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Estado de Minas

Negros compõem maioria dos desempregados no DF e recebem salários menores

Os negros somam dois terços dos trabalhadores da cidade e representam a maioria dos desempregados. Entre os que conseguiram uma oportunidade, o salário é, em média, 35% menor do que o pago aos não negros


postado em 10/01/2012 07:25 / atualizado em 10/01/2012 14:20

Iano Andrade/CB/D.A Press(foto: Djalma da Silva, ajudante de pedreiro e desempregado. Ele fez cursos de mecânico e eletrônica, mas não consegue uma oportunidade:
Iano Andrade/CB/D.A Press (foto: Djalma da Silva, ajudante de pedreiro e desempregado. Ele fez cursos de mecânico e eletrônica, mas não consegue uma oportunidade: "É ruim demais ficar sem emprego")

Djalma Soares da Silva Filho perdeu a conta de quantas vezes ouviu expressões desabonadoras em relação aos negros enquanto trabalhava como ajudante de pedreiro em uma casa no Lago Norte. Pensou em pedir demissão e procurar um advogado, mas acabou não levando a ideia adiante. “Precisava do trabalho e do dinheiro”, justifica o jovem de 17 anos, morador do Recantos das Emas. Ele abandonou os estudos na 6ª série do ensino fundamental e passou a viver à procura de bicos. Para facilitar a busca, fez cursos de mecânica e eletrônica.

Desde o último sábado, o Correio publica uma série de reportagens sobre a face do desemprego no Distrito Federal. Os números do mercado de trabalho ao longo dos últimos 20 anos revelam que as oportunidades estão historicamente mais distantes de negros, como Djalma. Apesar de o fosso ter encurtado no período analisado pela Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED), a taxa de desocupados entre a população negra se mantém superior à dos não negros e acima da média regional. Além disso, os salários continuam apresentando uma diferença considerável: negros ganham, em média, 35% menos.

Os negros compõem dois terços dos trabalhadores da capital do país. As estatísticas indicam uma tendência de maior alocação desse grupo no mercado. Porém, fatores como a escolaridade e a qualificação dos candidatos e o preconceito racial por parte dos empregadores ainda deixam os negros em situação de desvantagem. De acordo com projeções feitas pelo economista Júlio Miragaya, o percentual de desemprego diferenciado pela cor da pele só se igualaria em 2035. Os rendimentos, por sua vez, levariam 195 anos para atingirem patamares semelhantes.

A taxa de desemprego dos negros tem caído mais rapidamente do que a de não negros no DF (veja quadro). Entre 1992 e 2001, diminuiu de 18% para 13,5%. Os postos de trabalho ocupados por eles, no entanto, permanecem associados à baixa qualificação, sobretudo no setor da construção civil. “Os negros apenas estão saindo de uma situação de desemprego para uma de emprego precário e mal remunerado”, observa Miragaya, diretor de Gestão de Informações da Companhia de Planejamento do DF (Codeplan) e presidente do Instituto Brasiliense de Estudos da Economia Regional (Ibrase).

Negro e com tatuagem no braço, Djalma diz ter certeza de que sua aparência dificulta a conquista de uma vaga. “Você sabe como é a maioria desse povo com mais dinheiro. Tenho é dó”, diz, ao consertar um estilingue para os primos da namorada, grávida de seis meses, brincarem. Ele se esforça para ocupar o tempo. Às vezes, bate perna à toa, sem rumo, só para não ficar parado em casa. O sonho do jovem é não depender do dinheiro de ninguém para sustentar a futura família. “É ruim demais ficar sem emprego. Tenho que comprar as roupinhas da minha filha e não aparece nada”, acrescenta.

Intervenção
Boa parte dos negros ainda não tem acesso à qualificação. Mas investir na formação dos preteridos pelo mercado não elimina a desigualdade, na opinião do coordenador do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros da Universidade de Brasília (UnB), Nelson Inocêncio. Para ele, mesmo com nível de escolaridade avançado e cursos no currículo, os negros encontram dificuldade em ocupar determinadas funções. “Nossa sociedade ainda não se acostumou com pessoas negras trabalhando. Isso é resultado de uma herança colonial que persiste. A presença negra é uma presença negativa”, afirma.

Estudioso e ativista da questão racial, Inocêncio defende a intervenção do Estado no acesso dos negros aos postos de trabalho. Ele é favorável à reserva de vagas em concursos públicos para candidatos de pele escura, como ocorre em alguns casos. Na iniciativa privada, sugere políticas de incentivo a empresas que contratam negros. “Não adianta ficar esperando que os empregadores se sensibilizem com esses números. Isso não vai acontecer. Se o Estado não intervir no processo, essas diferenças não vão desaparecer”, argumenta.

O cenário traçado pela PED não surpreende a coordenadora do Movimento Negro Unificado do DF (MNU-DF), Jacira da Silva, mas a deixa preocupada. “Os dados comprovam que não estamos inventando nada: o racismo existe”, afirma. A população, acrescenta ela, não está preparada para ações do governo envolvendo a questão racial porque a discriminação é sutil. Quando exige do candidato um currículo com foto, por exemplo, Jacira acredita que o empregador adota um mecanismo de exclusão. “Para quê essa foto? Por que ela vai influenciar na escolha?”, questiona.


Censo

No fim do ano passado ano passado, o Correio mostrou, com base nos dados do Censo 2010, que 55,9% dos brasilienses se declararam negros — pretos ou pardos — e 42% disseram aos pesquisadores que se viam como brancos. A proporção de negros no DF é maior em cidades de renda mais baixa.


Radiografia


Confira os números da Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED) relacionados às diferenças entre negros e não negros no mercado de trabalho do DF:

Taxa de desemprego
Ano - Não negros - Negros

1992 - 13,4% - 18%
2001 - 17,4% - 23%
2006 - 17% - 20,3%
2011 - 11,5% - 13,5%

Rendimento médio mensal
Ano - Não negros - Negros

1992 - R$ 2.276 - R$ 1.404
2001 - R$ 2.502 - R$ 1.670
2006 - R$ 2.235 - R$ 1.474
2011 - R$ 2.697 - R$ 1.737

Fonte: Codeplan/Dieese

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