Cidades

Donos de oficinas do SOF Norte temem que proprietários cedam à construtoras

postado em 18/01/2012 08:00
Desvirtuamento: criado em 1994 para abrigar as oficinas da Avenida W3 Sul, o SOF Norte abriga hotéis, motéis e quitinetes para aluguel e venda
À medida que as obras do Setor Noroeste avançam, os valores dos terrenos do outro lado da rua, em um espaço até pouco tempo desacreditado, disparam e assustam os proprietários dos lotes. Empreiteiros começaram a fazer ofertas milionárias no Setor de Oficinas Norte (SOF Norte), de olho em uma provável valorização da área por conta da proximidade do futuro bairro. Donos de oficinas temem assistir ao mesmo que ocorreu do lado sul, onde as lojas praticamente desapareceram, dando lugar a empreendimentos imobiliários.

O governo criou oficialmente o SOF Norte em 1994, para abrigar as oficinas que ocupavam às margens da W3 Norte. De lá para cá, sem o rigor da fiscalização, o desrespeito às regras de uso do espaço desvirtuou o projeto original. Entre as lojas de mecânica, há hotéis, motéis e apartamentos. Pelas normas de gabarito em vigor, é permitida somente uma unidade residencial por lote, com área máxima de 68m;. No entanto, prédios de dois andares chegam a ter até 18 quitinetes, construídas para aluguel e venda. O andar superior de várias oficinas se transformou em mais de uma moradia.

Nos registros da Secretaria de Desenvolvimento Econômico (SDE), o SOF Norte possui 190 lotes vinculados ao programa de benefícios Pró-DF. O número real, porém, pode chegar a 300, pelas contas da Associação dos Empresários e Associados do Setor de Oficinas Norte (Assofnorte), criada há um ano. Mais da metade dos empresários, segundo a entidade, estão em situação em irregular, sem a posse da escritura do terreno. Apesar de a SDE informar que ;não há sérios problemas na área;, os donos de oficinas reclamam da demora no andamento dos processos.

Boa parte dos donos de oficinas acumula dívidas ao longos dos últimos anos e, portanto, não consegue acesso a todos os documentos exigidos pelo governo para concluir o trâmite da concessão dos terrenos. Empresários ouvidos pelo Correio disseram que, com as obras do Noroeste em ritmo mais acelerado , aumentou a pressão por parte da Companhia Imobiliária de Brasília (Terracap) pela regularização. Segundo os donos de oficinas, o órgão ameaça tomar os lotes, caso a situação não seja solucionada rapidamente.

Para o presidente da Assofnorte, Carlos Bianchini Pontes, a tendência é que a pressão sobre os donos de oficinas fique ainda maior daqui para a frente. ;Estão fazendo terrorismo porque o Noroeste está vindo aí, mas enquanto tivermos forças, vamos lutar para que não nos tirem daqui;, comenta. A Terracap informou que não tem exercido qualquer atividade no setor e que não há discussão alguma em andamento para alterar as regras de uso dos terrenos do SOF Norte. Os empresários temem que, em breve, sejam autorizadas construções residenciais na região.

Representante de uma construtora visitou recentemente uma das primeiras mecânicas a abrir as portas no setor, e responsável pela criação de 50 empregos diretos. Após tirar fotos do espaço de 940m;, surgiu a proposta para comprar do terreno por R$ 3 milhões. ;Viramos uma área nobre. A jogada é tirar a gente daqui para mudar a destinação. Mas eu não vendo, isso aqui é minha vida;, afirma Dimas Rodrigues Silva, 59 anos, um dos proprietários da oficina. ;É uma pena ver que o SOF Norte está perdendo sua finalidade, apostamos nisso aqui;, completa o sócio Francisco de Souza Santoro, 62 anos.

Quando José Lindolfo, 57 anos, inaugurou sua oficina, não havia asfalto no SOF Norte. A iluminação da rua foi instalada após ele e os empresários vizinhos juntarem dinheiro para contratar o serviço. ;Investimos muito neste espaço. Ninguém vai me tirar daqui, por proposta alguma. Para que eu quero dinheiro? Dinheiro acaba, quero é trabalhar;, diz Lindolfo. Os empresários tentam marcar um encontro com o secretário de Desenvolvimento Econômico, Abdon Henrique de Araújo, para propor uma audiência pública e ameaçam realizar protestos na Estrada Parque Indústria e Abastecimento (Epia).

Grandes redes
Uma das gigantes do segmento de materiais de construção inaugurou em dezembro do ano passado, no SOF Norte, a terceira loja no Distrito Federal. A empresa diz que escolheu o lugar pelo ;grande potencial consumidor que a região oferece;. Uma concessionária também abriu as portas no último mês, bem perto do Noroeste.

Memória
Mudança supervalorizou os lotes
O Setor de Oficinas Sul (SOF Sul) também surgiu há 20 anos, para abrigar oficinas que ocupavam a W3 e eram alvo de constante reclamação dos moradores das quadras 300 e 700. Em dezembro de 2006, em votação polêmica, o Plano Diretor do Guará (PDL) aprovado na Câmara Legislativa alterou a destinação daquela região. Os deputados distritais transformaram o setor em área mista ; comercial e residencial ;, o que abriu espaço para a investida das construtoras e supervalorizou os terrenos. A área ganhou condomínios de luxo, erguidos perto de shoppings, supermercados, estação de metrô e da Estrada Parque Indústria e Abastecimento (Epia). Em pouco tempo, o pacato SOF Sul virou mina de ouro para investidores. Empresas da construção civil ; e mesmo pessoas físicas ; se apressaram para arrematar lugares ainda ocupados por oficinas. Em outubro de 2010, o Correio mostrou que mais da metade dos cerca de 300 terrenos já tinham sido vendidos ou estavam em fase de negociação. (DA)

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