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Estado de Minas

PF investiga se empresários tinham relações com grupo de extermínio

Mesmo denunciados à Justiça, oficiais receberam promoções de patentes


postado em 05/05/2011 07:50 / atualizado em 12/05/2016 15:57

Durante anos, policiais militares acusados de integrar grupos de extermínio em Goiás tiveram apoio de políticos, empresários e fazendeiros do estado. Agora, essa relação é investigada pela Polícia Federal (PF). Agentes querem saber o que ganhava em troca quem promovia ou financiava os PMs envolvidos em matanças. Há forte suspeita de mortes por encomenda.

Escutas telefônicas gravadas com autorização judicial mostram o envolvimento de políticos com militares envolvidos em execuções (leia abaixo). Promoções de patentes e apoios durante campanhas eleitoral revelam o prestígio de oficiais denunciados por diversos crimes com ocupantes do primeiro escalão da antiga administração do governo de Goiás.

Além dos 19 PMs presos em 15 de fevereiro durante a Operação Sexto Mandamento, oito autoridades goianas estão sob investigação, mas em liberdade. Fazem parte da lista o ex-secretário de Segurança Pública Ernesto Roller e o ex-secretário da Fazenda estadual Jorcelino Braga. Ambos são suspeitos de tráfico de influência que resultaram nas promoções de patentes de integrantes do esquadrão da morte.

O caso mais emblemático é o de Ernesto Roller, que elevou as patentes dos principais envolvidos nos crimes e se recusou a investigar as denúncias de assassinatos cometidos pelos policiais militares enquanto esteve no cargo, durante o governo Alcides Rodrigues (2007-2010).

Entre outros, Roller coroou com o posto de tenente-coronel o então major Ricardo Rocha. Apontado como líder do grupo de extermínio, Rocha comandou o 16º Batalhão da PM, em Formosa (GO), por dois anos. Na cidade distante 70km de Brasília, ele matou 15 pessoas, segundo as investigações. O tenente-coronel ainda coleciona mais de 100 mortes em outras localidades. O oficial é um dos 19 presos pela PF na Operação Sexto Mandamento. Ele está detido no presídio federal de segurança máxima de Campo Grande (MS) desde 15 de fevereiro.

Mortes em série
As vítimas do bando liderado por Ricardo Rocha eram jovens, quase todos viciados em algum tipo de droga. Todos morreram com tiros à queima-roupa, com pelo menos uma bala na nuca, sem demonstrar reação, de acordo com laudos cadavéricos revelados pelo Correio Braziliense em série de reportagens publicadas desde maio de 2009.

Mesmo indiciado pela Corregedoria da corporação, respondendo a inquéritos por homicídio e com a candidatura impugnada pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE), o oficial disputou vaga na Assembleia Legislativa de Goiás, mas acabou perdendo nas urnas.

O major e os outros sete PMs foram afastados do trabalho no começo de março de 2010, logo após denúncia da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Goiás. Duas semanas depois, três soldados e um sargento da mesma unidade foram presos sob a acusação de envolvimento em crime de pistolagem.

Eles seriam os autores do sequestro do fazendeiro José Eduardo Ferreira, 56 anos, assassinado um ano antes. A morte teria sido encomendada por outro produtor rural, com quem a vítima havia brigado por disputa de terras, segundo a investigação da Polícia Civil goiana.

Ricardo Rocha foi denunciado também pelo Ministério Público de Goiás (MPGO) por participação em uma chacina com cinco mortes e por crime de pistolagem. Tudo ocorreu quando ele era o subcomandante da PM em Rio Verde, no sudoeste goiano. Após as mortes em série, Rocha foi transferido para Goiânia (GO), onde comandou a Rotam entre 2003 e 2005. Foi a época em que a PM mais matou na capital.

De 6 de março de 2003 a 15 de maio de 2005, foram registrados 117 homicídios em Goiânia cuja autoria é atribuída a PMs, a maioria da Rotam. Das 117 vítimas, 48,7% (57 pessoas) não tinham ficha criminal. Outras 60 (51,3%) eram foragidas da Justiça ou acusadas de algum crime.

Em meio à investigação do MPGO sobre esses casos, o major voltou a Rio Verde. Em seguida, foi para Formosa, terra natal e base eleitoral do então secretário de Segurança Pública de Goiás, Ernesto Roller, deputado estadual pelo PP e candidato a vice-governador na chapa de Vanderlan (PP).

Conversas grampeadas
Como fez desde o início da série de reportagens do Correio sobre as execuções no Entorno, em maio de 2009, Ernesto Roller se disse vítima de "perseguição política" -- sem citar nomes --, após o desencadeamento da Sexto Mandamento e as acusações de tráfico de influência em favor dos PMs investigados.

Apesar de admitir ter subido ao palanque do então major Ricardo Rocha várias vezes durante a campanha eleitoral, Roller garante não manter relações de amizade com o acusado. Sobre a patente dada a Rocha, mesmo esse sendo alvo de investigações da PF, o ex-secretário de Segurança justificou que ela atendeu a critérios pré-estabelecidos.

Gravações telefônicas feitas pela PF sugerem que Roller teria contribuído, ou tentado contribuir, para a campanha de Ricardo Rocha. Num dos diálogos interceptados, Rocha e Roller falam sobre a promoção do primeiro de major a tenente-coronel.

Na mesma conversa, Rocha reclama que André Ribeiro Nunes, suspeito de participar de um grupo de extermínio, não está conseguindo ser promovido. "Não, moço, se ele ficou, se subiu (na lista), o resto a gente cuida", responde Roller. Ele acrescenta, após ouvir a reclamação de Nunes, de que estaria com a pontuação baixa: "Manda pra mim, por mensagem, agora pro meu celular, nome completo e RG seu." Nunes acabou promovido a major.

Já o ex-secretário da Fazenda foi gravado em pelo menos três diálogos. Em um deles, Jorcelino Braga tratava de um compromisso com um cabo eleitoral. Em outro, recebeu pedido para conversar com o então comandante-geral da PM goiana, coronel Carlos Elias, sobre promoções de oficiais. No terceiro, ligou para Ricardo Rocha com a intenção de saber se ele já havia sido promovido a tenente-coronel.

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