Jornal Correio Braziliense

Cidades

Há três gerações seguidas, mulheres da família Borges têm filhos gêmeos

Montar a árvore genealógica da família Borges Aquino é um desafio. Três gerações seguidas de mulheres tiveram filhos gêmeos bivitelinos (não idênticos). A história genética dessas pessoas traz curiosidades sobre conceitos básicos da ciência. Estudos mostram que esse tipo de gravidez dupla é mais frequente quando há reprodução assistida (fecundação em laboratório, por exemplo). Na situação das mães dessa família, porém, nenhuma dessas regras valeu.

As gestações de mães e filhas trouxeram ao mundo pares de bebês, sem interferência de inseminação artificial. Tudo começou com a matriarca, Maria Afonsina Borges, em Minas Gerais. Ela deu à luz Geralda Maria e Maria Geralda, em 1953. Os parentes assustaram-se ao ver duas meninas nascerem, quando esperavam por apenas uma. Naquele tempo, poucas mulheres tinham acesso ao pré-natal.

Antes disso, não havia registros de gêmeos na família. As duas Marias tinham uma forte ligação. Vestiam-se da mesma maneira, tinham corte de cabelo igual e gostavam das mesmas brincadeiras. Tiveram, porém, vida curta. Morreram jovens. A primeira a ir foi Maria Geralda. Aos 26 anos, teve um infarto e não resistiu. Oito anos depois, Geralda Maria morreu, depois de sofrer do mesmo mal, subitamente.

Geralda Maria também teve filhos gêmeos, aos 24 anos. Nasceram Roziane e Rozivânio de Aquino, hoje com 34 anos. Quando a mãe morreu, eles tinham 10. Os partos duplos não pararam por aí. No ano passado, Roziane descobriu que estava grávida. Apesar do histórico familiar (a mãe dela e a avó haviam tido gêmeos), ela não imaginava que viriam dois de uma vez. ;A gente achava que, por eu ter uma irmã gêmea, seria mais difícil;, explicou. A primeira ecografia não mostrou dois fetos, somente um. O segundo exame revelou as batidas de dois corações.

Surpresa
Roziane e o marido dela, o auxiliar administrativo James Firmo de Aguiar, 34 anos, ficaram surpresos e felizes. ;Nós somos católicos e acreditamos muito na providência de Deus;, disse James. Pouco depois de saber da gravidez de Roziane, James perdeu o emprego. O casal, que mora no Itapoã, não teve medo de criar duas crianças. Eles contaram com a solidariedade dos amigos, colegas de trabalho e frequentadores da mesma igreja, além de familiares.

Ganharam boa parte do enxoval. Hoje, Roziane e James são pais de Isaac e Pedro, 7 meses. Apesar da informação vinda dos médicos de que os meninos são bivitelinos, os dois parecem fisicamente idênticos. ;Isaac é mais nervoso, obedece menos. O Pedro é cheio de energia, sorri o tempo todo;, disse a mãe. Os dois já partilham momentos de afeto. ;Eles vivem se dando as mãos. São muito conectados. É interessante vê-los dormir. Quando um vira para um lado, o outro faz o mesmo movimento;, relatou Roziane. Isaac e Pedro, às vezes, saem de casa vestidos de maneira igual.

Atualmente, Roziane trabalha das 8h às 18h como secretária em um laboratório, na Asa Norte. Há três meses, James encontrou emprego. Os gêmeos ficam na creche enquanto os pais trabalham. ;Ter gêmeos é uma delícia. A gente aprende a partilhar tudo: brinquedos, carinho. A ligação entre esses irmãos é diferente. Dá muito trabalho cuidar de dois. Mas sentimos muito mais alegria do que qualquer dificuldade;, disse Roziane.

Dois em dois
Há outros gêmeos na família. O irmão de Geralda Maria (a mãe de Roziane), Wagner Borges, casou-se com Aída Matos. Juntos, eles tiveram duas meninas, geradas ao mesmo tempo, Valéria e Valquíria, hoje com 29 anos. Elas não são idênticas. Valéria também teve uma gestação de gêmeas. Uma das meninas não se desenvolveu e morreu ainda dentro do ventre da mãe. Nasceu Maria, hoje com 4 anos.

O médico que cuidou da gestação de Valéria ficou surpreso com o histórico familiar. ;Ele disse que era raro esse tanto de gente gêmea na mesma família. Hoje, eu penso em ter mais filhos, mas tenho receio de virem mais dois;, afirmou Valéria. Roziane não tem o mesmo medo, mesmo tendo ouvido de uma médica que a probabilidade de os gêmeos se repetirem é grande. ;Eu e meu marido queremos mais filhos. Se vierem gêmeos, vamos cuidar deles com muito amor e felicidade.; Os gêmeos seguiram caminhos diferentes, mas nunca perderam o contato. Valéria é servidora pública em Brasília. Valquíria mora na Bahia. Rozivânio é trabalhador autônomo e vive no Pará.

O geneticista da Universidade Católica de Brasília (UCB) Rinaldo Pereira, professor da pós-graduação em ciências genômicas, montou o heredograma dessa família. Normalmente, a presença de gêmeos bivitelinos vem de dois óvulos diferentes fecundados por dois espermatozoides distintos. De acordo com o especialista, a explicação mais comum para a grande incidência entre os Borges Aquino é a possibilidade de ovulação múltipla. ;As mulheres dessa família liberam vários óvulos por vez, o que não é tão comum. Seria preciso um estudo aprofundado para explicar o porquê.;

Para Rinaldo, a situação é inusitada e interessante. ;Essa concentração dentro da mesma família é incomum;, destaca. O detalhe que intrigou o pesquisador foi a presença de gêmeas entre os filhos de Wagner. ;A primeira explicação que eu daria é que a mulher dele (Aída) poderia ser parente dele. Descartada essa possibilidade, fica um enigma.;

A professora de biologia da Universidade de Brasília (UnB) Maria Nazaré Klautau relata que ocorrem muitos erros no momento de identificar a classificação dos gêmeos (se são bivitelinos ou idênticos). ;Quando os gêmeos são homem e mulher, é fácil dizer que são bivitelinos. Mas se são do mesmo sexo, fica complicado. É preciso analisar muitos fatores;, explicou. ;Há causas externas, além da genética, que podem determinar essa incidência de gêmeos, como os hormônios que consumimos ou remédios.;