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Estado de Minas

Negócios e empregos gerados pelo Paranoá movimentam R$ 575,5 mi por ano

O valor corresponde três vezes o orçamento de Ceilândia, a cidade mais populosa do DF, e maior que o PIB de Águas Lindas. No entanto, potencial poderia ser mais bem explorado


postado em 02/10/2011 08:08 / atualizado em 02/10/2011 14:44

(foto: Daniel Ferreira/CB/D.A Press)
(foto: Daniel Ferreira/CB/D.A Press)

Mesmo sem nunca ter sido alvo de ações públicas eficientes, o Lago Paranoá representa uma das maiores riquezas econômicas do Distrito Federal. Levantamento exclusivo mostra que o espelho d’água movimenta pelo menos R$ 575,5 milhões por ano —cerca de R$ 1,5 milhão por dia — e responde pela criação de 16,6 mil empregos. Com base em informações levantadas pelo Correio, o economista Júlio Miragaya, do Instituto Brasiliense de Estudos da Economia Regional (Ibrase), chegou aos números inéditos.

O volume de negócios do lago é três vezes o orçamento previsto para Ceilândia, a cidade mais populosa do DF, em 2012. O valor supera ainda o Produto Interno Bruto (PIB) — a soma de todas as riquezas produzidas — de municípios goianos do Entorno, como Valparaíso, Águas Lindas, Novo Gama, Cidade Ocidental, Planaltina ou Alexânia. Os empregos gerados pelas águas do Paranoá correspondem a quase 1,5% de toda a força de trabalho da capital do país. “São números que impressionam, até porque o objetivo principal do lago não é a criação de empregos e renda”, ressalta Miragaya.

As margens do lago artificial idealizado no século 19 e concretizado com a construção de Brasília abrigam as academias de ginástica mais sofisticadas da cidade, o metro quadrado mais caro, os restaurantes mais requintados e esportes cujos acessórios exigem investimentos pesados. Pelas águas represadas do Rio Paranoá, navegam cerca de 2 mil embarcações (número que dobrou em cinco anos), entre lanchas, jet skis e veleiros — frota invejável para um lugar distante mais de 1.000 km do litoral brasileiro.

Os cálculos levaram em conta salários e receitas médias das atividades econômicas relacionadas ao lago ou praticadas em torno dele: os mercados náutico e imobiliário, bares, restaurantes e comércio em geral, clubes, academias e casas de festa, órgãos públicos e serviços prestados em residências. Os dados usados como referência foram repassados por associações, sindicatos e representantes de empresas dos segmentos envolvidos.

Gastronomia

De acordo com o levantamento, a gastronomia, com cerca de 50 bares e restaurantes beira-lago, lidera o ranking de riquezas do Paranoá (veja arte): cria quase 4 mil empregos e movimenta R$ 168,3 milhões por ano. Os 10 flats e hotéis com vista para o lago aparecem em segundo lugar na lista, sem incluir os valores referentes à venda e à valorização dos imóveis. Na terceira posição, destaque para o montante de salários pagos a trabalhadores que prestam serviços nas casas “ponta de picolé”, que ficam às margens do espelho d’água.

O inegável potencial econômico e turístico do lago seria ainda maior, na avaliação de Miragaya, se a orla não tivesse sido invadida e apropriada por particulares ao longo dos anos. “O pouco espaço público nas margens limita a possibilidade de crescimento”, sustenta o economista. O zoneamento do Lago Paranoá, com a definição clara dos espaços destinados ao turismo, nunca ocorreu. A marina pública ainda é promessa e o Projeto Orla, criado há 16 anos, ficou no meio de uma guerra política e até hoje não saiu do papel.

Especialistas apostam no Paranoá como solução para manter o turista na capital por mais tempo. Pesquisa do Centro de Excelência em Turismo da Universidade de Brasília (CET/UnB) mostra que os visitantes não passam mais de dois dias na cidade. “Em qualquer lugar do mundo, um lago como esse despertaria interesse do poder público. Aqui, a ‘mina de ouro’ parece ser algo irrelevante”, afirma o vice-presidente da Associação Brasiliense das Agências de Turismo Receptivo (Abare), Edmilson Figueiredo.

O Serviço de Apoio às Pequenas e Médias Empresas do DF (Sebrae-DF) concluiu em julho deste ano um estudo sobre o turismo no DF e classificou o Lago Paranoá como o maior atrativo da cidade, com grande potencial, porém muito pouco aproveitado. “A impressão que dá é que a solução está aí, mas ninguém a enxerga: o Lago Paranoá é completamente subtilizado”, comenta a analista do Sebrae-DF Jackeline Mapurunga, que coordena o levantamento de oportunidades de negócios no espelho d’água.

Em pesquisas realizadas desde 2009, a professora do CET Karen Basso constatou a demanda reprimida por infraestrutura no lago, lugar basicamente restrito às classes A e B de Brasília. “A maioria ainda não encara o lago como espaço para ser usado”, completa. O lazer, detalha ela, é prejudicado por temores que persistem em relação à balneabilidade e segurança. “Muitos ainda têm nojo do lago e o consideram perigoso.” No entanto, a água do reservatório é considerada de boa qualidade.


Terceira frota
A área de jurisdição da Delegacia Fluvial de Brasília, que engloba o DF e vários municípios de Goiás, possui cerca de 31 mil embarcações registradas, ocupando a quarta posição no ranking nacional. Como duas localidades do topo da lista estão em São Paulo, considera-se a área de Brasília a terceira maior frota do país. São Paulo lidera, com 42.859 embarcações, seguida da Capitania Fluvial do Tietê-Paraná (37.378) e do Rio de Janeiro (36.095).


Despoluição
Em 1978, o Correio estampou em manchete a notícia de que o Lago Paranoá havia apodrecido. O mau cheio era insuportável. A Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb) precisou desenvolver estudos para solucionar o problema. Uma estrutura de monitoramento e controle foi montada para atestar a qualidade da água. Hoje, a Caesb garante que o lago está despoluído.


Fiscalização ampliada

Há 5 anos, o Lago Paranoá possuía metade da frota atual. Por conta do aumento do número de embarcações, a Alta Administração Naval decidiu elevar, este mês, a categoria da delegacia para Capitania Fluvial, o que pode resultar em mais contratações e novos equipamentos. Atualmente, a delegacia mantém pelo menos uma equipe 24 horas no lago. Nos dias de maior movimento, três equipes conduzem a fiscalização. A Marinha considera o trabalho suficiente, sendo o maior problema a “falta de mentalidade de segurança de alguns dos usuários”.


Análise da notícia
Investir e preservar

Marcelo Tokarski

O potencial econômico do Lago Paranoá pode e deve ser explorado. Além de garantir lazer a uma parcela da população e ser um dos principais cartões-postais de Brasília, o espelho d’água gera milhares de empregos, produz riquezas e movimenta a economia da cidade. O problema é que até hoje essa exploração é feita sem uma política pública para ao mesmo tempo incentivar e disciplinar o uso do lago, que no passado já sofreu com o descaso e chegou a ser considerado impróprio para mergulhos. O Lago Paranoá é um patrimônio da capital e precisa ser tratado como tal. Sua exploração econômica é bem-vinda — e deve ser potencializada —, mas é imperioso disciplinar seu uso para que o lago seja preservado e continue gerando riquezas para o Distrito Federal.

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