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Estado de Minas

Lucio Costa: um agnóstico no Vale do Amanhecer

A vinda a Brasília em julho de 1988 tinha por objetivo inaugurar o monumento em homenagem ao título de Patrimônio da Humanidade. Mas o arquiteto escapuliu e foi conhecer o território sagrado de Tia Neiva


postado em 04/01/2015 07:46 / atualizado em 05/01/2015 10:12

A última visita de Lucio Costa a Brasília, na década de 1980, teve uma singularidade inacreditável. O motivo oficial da vinda à cidade, no fim de junho de 1988, era a inauguração do monumento em homenagem ao título de Patrimônio da Humanidade. O arquiteto veio acompanhado da filha Helena e do amigo e também arquiteto Ítalo Campofiorito. Vieram de jatinho oficial, concedido pelo então governador, José Aparecido de Oliveira.

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Na vinda, Helena desafiou o pai a visitar o Vale do Amanhecer, segundo se recorda Campofiorito. A filha mais nova de Lucio Costa não se lembra de ter feito o convite ao pai nem de ter ido a Planaltina. Lembra-se, sim, de vir conversando com Campofiorito sobre filosofia, tema que sempre a encantou. E de sempre provocar o pai pelo que ela supunha ser uma contradição: “O que me espantava é que ele tinha uma grande sensibilidade para o sentimento divino. Visitava as igrejas barrocas e percebia que tudo ali é uma homenagem a Deus, que tudo tinha sido feito com esse espírito. E, ao mesmo tempo, negava qualquer metafísica, negava ferozmente”. Mas não acredita que tenha convidado o pai a ir ao Vale. “Essas seitas não me atraem… mas, como já se passaram quase 27 anos, é difícil se lembrar…”.

Mestre da doutrina de Tia Neiva desde 1980, Reginaldo Fonseca da Silva diz que Lucio Costa esteve no Vale. “Não ficou nem uma hora e foi recebido como todo mundo é recebido aqui.” Não fizeram fotos, porque na época não havia a facilidade de hoje.

Em junho de 1988, ele (D) participou de inauguração de monumento(foto: Arquivo CB/CB/D.A Press)
Em junho de 1988, ele (D) participou de inauguração de monumento (foto: Arquivo CB/CB/D.A Press)

“Foi muito engraçado”, conta Campofiorito com a fotografia da memória. A intenção dos seguidores da ex-caminhoneira era fazer um triângulo no qual cada uma das três pontas representaria Lucio Costa, Oscar Niemeyer e Israel Pinheiro. O contido Lucio Costa, já com 86 anos, cumpriu todo o ritual de celebração. Ajoelhou-se, abaixou a cabeça, beijou a água, segundo relato de Campofiorito. “Fez tudo o que mandaram ele fazer”, conta, divertindo-se, o arquiteto. O inventor de Brasília continuou agnóstico.

O arquiteto, ao lado do então governador do DF, José Aparecido (foto: Arquivo CB/CB/D.A Press)
O arquiteto, ao lado do então governador do DF, José Aparecido (foto: Arquivo CB/CB/D.A Press)

A década de 1980 foi a do reencontro do inventor com a invenção. Foram cinco vindas em 10 anos. Em 1984, veio a convite do então governador, José Ornellas. Um ano depois, para uma reunião do Cauma (Conselho de Arquitetura, Urbanismo e Defesa do Meio Ambiente), que ressurgia, renovado, pelas mãos de José Aparecido: “O Conselho que tenho a honra de instalar nesta bela manhã de setembro faz parte do que já denominei a renascença de Brasília. Estamos, também com este ato, voltando aos princípios fundamentais que presidiram a edificação e devem reger o desenvolvimento do Distrito Federal”, (Brasília, uma sinfonia, José Aparecido de Oliveira, Dom Quixote Editora, 1986).

Em 1985, Lucio Costa debateu com Burle Marx (E) os 25 anos da capital (foto: Lúcio Bernardo/D.A Press - 23/9/1985)
Em 1985, Lucio Costa debateu com Burle Marx (E) os 25 anos da capital (foto: Lúcio Bernardo/D.A Press - 23/9/1985)

Na composição anterior do Cauma, “os governantes forjaram uma dócil maioria, capaz de sacramentar todas as decisões impostas de cima para baixo. A Oscar Niemeyer e Lucio Costa, sem disposição para coonestar a farsa, não restou outra saída senão a saída mesma, embora membros natos do órgão”, discursou Aparecido. O novo Conselho passou a ter três câmaras: a de Arquitetura, com a participação de Niemeyer; a de Urbanismo, integrada por Lucio Costa; e a de Defesa do Meio Ambiente, com Burle Marx.

Naquela histórica reunião, Lucio Costa apresentou a proposta das quadras econômicas “que deveriam ser implantadas ao longo das ligações viárias entre o Plano Piloto e as cidades-satélites”, lembra-se Maria Elisa Costa. Desse projeto, a única quadra implantada, e apenas parcialmente, foi a QELC (Quadra Econômica Lucio Costa), à margem da Epia, no Guará I.

O então presidente do Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal, Hélio Doyle, integrante do Cauma, era um dos presentes ao encontro. “Lucio Costa fez a defesa do projeto, pois havia críticas, e chorou ao pedir que déssemos a ele a alegria de ver pessoas mais pobres morando perto do Plano Piloto”, lembra o hoje chefe da Casa Civil do recém-empossado governo Rollemberg. A QELC fica a 15km da área tombada, na entrada do Guará I.

Dezessete dias depois da reunião do Cauma, Lucio Costa voltou a Brasília. Com José Aparecido e o então secretário de Obras, arquiteto Carlos Magalhães, foi à beira do lago. Discutia-se a implantação das ciclovias (quase 30 anos atrás). Para homenagear, mais uma vez, o inventor da cidade, o governador levou o desenho original do Plano Piloto para a margem do Paranoá, “colocou-o num cavalete e, sem dizer nada ao dr. Lucio, foi com ele até o local onde se pretendia implantar uma ciclovia”, conta Maria Elisa.

O arquiteto, mais uma vez, se emocionou. Fazia 28 anos que ele não via aquele croqui. Olhou para a cidade ao largo, para o desenho à frente e ouviu do governador: “Onde você está agora?”. Fez-se silêncio até que Lucio Costa respondeu: “Em Brasília”. E José Aparecido pediu: “Então, assina de novo”. Desse modo, o projeto original do Plano Piloto passou a ter duas datas: 10/III/1957 e 27/IX/85, com o mês assinalado com algarismo romano, como o arquiteto costumava datar seus documentos.

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