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Estado de Minas

Faxineiro que devolveu maleta de dólares no aeroporto tem salário reduzido


postado em 06/06/2012 06:05 / atualizado em 06/06/2012 17:18

Ontem, Francisco retornou ao cargo de servente: burocracia (foto: Monique Renne/CB/D.A Press)
Ontem, Francisco retornou ao cargo de servente: burocracia (foto: Monique Renne/CB/D.A Press)

Enquanto observava aviões levantarem voo do Aeroporto Internacional de Brasília, o funcionário da limpeza Francisco Bazílio Cavalcante tinha a sensação de que todos podiam alcançar o céu, menos ele. Gente chegava e partia e Francisco permanecia no mesmo lugar. Esperava pelo dia no qual entraria pela primeira vez em uma daquelas aeronaves, rumo à sua cidade natal, Sobral, no Ceará, ou a qualquer outro destino que lhe permitisse conhecer o mundo, que girava tão rápido sem lhe deixar sair do mesmo ponto.

Em uma tarde de trabalho de março de 2004, a vida de Francisco mudou. Ele, que mora no Céu Azul (GO) e ganhava R$ 370 mensais, encontrou uma maleta com mais de US$ 10 mil, equivalentes, à época, a R$ 30 mil, esquecida em um banheiro. Francisco não hesitou. Usou o sistema de som do saguão para anunciar o achado. Momentos depois, o dono do dinheiro, um turista suíço, apareceu.

Antes quase invisível aos olhos dos passageiros e de quem mais circulasse por ali — raramente ganhava um bom dia, a não ser dos colegas de trabalho — o servente virou celebridade. Exemplo a ser seguido. Foi apresentado ao país como alguém que andava preocupado por não ter R$ 28 para quitar a conta de luz, mas, ainda assim, retornou a mala cheia de dólares ao proprietário. “Não quero nada que não seja meu”, justificou.

O homem de rosto simpático e sotaque carregado, hoje tem 64 anos. Há oito, estampou a capa do Correio, o primeiro veículo a publicar a sua história. Apareceu na tevê, deu entrevistas a rádios e realizou um de seus maiores desejos: conhecer pessoalmente o então presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, nordestino como ele. Lula o recebeu no Palácio do Planalto. Educado, Francisco levou uma caneta para presenteá-lo.

Ouviu de Lula a promessa de promoção no emprego. Tornou-se garoto-propaganda do governo federal, popularizando o slogan Sou brasileiro e não desisto nunca, repetido por Francisco em vários canais de televisão, inclusive em horário nobre. Francisco ainda tem a fita VHS com o comercial gravado guardada em casa. Ele não recebeu cachê em troca das aparições públicas. “Só quis mostrar como valia a pena ser honesto no ambiente de trabalho. Só ganhei a chance de dizer isso para as pessoas”, disse Francisco.

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