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Estado de Minas

Médico americano compara o trabalho na Rede Sarah com o realizado nos EUA

Ele é taxativo: "É um modelo não apenas para o Brasil, mas também para nós". Amigo do fundador, Campos da Paz, ele se tornou consultor das unidades brasileiras


postado em 24/06/2015 08:30 / atualizado em 24/06/2015 08:36

Marc Forman, professor da Universidade de Tulane, nos EUA(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Marc Forman, professor da Universidade de Tulane, nos EUA (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)


No primeiro relatório que fez sobre o funcionamento da Rede Sarah, o médico psiquiatra infantil Marc Forman, professor da Universidade de Tulane, nos EUA, recomendou que o hospital trouxesse a mãe e o pai do paciente para dentro da unidade de saúde. “Quando eles (familiares) vão embora, a criança fica chorando. Falei que o hospital precisava arrumar uma cadeira, uma cama para esse pai ou essa mãe e o dr. Campos disse ok.” A sugestão foi feita em 1983, quando Forman veio conhecer a rede a convite do fundador Aloysio Campos da Paz. Trinta e dois anos depois, o especialista virou consultor do hospital e hoje avalia com admiração o que se concretizou nas nove unidades. “Isso aqui é exemplo não apenas para o Brasil.”

Quais são as principais diferenças entre o atendimento oferecido pela Rede Sarah e o que o senhor encontra nos Estados Unidos?
A primeira diferença é que o Sarah tem a filosofia de trabalhar com o potencial e as forças do paciente. Com o que ele pode se tornar, em vez de apenas trabalhar com as deficiências. Há uma grande ênfase no desenvolvimento futuro, nas expectativas e na esperança. É pensar que cada pessoa com uma deficiência tem algo em si que pode ser desenvolvido. Outra diferença é que a maior parte do trabalho é feita em equipe. Você tem um time formado por fisioterapeuta, nutricionista, pediatra, psicólogo e professor — de quatro ou três pessoas trabalhando com um paciente —, o que permite a troca de aprendizado e experiência entre eles. Além disso, tem essa questão do professor. O Sarah tem um docente contratado que atua no hospital. Isso não acontece nos EUA. Também ao contrário de lá, aqui o tratamento é oferecido gratuitamente para diferentes pessoas: dos mais pobres aos mais ricos. Nos Estados Unidos, não temos essa mistura. Por fim, outra grande diferença é a arquitetura do hospital, que encoraja a mobilidade.

Os EUA avançam muito em tecnologia e novos tratamentos, o que o Sarah acrescentaria a essa realidade?
O Sarah faz, nos planos de tratamento, uma abordagem humanista combinada com tecnologias muito sofisticadas. Nós (norte-americanos) temos ótimas tecnologias, equipamentos técnicos e os últimos lançamentos. No Sarah, também, mas está combinado com um compromisso humanista. Quando há uma dúvida, a equipe faz visitas domiciliares para ver a vida daquele paciente como ela realmente é, porque no consultório você não tem essa imagem.

A quem ou a que o senhor atribui essas diferenças?
Ao fundador, o dr. Campos. Nas nossas palavras, ele é um “renaissance man”. Sabia sobre música, ciência, história, tinha um vasto conhecimento e era muito interessado nas pessoas, nas histórias de vida delas. O Sarah acompanha o paciente desde a infância até a fase adulta e analisa as mudanças que ele passa, e como o tratamento deve ser adaptado em cada caso. O Dr. Campos também era brilhante na forma como trabalhava a transição dos poderes governamentais. Ele colocou a filosofia da rede em ação. A dra. Lúcia Braga também tem essa filosofia. Cresceu aqui, é internacionalmente reconhecida e suas publicações e pesquisas combinam o efeito do trabalho com as famílias e a relação dessa função alterada no cérebro — outro exemplo da junção entre humanismo e tecnologia.


A construção da Rede Sarah foi um projeto ambicioso?
É um modelo não apenas para o Brasil, serve como exemplo para o país todo, mas também para nós. Trouxe uma outra professora nesta visita, ela está maravilhada e me perguntou: Por que a gente não está fazendo isso em nosso país? Essa é a nossa reação sempre. Para se ter uma ideia, o Sarah tem uma taxa de infecção na faixa dos 0,2 %, talvez 0,3%. O nosso hospital universitário, que é reconhecido nacionalmente, tem uma taxa de 5%.

Quais são os maiores desafios para a implementação desse modelo nos EUA?
Nos Estados Unidos, há uma tradição de trabalho individual, não em equipe. Outra barreira é que nós tendemos a focar na doença mais do que na pessoa. Isso porque focar no paciente toma tempo. Talvez, com o programa do presidente Barack Obama, a gente tenha algumas mudanças, como ajudar os médicos a trabalharem mais a prevenção, a gastar mais tempo com os pacientes e a desenvolver o que chamamos de cuidado integrado, multidisciplinar. Por fim, aqui a prioridade máxima é o comprometimento com o tratamento de pessoas com incapacidades. Lá, a gente dá essa atenção, mas não é a prioridade máxima. Lá, damos prioridade ao que é mais dramático, como uma emergência.

Como consultor da Rede Sarah, como o senhor acha que o trabalho pode ser melhorado?
Acredito que estejam atuando muito bem. O que precisa, se possível, é ter mais hospitais Sarah, principalmente nas cidades menores. Porque o problema aqui é o seguinte: a gente trata o paciente em Brasília, mas, quando ele volta para casa, em uma cidade no interior, por exemplo, será que terá o suporte e os recursos necessários? O ideal seria ter unidades Sarah espalhados pelo país para ajudar o trabalho no hospital principal.

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