uma covardia o que fizeram com minha irmã. Agora só nos resta chorar a morte dele”, lamentou Elaine Costa Lino, 25 anos, irmã de Regina. Sem repasses O ex-governador José Roberto Arruda, durante sua gestão, assinou convênios com as prefeituras do Entorno nos quais o GDF se comprometia a fazer repasses mensais para socorrer a saúde dessas cidades. O intuito era desafogar os hospitais do DF. Porém, os recursos deixaram de ser destinados depois da Operação Caixa de Pandora, que culminou na prisão de Arruda. Eu acho... “Já passou da hora de o povo de Santo Antônio dar uma resposta a esses políticos que não fazem nada na cidade. No dia da manifestação, não abrimos as portas. Mandamos os 12 funcionários para casa. O prejuízo foi de R$ 5 mil a R$ 6 mil, mas valeu a pena. Talvez se fosse uma manifestação organizada, o objetivo não seria atingido. Conseguimos chamar a atenção da prefeitura, dos governos do Goiás e do DF e vamos torcer para que alguma coisa seja feita para nos socorrer” Francisco de Assis de Paiva, 39 anos, vendedor de uma loja de material de construção Cesárea é cirurgia inviável Outro problema visível para quem procura o hospital do município goiano é a falta de recursos humanos e de equipamentos. Hoje, a unidade não tem condições nem mesmo de realizar uma cesariana. Os partos que necessitam de intervenção cirúrgica são encaminhados para os hospitais de Brasília, já sobrecarregados e sem estrutura para receber tanta gente. No dia da manifestação, a diarista Daiane Rodrigues de Souza, 25 anos, entrou em trabalho de parto e procurou o hospital. A médica que fez a avaliação recomendou que a ambulância a levasse com urgência para o Hospital Regional de Ceilândia (HRC). A unidade móvel de saúde foi impedida de passar pela ponte da cidade. O motorista teve de fazer um caminho mais longo. A criança nasceu morta. Ainda não é possível dizer se a demora foi determinante para o óbito. Uma servidora do hospital denunciou o caos do sistema de saúde. “Não temos equipamentos básicos, não temos servidores e as condições de trabalho são as piores possíveis. Isso reflete no atendimento da população”, disse. O prefeito de Santo Antônio do Descoberto, David Leite, anunciou medidas para recuperar as vias. Ontem, a Agência Goiana de Obras Públicas (Agop) começou a fazer um levantamento das ruas. Depois que a análise for concluída, será feito um relatório e encaminhado ao governador do Estado, Marconi Perillo, que só então decidirá quanto será liberado para essas obras. Em relação aos outros problemas da cidade, o político alegou que sua administração está engessada porque grande parte dos recursos do município é usada para pagar dívidas de gestões anteriores. (SA)

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