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Estado de Minas

Familiares de vítimas atingidas por raio em Águas Lindas lamentam tragédia


postado em 03/11/2011 08:26

Célia Prada, mãe de Francisco Jonathas, ao lado de dois irmãos do garoto:
Célia Prada, mãe de Francisco Jonathas, ao lado de dois irmãos do garoto: "Ele era um menino bom" (foto: Elio Rizzo/Esp. CB/D.A Press)


Eles cresceram juntos. Moravam na periferia de Águas Lindas (GO), a 50km do centro de Brasília. Eram vizinhos e melhores amigos. Dividiam as horas entre as aulas da sétima série em colégios públicos e a pelada no campinho de terra perto de casa. Os dois torciam para o Flamengo, tinham Ronaldinho Gaúcho como ídolo e sonhavam ser jogadores de futebol. Mas acabaram atingidos pelo mesmo raio enquanto faziam o que mais gostavam: bater bola.

Uma forte descarga elétrica derrubou três dos 10 garotos que brincavam na tarde da última terça-feira, em um campo improvisado no Setor de Mansões Ilha Bela. Entre eles, Alex Lima de Freitas Silva, 15 anos, e Francisco Jonathas Prada Sousa, 16. Passava das 16h. Chovia e relampejava muito. O clarão e o barulho do raio assustaram a vizinhança. Três brigadistas chegaram antes do Corpo de Bombeiros e tentaram reanimar os meninos por 30 minutos, sem sucesso.

O terceiro atingido, Irarles Pereira dos Santos, 14 anos, caiu desacordado diante de dois irmãos mais novos, que também se divertiam na chuva, descalços. Levado para o hospital municipal da cidade, reagiu e teve alta na madrugada. Ontem pela manhã, com o queixo ferido pela queda, descansou. Tentaria se recuperar para acompanhar o enterro dos colegas, previsto para a tarde de hoje, no cemitério Parque Águas Lindas de Goiás.

A mãe do sobrevivente, Jucilene Pereira da Silva, completou 40 anos ontem. “Deus me deu o melhor presente: salvou o meu filho”, afirmou. Ela não dormiu à espera de notícias de Irarles. A primeira informação era de que o garoto estava morto. Jucilene desesperou-se. A melhora trouxe alívio, mas não a livrou da angústia. “Não paro de pensar no sofrimento das outras mães. Sinto muito por elas.”

Vizinhos e amigos passaram o dia a consolar as famílias das vítimas. A doméstica Célia Prada, mãe de Francisco Jonathas, precisou ser medicada. “Ele era um menino bom”, repetia. O garoto fora o primeiro de cinco filhos. Com a separação dos pais, três anos atrás, virou o homem da casa, da sala, do quarto e da cozinha. Cuidava dos irmãos, preparava as refeições, mas encontrava tempo para jogar bola. “Era a única diversão dele”, disse a mãe, mostrando fotos do garoto agarrado à bola.

Na terça-feira, Célia não se sentiu bem no trabalho. Teve um mal pressentimento e rezou pelos filhos. Pouco depois, uma das filhas ligou, aos prantos: “Mãe, o Jonathas está morto”. As pernas tremeram, faltou o ar. Após o baque, teve de se esforçar para aceitar a situação. “Deus quis assim. É Ele quem sabe da vida da gente. Pelo menos ninguém atirou nem esfaqueou o meu filho”, comentou. “Foi uma fatalidade”, emendou o pai, o operário Antônio Francisco dos Santos, 39 anos.

Do lado de fora da casa de Alex, uma rua abaixo, ouvia-se o choro da mãe, também tranquilizada por remédios. “Meu filhinho era meu ouro, tudo para mim”, dizia. O irmão gêmeo de Alex, muito abalado, andava pelas ruas sem rumo, para espairecer. Um das sete irmãs, Gleyce Lima da Silva, 20 anos, falou em nome da família: “Ele só gostava de futebol”. Alex e Jonathas ajudaram a descampar o local e a montar as traves onde jogavam bola no momento da tragédia.

Sem medo
No dia seguinte à tragédia, crianças e adolescentes não se amedrontaram com o tempo nublado em Águas Lindas. No meio da rua e em gramados, a garotada aproveitou o feriado para jogar bola. Cientes da morte dos colegas de bairro, prometiam parar com a brincadeira caso começasse a chover.

O Setor de Mansões Ilha Bela, onde as vítimas moravam, não tem quadra de esporte. Gente para brincar não falta. “É perigoso deixar os meninos na rua, mas não temos muito o que fazer”, comentou a auxiliar de serviços gerais Maria Souza, 41 anos, mãe de uma menina que jogava bola em um dos vários campos improvisados.

Colaboraram Julia Borba e Mariana Branco


Memória

14 de março de 2009
O empresário Alexandre Costa Gagliardi, 36 anos, acabava de voltar de um passeio de jet ski e estava à beira do Lago Paranoá quando acabou atingido por uma descarga elétrica. De acordo com os bombeiros, o raio caiu dentro da água. Alexandre, que estava sobre o piso de madeira, recebeu o impacto. Ele teve queimaduras e sofreu uma parada cardíaca.

3 de dezembro de 2007
José Cláudio Feitoza da Silva, 21 anos, foi atingido por um raio em um descampado na altura da QNR 1, em Ceilândia. O jovem tinha acabado de se casar e aguardava ser chamado para um emprego de cobrador de ônibus. No dia do acidente, tinha saído para colher mangas com o irmão e a enteada. Uma menina de 3 anos estava no colo dele e sofreu queimaduras. José sofreu cinco paradas cardiorrespiratórias e morreu após dar entrada no hospital.

23 de novembro de 2000
O garoto Ricardo Henrique de Almada Vieira, 10 anos, morreu ao ser atingido por um raio na zona rural de São Sebastião. Ele jogava bola em um campo de terra batida. Morreu na hora, vítima de queimaduras e parada cardíaca. Outro garoto, William Rosa da Silva, à época com 12 anos, caiu no chão por causa do impacto e teve traumatismo craniano. Ele foi atendido no Hospital Regional de Planaltina e sobreviveu.

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