A segunda audiência de instrução do caso Villela ficou marcado pelo depoimento de mais de seis horas prestado pelo ex-diretor da Coordenação de Crimes Contra a Vida (Corvida) Luiz Julião Ribeiro no Tribunal do Júri de Brasília. Com 16 anos de experiência em apuração de homicídios, o delegado iniciou a apuração do triplo homicídio ocorrido na 113 Sul. Ele foi o responsável por ouvir os primeiros esclarecimentos do ex-porteiro Leonardo Campos Alves, de Francisco Mairlon Aguiar e de Paulo Santana, acusados de executarem o crime praticado no Bloco C, em 28 de agosto de 2009.
Julião disse ontem não ter dúvida do envolvimento da arquiteta Adriana Villela no assassinato dos pais, o ex-ministro José Guilherme Villela e Maria Carvalho Mendes, além da empregada da família, Francisca Nascimento da Silva. ;Ela tinha motivação financeira para agir. Não podemos afirmar que ela estava na cena do crime, mas podemos dizer que ela encomendou a morte dos pais.;
O ex-diretor da Corvida ; ele se aposentou em 26 de novembro de 2010 ; destacou ainda o comportamento atípico de Adriana no dia em que os corpos das vítimas foram encontrados, em 31 de agosto. ;Os três foram mortos na sexta-feira e, no domingo, a Carolina (Villela, neta de José Guilherme e Maria e filha de Adriana) fazia concurso e informou para a mãe que estava preocupada por não conseguir falar com os avós. Apesar disso, Adriana não tomou nenhuma providência;, disse.
O investigador estranhou o fato de Adriana ter feito várias ligações para convidar a filha a um almoço, na manhã da segunda-feira. A jovem passou a tarde no Tribunal de Justiça do DF e Territórios (TJDFT) e depois seguiu para o escritório dos avós, no Edifício Denasa, no Setor Comercial Sul. Ao ser informada que eles não apareceram para trabalhar, Carolina ligou novamente para Adriana e pediu para ela telefonar aos parentes de Francisca.
O investigador descreveu ainda as reações de Carolina e de Adriana, sem notícias das vítimas havia três dias. A neta foi ao Bloco C da 113 Sul e constatou que os carros de José Guilherme e Maria estavam na garagem. Ela, então, pediu ajuda ao ex-namorado, perito da Polícia Federal, e a amigos policiais, além de um chaveiro, para abrir o apartamento. ;A Adriana tomou conhecimento da angústia da filha com o desaparecimento por volta das 18h, mas só chegou ao local às 20h. Ela demorou duas horas para tomar uma atitude. Nesse tempo, ela liga para um gerente de banco e a um agente de viagens, vai para casa, toma banho e ainda passa na padaria e pergunta se alguém viu os pais;, relatou Julião.
Para o investigador, a arquiteta apresentou uma quebra do padrão comportamental, racional e instintivo. ;Numa atitude normal, a pessoa iria diretamente para onde teria mais chances de encontrá-los, que, nesse caso, seria o apartamento dos pais. Adriana apresentou um comportamento que a polícia entende como comprometedor;, explicou.
Provas
Além de Julião, cinco testemunhas de acusação estavam previstas para serem ouvidas ontem. Depois do delegado, foi a vez da papiloscopista Gemima de Jesus Santos prestar depoimento. Ela foi a responsável por analisar os fragmentos de impressão digital encontrados no apartamento dos Villelas. Uma delas estava na porta de madeira de um dos escritórios do imóvel. A especialista disse que o número de marcas das vítimas encontradas nos cômodos era pequeno, o que gerou estranheza. Ao todo, foram encontradas duas impressões de Francisca, quatro de Maria Villela e nenhuma de José Guilherme.
A impressão de Adriana foi identificada em outra porta de madeira e teria sido produzida perto da data do crime, conforme análise elaborada a partir de um estudo das condições climáticas. Os especialistas constaram que as digitais não poderiam ter sido deixadas em 13 de agosto de 2008, dia em que Adriana disse ter estado no apartamento dos pais pela última vez. ;A madeira absorve muito mais a impressão, mas percebemos que a qualidade da palmar encontrada era muito boa;, destacou Gemima.
Na audiência de ontem, os advogados de Adriana Villela e dos réus Leonardo, Mairlon e Paulo voltaram a desqualificar as provas materiais colhidas pela polícia técnica. ;No caso do Julião, ficou claro que ele não conhece o processo. Em relação às provas técnicas, a polícia quer provar que Adriana esteve no local do crime, mas eles apresentaram um laudo que não tem precedentes no mundo;, disse Antônio Carlos de Castro, o Kakay, advogado da arquiteta. Ela mais uma vez não esteve presente no Tribunal do Júri de Brasília.
Os defensores de Leonardo, Mairlon e Paulo também relataram a quantidade de depoimentos dos acusados e o tempo de duração de cada um. Neles, os defensores questionaram as técnicas de investigação empregadas pela polícia e sugeriram que os réus foram induzidos a confessar o crime ou obrigados a dizer que são autores do triplo homicídio depois do emprego de tortura psicológica, por meio de oitivas longas e supostamente direcionadas.
Os depoimentos terminaram às 21h. A próxima audiência está marcada para as 9h de hoje, com a participação de pelo menos quatro testemunhas de acusação. As de defesa serão intimadas em seguida. Adriana só não deve participar do julgamento depois de inquirida pelo juiz do Tribunal do Júri de Brasília Fábio Esteves. (Colaborou Flávia Maia)
Habeas corpus negado a réu
No mesmo tempo em que ocorria a audiência de instrução do caso Villela, o TJDFT julgava o pedido de habeas corpus feito pela defesa do ex-porteiro Leonardo Campos Alves. Os desembargadores negaram, por unanimidade, a liberdade do réu. Os advogados do ex-porteiro alegaram excesso de prazo para realização das oitivas, mas os magistrados disseram que não poderia ser considerado com tanto rigor em decorrência da complexidade do caso. A defesa deve apelar ao Superior Tribunal de Justiça (STJ). Esse é o terceiro pedido negado pelo TJDFT. O primeiro ocorreu quando foi decretada a prisão preventiva, em novembro do ano passado; e o segundo, na época da prisão temporária. Sem sucesso na soltura do cliente, o advogado dele, o defensor público Frederico Donati Barbosa, retornou ao Tribunal do Júri. Ele solicitou ao juiz Fábio Esteves que o processo de inquirição das testemunhas ocorresse em ritmo mais lento, com agendamento prévio das pessoas a serem ouvidas.
O que diz a defesa
Os advogados de Adriana Villela acusam a Coordenação de Crimes Contra a Vida (Corvida) de coagir testemunhas, manipular informações e quebrar o segredo de Justiça, além de destruir provas importantes do processo de investigação. Afirmam ainda que as roupas do casal Villela e da empregada, bem como mídias com depoimentos de testemunhas, foram queimadas e destruídas sem justificativa. Alegam também que Adriana apontou o ex-porteiro Leonardo Campos como possível autor desde os primeiros depoimentos prestados por ela na 1; DP. Em 2004, José Guilherme e Maria Villela teriam ficado irritados com o fato de o apartamento onde moravam ter sido arrombado enquanto eles viajavam para que fosse reparado um vazamento hidráulico no imóvel. Assim, a defesa acredita que, se Adriana fosse realmente a mandante do assassinato, ela não teria mencionado o nome do ex-porteiro durante o depoimento.
O que diz a polícia
A Corvida garante ter evidências suficientes para a condenação de Adriana Villela como mandante do triplo homicídio. Entre as provas reunidas, estão depoimentos, fragmentos de impressões digitais de Adriana colhidas na casa dos pais ; embora ela pouco frequentasse o local ; e escutas telefônicas. Peritos teriam encontrado digitais da filha do casal no closet do apartamento, onde eram guardadas as joias e o dinheiro roubados na noite do crime. Os investigadores defendem que muitos depoimentos na primeira fase das apurações ; quando o caso ainda estava a cargo da 1; DP (Asa Sul) ; foram combinados, visando imputar a autoria do crime a outras pessoas. Há ainda um laudo com o resultado do cruzamento de dados das chamadas de aparelhos celulares originadas pelos supostos criminosos com as informações das estações rádio-base (ERBs). Elas indicam a movimentação dos acusados no horário do crime, bem como as pessoas com as quais
eles tiveram contato.