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Estado de Minas

Paracatu se divide quanto aos riscos da extração de ouro


postado em 15/03/2015 12:35 / atualizado em 15/03/2015 14:27

(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)


Paracatu (MG) — Ao mesmo tempo em que pairam dúvidas sobre os riscos da extração de ouro e a relação com os casos de câncer em Paracatu (MG), como mostrou ontem o Correio, a população da cidade se divide em grupos. Além dos que acusam a mineradora Kinross Gold Corporation de mentir no que diz respeito à nocividade da atividade, há aqueles que defendem o empreendimento e os métodos aplicados para a exploração do território. Na interseção disso, há os assustados com as denúncias compartilhadas em redes sociais, blogs e na mídia nacional nos últimos meses. E o alerta sobre as consequências para a economia local, que também se destaca na agropecuária e ostenta riquezas maiores do que o próprio minério, como as belezas naturais e a cultura local.


Há registros sobre o assunto desde 2007. Foi nessa época que o procurador de Justiça aposentado Serrano Neves criou o blog Alerta Paracatu, que traz, entre outras coisas, textos periódicos sobre arsênio e os riscos à região. A reportagem entrou em contato com Neves, que mora no estado de São Paulo. Ele conta que passou parte da infância no município mineiro, quando o pai era promotor de Justiça da Comarca local. “Sou da época em que o Córrego Rico (que corta o município) era fonte de água potável e renda alternativa para os desempregados pelo garimpo de subsistência. Hoje, a situação é outra e o perigo é simples de ser admitido: o arsênio é um veneno e não pode ser considerado seguro, mesmo que a dose diária seja pequena e esteja dentro dos limites da ‘lei’”, avalia.


A previsão da mineradora é de que as extrações se estendam até, pelo menos, 2030. O professor universitário Marcos Spagnuolo Souza, morador de Paracatu, teme pela cidade e pelos habitantes. “Paracatu, desde o início, está envolvida em questões relacionadas ao ouro. Mas isso começou com um processo artesanal e só depois vieram as mineradoras e todos os problemas decorrentes da exploração, como a poeira nociva, que carrega o arsênio; a lagoa de rejeito, com materiais pesados; as explosões; e o barulho”, detalha Spagnuolo, que tem mestrado em história, administração e filosofia e doutorado em filosofia. A Kinross Gold Corporation rebate todas as acusações.


Na sexta-feira e ontem, o Correio tentou contato com a prefeitura municipal, mas não obteve resposta via telefone ou e-mail. Na última semana, o órgão emitiu nota de repúdio sobre o assunto. “Estão à disposição de todos os pareceres do Centro de Tecnologia Mineral (Cetem), do Ministério da Ciência e Tecnologia e Inovação, que nortearam a audiência pública realizada para discutir a questão. Pareceres que apontam que os níveis de arsênio no ar e na água em Paracatu não são suficientes para levar perigo real à população.”


Antes mesmo da audiência pública, o assunto era discutido na Câmara de Vereadores da cidade, onde alguns projetos de lei foram apresentados demonstrando preocupação a respeito do tema, principalmente no que tange às detonações, mas os projetos acabaram vetados.

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