Jornal Correio Braziliense

Cidades

Emoção no adeus a Reynaldo Jardim

O corpo do poeta, jornalista e escritor foi velado ontem, no Teatro Nacional. Familiares e amigos, entre estes profissionais do meio cultural de Brasília, lamentaram a perda

Ontem à tarde, no foyer do Teatro Nacional Cláudio Santoro, foi velado o corpo do poeta e jornalista paulistano Reynaldo Jardim, 84 anos. Ele morava em Brasília desde o fim dos anos 1980. Na terça-feira, Jardim deu entrada no Hospital do Coração por volta das 12h. Não resistiu a um aneurisma na artéria aorta abdominal e morreu por volta das 23h. O artista deixou a mulher, a jornalista Elaina Daher, 46 anos, sua companheira há 24; os gêmeos Rafael e Gabriel, 22, e Micael, 21. De um casamento anterior, do qual era viúvo, teve os filhos Joaquim (já falecido), e Teresa, 56. Joaquim teve três filhos e dois netos; Teresa, sete filhos. O velório foi prestigiado por familiares, amigos e personalidades locais. De lá, o corpo seguiu para o cemitério Campo da Esperança.

Nascido em 13 de dezembro de 1926, Jardim fez carreira no Jornal do Brasil, no fim dos anos 1950, quando participou da criação de suplementos editoriais culturais. As mudanças ocorridas na época vieram a revolucionar o jornalismo brasileiro décadas depois: o poeta levou para publicações de todo o país sua sensibilidade artística e gráfica. Foi editor do caderno Aparte, no Correio Braziliense, e diretor-executivo da Fundação Cultural do Distrito Federal.

O secretário de Cultura do DF, Hamilton Pereira, esteve no velório e comentou com pesar a morte de Jardim. ;Vim para cá refletindo sobre os serviços que ele trouxe para todos nós: a alegria, a inteligência invulgar. Ele era a expressão cabal do nosso povo. A morte é o momento da vida;, disse. O poeta Nicolas Behr resumiu a importância de Jardim para a cultura brasiliense e brasileira: ;Ele morreu criando. Reinventou o jornalismo, mas nunca se acomodou. Um criador até os últimos dias. E sempre se arriscava. Criar é arriscar. Ele era um multiartista, um inventor, um provocador. Por isso escreveu tanto. A sua obra continua. Somos todos póstumos. E fiquei feliz de ele ser velado aqui e não em lugares oficiais. Aqui é o seu lugar, um espaço importante, ao lado de obras do Athos Bulcão;.

O ator Andrade Júnior lembrou um dos traços característicos do jornalista: a alegria inabalável. ;Ele sempre foi um sujeito muito alegre. Brasília teve a honra de hospedá-lo;, enfatizou. Renato Matos, músico que fez parceria com Jardim na canção De serviço: pra quê?, lamentou a morte ;de um dos grandes poetas vivos da atualidade;, detalhando: ;Ele conseguiu ser jornalista e poeta, o que é muito difícil. Foi poeta em todas as situações da vida. Tenho imenso orgulho de ter escrito com ele;.

Artista de família
A viúva, Elaina Daher, passou a tarde recebendo cumprimentos de amigos e artistas da cidade, sempre próxima ao corpo de Jardim. Muito abalada, desabafou: ;Casei-me com ele aos 22 anos. Ele sempre ocupou integralmente a minha vida. Não sei o que vai ser;. A paixão pela cidade se fazia presente em elogios constantes, às vezes inesperados, da janela do carro ou em passeios a pé. Jardim declarava seu amor pela capital a todo instante. ;Ele era louco por Brasília. Nunca perdeu aquele êxtase de beleza pela cidade. Não tinha um dia em que não passasse pelas quadras e por outros lugares e não elogiasse Brasília;, relatou Elaina.

O filho mais novo, Micael, falou em nome dos irmãos. ;Não tem o que falar. Ele viveu e morreu com dignidade. Vai ser difícil superar.; Micael preferiu explicitar seus sentimentos profundos em uma carta de despedida. Em um trecho, escreve: ;Se é verdade eu não sei, mas no dia de morrer ele falou: ;Tenho filhos maravilhosos;; escreveu e publicou o maior e (um dia, eu espero) o mais importante livro de poesia da literatura brasileira; teve até música de enredo de escola de samba; até mesmo na hora de morrer, morreu com dignidade. Pode-se dizer que ele tirou o dia para se despedir, e o que ele fez? O de sempre. Que é mais que o suficiente. Teimou, exigiu, brigou, fez piadas, foi carinhoso, foi um bom marido e um bom pai. Viveu bem, morreu bem. Rápido, sem dor, sem prolongamento. Reynaldo era O Cara;.

Repercussão


;Foi com pesar que soube da morte do criador, poeta e jornalista Reynaldo Jardim. Sua atuação marcante na história do jornalismo cultural e sua poesia inventiva e experimental serão sempre uma inspiração para o país e para a cultura brasileira.;
Ana de Hollanda, ministra da Cultura

;Acho que o Reynaldo nunca teve limitação para a criatividade. Ele não tinha limites, não aceitava ideias pré-concebidas, pré-estabelecidas. Ele falava que as pessoas que reformavam os jornais utilizavam modelos já existentes. Para ele, a reforma começava por uma página em branco.;
Elaina Daher, jornalista, viúva de Reynaldo

;Ele era um fazedor de grupos. Eu brigava com ele às vezes, muitas vezes discordávamos de algumas coisas, mas tinha um carinho muito grande por ele. Ele é da geração de apaixonados por Brasília. E nós, apaixonados por ele.;
Alexandre Ribondi, dramaturgo e ator

;Ele era de uma generosidade maravilhosa, tinha abertura com os jovens e uma criatividade inextinguível, uma enorme capacidade de orientar as pessoas. Sempre tive um sentimento de gratidão por ele, que viveu tão intensamente a vida.;
Chico Alvim, poeta