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Estado de Minas

Medo de matemática tem origem cultural e traz consequências negativas

O 6 de maio é considerado o dia internacional da matemática. Entenda a rejeição à disciplina e como evitar que ela se torne um problema


postado em 06/05/2015 06:10 / atualizado em 06/05/2015 10:55


Coração acelerado, dor de cabeça, respiração ofegante e vontade de chorar. Essas são reações descritas por algumas pessoas diante de questões que envolvem matemática. Esse comportamento pode ser chamado de Matofobia (fobia em matemática). De acordo com a psicopedagoga Stella Rodrigues, o trauma com a disciplina envolve questões psicológicas, fisiológicas e pode ser passado de pai para filho. Mas como diferenciar fobia de inaptidão? Onde essa barreira se inicia? O Correio conversou com especialistas para tentar ver mais de perto as sete cabeças desse “bicho” chamado matemática e buscar as possíveis soluções.

A origem
O último resultado do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), promovido pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), avaliou a capacidade de 85 mil estudantes de 15 anos, do mundo inteiro, para resolver problemas de matemática aplicados ao cotidiano. O Brasil ficou quase na última posição, ocupando o 38° lugar em um total de 44 países pesquisados. De acordo com o matemático Leonardo dos Reis, o mau resultado pode estar relacionado à ansiedade matemática adquirida culturalmente no início da vida escolar.

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“Crescemos com a ideia de que a disciplina é difícil e a repassamos, criando assim, um círculo vicioso. A cultura em torno da complexidade da matemática é vista de forma natural”, conta.

Dono de um cursinho especializado em reciclagem matemática, o professor e matemático Rogério Lacerda acredita que há três pontos chave por onde o problema começa. O primeiro seria no terceiro ano do ensino fundamental quando a criança tem contato com a tabuada. “Filho, decora a tabuada que quando eu chegar em casa eu vou te tomar”. O professor cita a famosa frase como exemplo e afirma que ela causa pânico, porque o aluno tem que memorizar um monte de números sem entender a razão daquilo. O segundo momento é quando surge a fração. “Um número em cima do outro causa estranheza e abala toda uma estrutura que já estava sendo formada até ali”, explica. E o terceiro é quando finalmente surge o “x”. De acordo com Rogério, começar a calcular as variáveis de uma equação costuma ser negativamente marcante.

Sócio de Lacerda e também professor, Elson Rodrigues acredita que o problema do ensino de matemática no Brasil começa na base. “Quem introduz a disciplina são pedagogos e não matemáticos. A professora das séries iniciais, na maioria das vezes, já tem um histórico de dificuldade e aversão à disciplina, o que complica a disseminação do conhecimento”, ressalta.

A professora de matemática e especialista em necessidades educacionais Adriana de Souza Silva dá aulas para estudantes com idade entre 11 e 16 anos no Centro Educacional 7 de Ceilândia. Ela identifica a aversão à disciplina em cerca de 80% de seus alunos e atribui o fato à falta de um planejamento mais adequado de ensino. “As escolas públicas não fornecem uma estrutura adequada e mínima para que o professor torne o ensino da matemática mais prazeroso e divertido. Os alunos acabam perdendo o interesse na matéria”, lamenta.

A vilã
Para Elson, a matemática é tida como “vilã” porque é a disciplina onde mais se percebe que os conteúdos são pré-requisitos um para o outro. Funciona como em um jogo de vídeo game onde é preciso passar das fases iniciais para seguir adiante. “O conteúdo cumulativo da disciplina requer paciência do professor, que muitas vezes, tem que correr para conseguir cumprir o planejamento escolar e honestidade do aluno em reconhecer que não aprendeu o conteúdo”, declara.

O estudante Maicon Silva sofreu na pele a realidade da falta de base. Com lacunas na aprendizagem matemática teve que recorrer ao supletivo para terminar o ensino médio. Reconheceu que precisava de ajuda quando resolveu prestar vestibular para medicina. “Percebi que não sabia coisas básicas e que seria impossível prosseguir sem apoio. Precisava ser ‘alfabetizado’ novamente na disciplina”, conta. Maicon procurou ajuda em um cursinho especializado nesse resgate de conteúdo. O físico Leonardo Bicudo também relata ter sofrido de matofobia até o ensino médio. Foram anos de dificuldade e pânico a cada prova. Na base da memorização de fórmulas, foi conseguindo levar a diante. No primeiro ano ele se apaixonou por física, mas para seguir carreira na disciplina a matemática era fundamental. Foi então que decidiu resgatar conteúdo e tentar compreender o que tinha por de trás de cada fórmula. “A matemática é uma linguagem que precisa ser traduzida. Foi difícil superar a minha dificuldade, mas depois que entendi me apaixonei. Cogitei até me tornar matemático”, lembra.

De pai para filho
Stella Rodrigues, alerta para o perigo de os pais passarem de forma inconsciente a matofobia para os filhos. “Do ponto de vista genético, o sujeito apresenta uma maior disposição biológica para o aparecimento do quadro. Mas em um ambiente onde impera a ideia da matemática como um vilão, sempre carregada de um estigma aversivo, isso contribuirá para uma relação inadequada com essa disciplina”, esclarece a terapeuta.

Recuperar conteúdos básicos e prestar atenção no próprio comportamento são soluções para lidar com o problema. Foi o que fez a ortodontista Silvia Aurora, que resolveu aprender matemática de uma vez por todas. Matriculada em um curso de apoio, ela estuda sem pretensão de alcançar um objetivo específico, apenas para superar o trauma que a matéria deixou. “Eu me contextualizei, me localizei na disciplina. Quando você entende a matemática, ela deixa de ser um bicho de sete cabeças e passa a ser prazeroso. Não sinto mais medo de aprender”, comemora.

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