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Estado de Minas

Projeto desenvolvido por ex-tenista resgata a dignidade de jovens carentes


postado em 24/07/2011 08:00

Era uma tarde qualquer no Clube Motonáutica, em 1995. Edison Raw dava uma aula de tênis, como vinha fazendo desde que aposentou as raquetes. Uma algazarra na quadra vizinha chamou sua atenção. Era o som da desavença entre dois meninos que disputavam uma partida. Raw tentou dar fim à briga, mas foi recebido com absoluta hostilidade por parte de um dos garotos. Fábio Rocha, então com 9 anos, tinha um arsenal de ofensas na ponta da língua. Mas Raw insistiu e dobrou a ira do jovem ao perguntar se ele toparia ajudá-lo na aula catando as bolas. Ele se interessou pela proposta. Começava ali uma relação de amizade, quase de pai e filho, que já dura 16 anos. Foi também o início da atuação de Raw como agente transformador da vida de jovens carentes por meio do esporte. O que o tenista pede em troca é simples: estudo, respeito e a perpetuação da corrente de oportunidades.

Hoje, muitos meninos que receberam a ajuda de Raw são os homens que ensinam o esporte aos jovens da Vila Planalto e de São Sebastião participantes do projeto social da Vila do Tênis e também da Raw Tennis. Para o ex-tenista, ver que as crianças se tornaram cidadãos exemplares e pessoas capazes de estender a mão ao próximo é a verdadeira realização do sonho. “Não comecei a fazer isso pedindo alguma coisa em troca. Quis que todos eles fossem pessoas melhores”.

O incidente do Clube Motonáutica não desencadeou uma ação planejada. Raw simplesmente decidiu investir na formação daquele menino brigão e estender o benefício a muitos outros que viriam depois. “Começou sem querer, sem planejar. Mas acho que é da minha criação. Quando tive a oportunidade de começar a ensinar tênis, não a perdi. E o Fábio foi um tenista de altíssimo nível. Ganhava tudo que disputava”, lembra Raw. Mas o menino era “custoso”. Desde pequeno, fazia bicos, como no Motonáutica, para conseguir dinheiro. A mãe de Fábio era auxiliar de serviços gerais e o mês sempre fechava com as contas apertadas. Fábio chegou até a vigiar carros, mas Raw impôs a condição de que ele parasse de trabalhar para se dedicar aos treinos.

Desempenho
O menino da Vila Planalto foi praticamente criado com o filho de Raw, Felipe. O alto custo dos equipamentos obrigava Raw a tomar a decisão de quem seria beneficiado. “Tudo novo ia para o Fábio. Meu filho sempre ficou com o material usado e ele era muito compreensivo. Sabia que a vida do Fábio era mais difícil que a nossa, mesmo no início, quando a minha situação financeira também não era boa”, afirma. Todos os dias, entre as 14h30 e as 18h, Fábio treinava como gente grande, mas tinha que mostrar bom desempenho na escola, senão era puxão de orelha na certa. “Ele foi praticamente meu pai. Talvez por isso a gente brigasse tanto”, brinca Fábio.

Ele chegou a abandonar os treinos por dois anos para trabalhar, mas foi recebido de volta de braços abertos, quando a ideia não vingou. A cumplicidade entre os dois cresceu e o passar do tempo transformou o jovem em braço direito de Raw. Além de ser professor de tênis da escola, ele ajudou a recrutar novos adolescentes para as quadras, sob a tutela do ex-tenista. “Digo que ele deve ter com os meninos a mesma paciência que eu tive com ele. E ele dava mais trabalho”, diverte-se Raw. Hoje, Fábio cursa a faculdade de educação física e batalha para realizar cada vez mais projetos que tenham o tênis como ferramenta de transformação de jovens de classe baixa. Ele entrou de cabeça no programa da Vila do Tênis, que atende 64 meninos de São Sebastião e da Vila Planalto. “O esporte transforma a vida das pessoas. Ele ensina a respeitar os outros, a não pegar o que não é seu, a ter disciplina. E essas são as coisas que mais prezo na vida”, frisa Fábio.

Entusiasmo
Não existe um número preciso de quantos meninos passaram por ali, mas hoje o ex-tenista custeia, sozinho, três, incluindo o sobrinho de Fábio e seu afilhado, Yuri Rocha, 14 anos. A cobrança com os meninos é a mesma feita com Fábio: atenção aos estudos e treino diário. “Eu seria uma pessoa completamente diferente se não tivesse conhecido o Raw”, garante Fábio.

Apesar de muitas vezes enfrentar algum preconceito por atender na mesma quadra alunos pagantes, muitos de renda elevada, e alunos não pagantes, Raw não dá muita bola. Acredita ser melhor continuar apostando que tem capacidade para ajudar a mudar a vida de quem não tem tantas oportunidades. “Não dá para ajudar todo mundo, mas penso que, se um ajudar mais um, que ajuda outro, já é um bom caminho”, finaliza.

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