Cidades

Rapazes entram no mundo das drogas mesmo sabendo que morrerão cedo

postado em 05/01/2012 16:00
Os jovens entrevistados pelo Correio usam roupas de marca e têm bicicletas caras, financiadas pelo dinheiro do tráfico de entorpecentes
Jovens trajados de bermuda, boné e camisa larga seguram cigarros de maconha entre os dedos. Eles estão na esquina de uma quadra de Ceilândia Sul. A bicicleta de Fernando* custa R$ 800 e o casaco de André*, R$ 250. Ambos comprados com dinheiro da correria (assaltos) e do tráfico de drogas. Eles oferecem crack à luz do dia para quem quiser curtir uma ;lombra; (veja gírias abaixo) e viver como zumbi pelas ruas. Ficam ali para sustentar o vício e comprar roupas e tênis de marca. Para isso, matam ou morrem, se for preciso. Acreditam ser os donos do lugar. ;Aqui, é a gente quem manda;, garante André.

Para a segunda reportagem da série ;Jovens no crime;, o Correio entrevistou, durante três dias, garotos da periferia de Ceilândia. Todos têm uma realidade em comum: são carentes de estrutura familiar e de informação, a maioria não terminou o ensino médio, não trabalham e são dependentes químicos. Neste submundo marcado pela opressão, intolerância e falta de perspectivas, os jovens compartilham as frustrações e se entregam à criminalidade. Começam aí as guerras, os assaltos, o vício e o desespero da sociedade. Os adolescentes não se importam quando morre um dedo-duro ou um ;herói;, como eles chamam as pessoas que reagem a assalto. ;Se morreu é porque fez alguma coisa. Santo ele não é. É ;paia; matar, mas antes a mãe dele chorar do que a minha;, disse friamente Eduardo*, 16 anos.

O menino de baixa estatura e corpo franzino mora com a mãe. Ele não conhece o pai. Eduardo comete, em média, três furtos por semana e costumava cheirar cocaína aos sábados. ;Mas, nos últimos dias, tenho cheirado sempre;, admitiu. Ele ainda é o responsável por assumir todos os flagrantes dos colegas pegos pela polícia. ;Qualquer coisa eu assumo. Uma mão ajuda a outra e, no crime, é assim. A gente tem que sustentar a culpa até o fim porque, para quem é caguete, não tem perdão. Para mim, não dá nada e, para os ;de maior;, já é pior. O máximo que vão fazer comigo é me levar para a delegacia e chamar minha mãe para me soltar;, disse. ;;De menor; tem que roubar mesmo porque não dá nada. O máximo que ele fica preso é 45 dias;, justificou Fernando, durante a conversa com a reportagem.

Eduardo começou a fumar maconha aos 13 anos. Conheceu a droga por meio dos amigos da rua. Assumiu muitos crimes, mas nenhuma vez foi parar no Centro de Atendimento Juvenil Especializado (Caje). ;Nessa vida que eu levo, sei que um dia vou rodar. Para entrar é a coisa mais fácil, mas, para sair, é difícil. Se eu tivesse uma ocupação, era outra história;, acredita. Ao contrário de Eduardo, Fernando não teve a mesma sorte. Por diversas vezes, dividiu cela com seis adolescentes. ;É um cubículo, mas lá tem oficina, escola e até igreja. Eu saí de lá praticamente um santo, mas é só cair pra rua de novo que a coisa muda;, contou o rapaz, que, além de viver no crime, trabalha como gesseiro. ;O dinheiro que eu ganho é muito pouco e, por isso, faço as ;correrias;;, justificou o rapaz, de 18 anos.

Entre os artigos do Código Penal Brasileiro infringidos por Fernando quando adolescente está o 155 (furto), o 157 (roubo), o 180 (receptação) e o 150 (violação de domicílio). ;Minha mãe trabalha e só chega à noite. Quando ela vê, já aconteceu;, revelou o rapaz. Para não atrair a atenção da polícia para a região, o grupo não deixa os comerciantes serem assaltados. ;A gente desce lá pra Taguatinga;, contou. Eles também não têm curiosidade de experimentar o crack. ;Pra quê? Para ficar parecendo um bicho por aí? Quem usa crack tem mente fraca;, disse Fernando.

O relatório Situação da Adolescência Brasileira, divulgado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), analisou as condições de meninos e meninas entre 12 e 17 anos e apontou a desigualdade social à qual estão expostos. No Distrito Federal, há 261.491 nessa faixa etária (10,2% da população), dos quais apenas 0,9% trabalhava e 4,1% não estudavam e não trabalhavam em 2009. Entre jovens de 16 e 17 anos, 62,4% concluíram o ensino fundamental, média acima de todo o Brasil, de 51,1%. Os crimes violentos foram responsáveis, em 2009, por uma média de 36,6 mortes de adolescentes entre 12 e 17 anos a cada 100 mil habitantes.

Faculdade
André, 19 anos, é quem tem a melhor condição financeira do grupo. Ele é filho de funcionários públicos e terminou o ensino médio. O jovem conta ter vivido a primeira experiência no mundo do crime aos 12. Na escola, conheceu a maconha e, depois, começou a usar lança-perfume e cocaína. ;Tô com o nariz todo entupido. Passei a noite toda cheirando;, revelou, sentado na calçada do quadradão onde ele se encontra com os colegas todos os dias. Em casa, ele fala que ninguém o critica. ;Eu fumo maconha com a minha mãe. Meus pais não gostam dessa minha vida, mas não adianta eles falarem nada porque sou muito ignorante. No momento em que eu entrei no crime, passei a ser responsável por mim mesmo;, argumentou.

[SAIBAMAIS]André não sabe explicar o motivo de ter entrado para a criminalidade, mas pensa em fazer faculdade. ;Eu queria ter nível superior, mas não daria certo topar com os playboys. A gente que é da periferia sofre muita opressão deles;, contou. Hoje, o jovem vive da venda de drogas. Ele não fica com as pedras no bolso da bermuda para não correr o risco de ser preso em flagrante. André só busca o crack no momento da solicitação do cliente e está sempre olhando para os lados para saber se está sendo vigiado. Ele repete o cuidado com o armamento. O jovem traficante contou ao Correio que o revólver calibre .38 fica escondido em locais estratégicos. ;A gente só usa em assaltos longe daqui ou quando a gente vê os rivais subindo para a nossa quadra;, contou.

Nos fins de semana, muitos passam a madrugada usando drogas em um estabelecimento abandonado. Do lado de fora, tudo parece normal. As grades estão trancadas com cadeado. ;A gente tem a chave;, revelou André. Ele ainda é o responsável em dirigir um Opala com teto solar para fazer acertos de contas, ou seja, as chamadas ;matanças;. Quando um amigo do grupo é assassinado, não passa muito tempo para a morte ser vingada. As armas usadas por eles vão desde pistola até metralhadora, espingarda calibre .12, revólveres calibres .38 e .12, além de outras feitas artesanalmente. Em crime encomendado, eles vestem um casaco com capuz e apenas dois furos na altura dos olhos. Nessa roupa estão o símbolo do demônio do lado do braço e, atrás, a expressão ;game over; ; fim de jogo.

*Nomes fictícios

Leia amanhã
O sistema deficiente de recuperação de jovens infratores


Gírias

; Boca do dragão
vai para o inferno

; Bocada
local onde ficam os donos da boca

; Bagulho
coisa, droga

; Canas
policiais

; Caguete
dedo-duro

; Capas
inimigos, policiais

; Correria
furto, roubos

; Deixa baixo
deixa quieto

; Enrolar um
preparar o baseado

; Esparrar
divulgar, mostrar

; Herói
Pessoa que se faz de polícia. Exemplo: aquelas que reagem a assalto

; Lombra
alucinação, na maioria das vezes causada pelo uso de entorpecentes

; Máquina
pistola

; Paia
chato

; Pano
roupa de grife

; Papelote
cocaína

; Pé de pano
Sujeito que age de forma sorrateira, sem alarde, sem fazer barulho

; Promoção
objeto de valor dentro de um carro

; Quadrado
arma, revólver

; Quebrada
local onde se concentra gente do mesmo grupo

; Trezoitão
revolver calibre .38


Palavra de especialista
Faltam oportunidades

;Nesses 21 anos de Estatuto da Criança e do Adolescente, tivemos avanços nos direitos da infância, de 0 a 12 anos, mas existe dívida grande com o direito dos adolescentes. Eles têm dificuldade de inclusão no mercado de trabalho e boa parte das oportunidades é para jovens que, de alguma forma, têm um respaldo familiar. Os programas na área social e de inclusão não atingem os jovens que mais necessitam de proteção. É preciso que haja programas de bolsa formação, com subsídio financeiro e acompanhamento de equipe técnica multidisciplinar para que o jovem não desista da oportunidade oferecida. O sistema de ensino também tem de ser mais atrativo. A escola não faz muita questão de que os jovens em situação de risco continuem estudando. À medida que o adolescente procura uma vaga no mercado de trabalho, um curso técnico, ele acaba sendo convidado a se inserir na boca de fumo ou em grupos criminosos, aderindo a uma proposta ilusória de poder e ascensão social oferecida pelo tráfico de drogas. Se o poder público não inclui, o crime organizado o faz.;

Ariel de Castro Alves, diretor presidente da Fundação Criança e vice-presidente da Comissão Especial da Criança e do Adolescente da OAB

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