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Estado de Minas

Brasília sustenta maior renda per capita e tem periferia mais pobre do país

A diferença de riquezas entre DF e Entorno cresceu de 607% para 802% entre 1999 e 2009, segundo levantamento do Instituto Brasiliense de Estudos da Economia Regional (Ibrase). É o maior abismo do país


postado em 18/12/2011 08:00

O estudante de direito Thiago Venuto tem 25 anos e mora no Lago Sul: faculdade particular e carro novo(foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press)
O estudante de direito Thiago Venuto tem 25 anos e mora no Lago Sul: faculdade particular e carro novo (foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press)

Os territórios se confundem, mas o fosso econômico entre o Distrito Federal e o Entorno é bem perceptível: Brasília sustenta a maior renda per capita e, ao mesmo tempo, tem a periferia mais pobre do país. A diferença entre as riquezas produzidas na capital federal e nas cidades vizinhas de Goiás cresceu, em 10 anos, mais do que em qualquer outra região metropolitana. O Produto Interno Bruto (PIB) por habitante no DF supera em oito vezes o observado nos arredores, configurando também a maior discrepância do Brasil.

Estudo inédito que será divulgado amanhã mostra como o crescimento populacional na periferia de Brasília, sem o correspondente avanço das atividades produtivas, cria uma situação atípica e fortalece o cenário de dois mundos cada vez mais distintos. Os números obtidos com exclusividade pelo Correio foram consolidados pelo presidente do Instituto Brasiliense de Estudos da Economia Regional (Ibrase), Júlio Miragaya, em parceria com a equipe técnica do Conselho Federal de Economia (Cofecon) e da Companhia de Planejamento do DF (Codeplan).

O total da população de 10 cidades goianas que circundam o DF saltou, entre 1999 e 2009, de 678 mil para 901 mil, expansão de 32%. Ao contrário do registrado em outras regiões, o desenvolvimento econômico não acompanhou o aumento da quantidade de habitantes no Entorno. Enquanto em Belo Horizonte e em Salvador a industrialização fez com que o PIB per capita da periferia chegasse a ultrapassar o do núcleo metropolitano, na capital federal a distância entre os extremos não parou de crescer: saiu de 607,2% para 802,1% no período analisado, disparado o maior percentual do país.

Daiana Carneiro e o filho de 5 anos vivem com o salário do marido em Águas Lindas: %u201CAqui, não tem emprego
Daiana Carneiro e o filho de 5 anos vivem com o salário do marido em Águas Lindas: %u201CAqui, não tem emprego" (foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press)

A pífia participação da periferia no conjunto de riquezas do DF empurra os trabalhadores para o núcleo e sufoca a economia local. “Aqui, não tem emprego, pode procurar”, diz Daiana Carneiro, 29 anos, mãe de um garoto de 5 anos. A maranhense chegou a Águas Lindas (GO) em 2003. A família mora em uma casa de dois quartos na periferia da cidade. Sobrevive com o salário do marido de Daiana, empregado em uma fábrica de Taguatinga: cerca de R$ 1,2 mil. A bicicleta é o meio de transporte usado por ela para fazer compras, quando sobra dinheiro no fim do mês.

Os dados da Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED) ainda não incluem a análise do mercado de trabalho do Entorno. Mas a realidade do DF deixa claro que, quanto mais longe do Plano Piloto, menores os salários e maior a taxa de desemprego. Para o sociólogo e analista do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) Daniel Biagioni, Brasília precisa tomar para si a responsabilidade de absorver a demanda por emprego protagonizada pela periferia. “Os trabalhadores do Entorno têm o direito de ir e vir. A economia não tem fronteiras”, comenta.

Distribuição
Sem incentivo de nenhum dos lados — nem do DF, nem de Goiás —, a economia do Entorno é a mais fragilizada do país. Faltam oportunidades e sobram problemas sociais e de infraestrutura. Na avaliação do diretor-secretário da Federação das Indústrias do DF (Fibra), Márcio Franca, a capital do país perde a chance de tirar proveito da densidade demográfica do Entorno. Ele defende não só a instalação de indústrias na região, como investimentos em qualificação da mão de obra. “Não adianta Brasília ser uma ilha, precisamos fazer parte do arquipélago”, diz.

O poder do funcionalismo na capital do país, acrescenta o economista e professor do Ibmec em Brasília José Ricardo da Costa e Silva, dificulta a distribuição da riqueza para a periferia. “O nosso setor produtivo não se espalha porque ele se basta no serviço público”, justifica. O chefe do Departamento de Economia da Upis, Bento Felix, conclui: “O inchaço do DF acabou expulsando a pobreza para o Entorno, criando dois mundos muito próximos e muito distintos”.

Morador do Lago Sul, o estudante de direito Thiago Venuto, 25 anos, sabe que tem uma vida privilegiada. Estudou em bons colégios, vai se formar em uma faculdade particular e em 2012 começará a se preparar para ser aprovado em concurso público. “Eu me considero uma pessoa de muita sorte”, afirma ele, de carro novo na garagem. Com o dinheiro que ganha com o trabalho na empresa da família, Thiago gasta em bons restaurantes e na compra de equipamentos eletrônicos.

Região metropolitana
Embora a Região Integrada de Desenvolvimento Econômico (Ride) do DF e Entorno não seja reconhecida como tal, o estudo levou em conta que Brasília faz parte de uma virtual área metropolitana com os seguintes municípios: Valparaíso, Novo Gama, Cidade Ocidental, Luziânia, Santo Antônio do Descoberto, Alexânia, Águas Lindas, Padre Bernardo, Planaltina de Goiás e Formosa.

Riqueza
Os números mais atualizados do Produto Interno Bruto (PIB) referente aos municípios brasileiros correspondem a 2009 e foram divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia de Estatística (IBGE) na última semana.

Funcionalismo público
Há uma semana, o Correio mostrou que metade do dinheiro pago em salários no DF vai parar na conta bancária de servidores públicos, que representam pouco mais de um quinto dos ocupados. A outra parte dos rendimentos é repartida entre todos os outros contracheques.

Três perguntas para
Júlio Miragaya, autor do estudo

O que explica o fosso tão grande entre o DF e o Entorno?
O estudo comprova a relação entre o PIB e a industrialização das regiões. Em Brasília, esse contraste é maior porque a periferia não possui indústrias, sendo, talvez com exceção de Manaus, a região menos industrializada do país. Somado a isso, o núcleo metropolitano do DF possui o maior PIB per capita do Brasil, reforçando os dois extremos.

Quais as consequências desse cenário para a economia do DF?
A principal delas é a pressão sobre o mercado de trabalho do DF. Observa-se uma total dependência da população da periferia das oportunidades criadas no centro. Além disso, como a renda nos arredores é muito mais baixa, a arrecadação das prefeituras não consegue impulsionar investimentos capazes de livrar o DF de uma outra pressão: a exercida sobre os sistemas de saúde, de educação e de segurança.

Como reverter esse quadro?
A melhor alternativa é industrializar a periferia, a exemplo do que aconteceu no restante do Brasil e em outras regiões metropolitanas do mundo. Com um parque industrial implantado, a capacidade de arrecadação dos municípios aumentaria, acarretando investimentos e amenizando a situação hoje observada. Essa deveria ser uma preocupação dos governos do DF e de Goiás, das prefeituras das cidades, mas também do governo federal.

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