Jornal Correio Braziliense

Cidades

Erros de engenharia transformam as faixas de pedestres do DF em armadilhas

Às vezes, a imprudência no trânsito vem do próprio Estado. Dirigir com cautela, sóbrio, respeitando as normas e os limites de velocidade é da conta dos motoristas. Ao pedestre, cabe dar o sinal de vida, atravessar quando os carros param no semáforo, guiar seus filhos e apresentá-los às regras e aos perigos das pistas.

É obrigação do poder público cuidar para que 1,2 milhão de carros em circulação não trombem entre si e com as pessoas ; o DF tem 2,6 milhões de habitantes. Mas há flagrantes de erros de engenharia ou de omissão que causam mortes. Um setor do Departamento de Trânsito (Detran) se dedica a desvendar as causas dos acidentes. Faz um trabalho investigativo, sem procurar culpados, mas em busca dos motivos. O objetivo: evitar a repetição de tragédias. À caça dessas respostas, os técnicos são capazes de apontar contradições que só poderiam ser evitadas por uma ação coordenada do Estado em seus vários órgãos que lidam com a urbanização.



O Correio flagrou exemplos nos quais a negligência do poder público pode ser uma cilada para motoristas e pedestres. Numa das regiões mais movimentadas do Plano Piloto, uma pista, a N3 ; que separa um centro empresarial de um shopping muito frequentado na hora do almoço ;, há uma faixa que começa na calçada e termina num barranco. Há 15 anos, a parada obrigatória para os pedestres tornou-se o principal símbolo da paz no trânsito de Brasília e uma referência internacional. Mas, às vezes, pode se apresentar como uma armadilha em dias de chuva.

Na Quadra 2 do Setor de Autarquias Sul, a pista que dá acesso à L2 contém uma característica tratada como erro crasso entre os estudiosos da segurança no trânsito. Trata-se de uma via de quatro pistas, cortada por uma faixa de pedestres (leia artigo). Numa via paralela ao Parque da Cidade, na altura do Pavilhão de Exposições, há uma faixa inacessível, pois as suas margens estão tomadas por um matagal com altura além da cintura das pessoas.



Este ano, ocorreram quatro atropelamentos fatais na LJ2, uma das principais pistas de Taguatinga, que lidera um triste placar. Foi a via urbana com mais registros de mortes em 2011. Ao estudarem o local, os técnicos do Detran chegaram a uma causa de fácil solução. Durante o dia, as árvores robustas fazem sombra. À noite, os galhos ofuscam a iluminação dos postes. As situações somam 24 horas de confusão aos motoristas.

A falta de segurança e de higiene obriga os pedestres a uma escolha insana na DF-002, o Eixão. Ser alvo de violência na passagem subterrânea ou correr risco de morte na travessia por cima das seis pistas da via, que aos domingos é do lazer. Mas de segunda a sábado, mata. Neste ano, houve quatro vítimas.



Tragédia humana

De modo recorrente, tenho observado que a mídia e o próprio governo tiram uns dias para ;apresentar; a violência urbana na travessia de pedestre nos Eixos Norte e Sul, isto quase sempre depois de um sinistro de grande impacto; e o pior, nada é feito. Nos últimos 10 anos, foram a óbito 76 pedestres e outras 10 vítimas de colisão frontal, sem falar nos outros feridos resultantes de 980 acidentes de trânsito nesses locais. Em 2010, os números de óbitos foram, respectivamente, sete pedestres, dois outros (condutor e/ou passageiro), e outros 99 feridos, em 75 ocorrências. Esses números indicam uma tragédia humana em pleno centro da capital do país.

Por que não se resolve o problema? Porque há um grupo de teóricos preocupados com a ;plasticidade; de Brasília, com o bucolismo ou com as proporções urbanísticas transcendentais. Não estão preocupados com o homem na sua expressão física, nem com os traumas das famílias dessas vítimas. É a inversão de valores.

[SAIBAMAIS]Em essência, o que acontece nos Eixões? Basicamente, atropelamentos e colisões frontais, que constituem os acidentes com maior grau de severidade. Como resolver estes problemas? Os manuais ingleses da Transportation Research Laboratory (TRL) ; uma das mais prestigiadas instituições do mundo no estudo de segurança viária ; recomendam duas medidas importantes: não é segura a travessia de pedestres em vias urbanas (ou rodoviárias) quando essas pistas possuem mais de duas faixas de tráfego; e quanto maior a velocidade regulamentar e mais faixas tiver a via, maior o risco de atropelamentos.

Agora, a realidade dos Eixos: vias com três faixas de tráfego de cada lado, separadas por uma área ;livre; central com mais ou menos 4 metros. A velocidade média ao longo via é de 85km/h. O fluxo de travessia de pedestre é intenso e permanente, e o ;canteiro; central é um refúgio (de pedestres).

Não seria difícil deduzir que os pedestres não deveriam nunca cruzar os Eixos ; na prática, tentativa de suicídio. Além do mais, não teria sentido encher os Eixos com semáforos e faixas de pedestres, pois, além de não resolver o problema, há o risco de ele não respeitar as eventuais faixas e a extensão dos congestionamentos seria magnífica. Portanto, o pedestre deveria cruzar os Eixos pelas passarelas subterrâneas. O estado destas é outra conversa.

Em relação às colisões (frontais ou laterais), são provocadas por excesso de velocidade, manobra imprudente utilizando a faixa central, álcool, celular ao volante, estresse ao volante, falha mecânica, aquaplanagem, mal súbito. Em alguns casos, a interferência de pedestres são fatores determinantes deste tipo de acidente.

Então, qual seria a solução? Deve-se desestimular a travessia por cima e evitar que um veículo invada a pista contrária. Para atender essas duas condições, teríamos que instalar um tipo de obstáculo que cumprisse a função de um guard-rail e, ao mesmo tempo, fosse intransponível pelo pedestre com, pelo menos, 1,5 metros de altura e penalização aos infratores que tentassem transpor o obstáculo ou depredá-lo. O desenho final desta proposta ficaria a livre critério dos urbanistas. Apenas como lembrança, Curitiba está repleta de exemplos com esse tipo de solução.

Celso Gomes, Engenheiro especialista em Operação de Sistemas de Transporte e Segurança Viária do Detran