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Estado de Minas

Artista do DF denuncia que xamã russa tem ligação com seita de exploração

Mahasidda Nayada esteve em Brasília ministrando uma série de palestras há duas semanas


postado em 14/11/2015 08:05

Brasilienses acreditam que Nayada é também uma vítima do guru Konstantin Rudnev, preso por abuso sexual (foto: Gustavo Moreno/CB/D.A Press)
Brasilienses acreditam que Nayada é também uma vítima do guru Konstantin Rudnev, preso por abuso sexual (foto: Gustavo Moreno/CB/D.A Press)


O artista plástico Pedro Sangeon, 35 anos, criador do personagem Gurulino, e a mulher dele, Fiona Lyon, 37, divulgaram, por meio de um grupo fechado em uma rede social, um relato alertando amigos contra a sacerdotisa xamã que se identifica como Mahasidda Nayada. Ela esteve em Brasília ministrando uma série de palestras há duas semanas. Segundo o casal, Nayada é uma das três líderes da The International Community of Women for Healthy Lifestyle (Daoin), que teria ligações com o grupo denominado originalmente de Ashram Shambala, fundado por Konstantin Rudnev — preso em 2009 e condenado em 2013 a 11 anos de prisão por violação de direitos humanos e abuso sexual. O Correio ouviu uma terceira pessoa, servidora pública, também moradora de Brasília, que reforça a ligação entre Nayada e esse grupo.


Pedro e Fiona foram alunos e trabalharam para a organização entre 2006 e 2011. Hoje, afirmam que Nayada é o braço direito de uma seita que manipula ensinamentos sobre xamanismo, ioga, meditação, tantra. Após saber que ela viria a Brasília, o casal protocolou denúncia no Disque 100 da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH/PR). Além disso, reuniu, em um dossiê, informações publicadas em sites internacionais sobre a atuação do grupo, e procurou a Polícia Federal. Por enquanto, não há investigação formal contra a xamã nem contra o grupo em que ela atua. “Depois que Konstantin foi preso, em 2009, Nayada e outras duas mulheres permaneceram devotas dele. Ele é tratado como Jesus Cristo, um homem injustiçado. A Nayada tem a missão de espalhar essa organização, que funciona como uma estrutura piramidal”, diz Pedro, que procurou também o Correio — onde publica semanalmente tirinhas do Gurulino —após o jornal trazer uma reportagem sobre a xamã.

O artista e a mulher dele dizem ter abandonado o grupo quando perceberam que muitas das informações repassadas eram “fraudulentas” e que eles “eram explorados pela organização”. Segundo o casal, nomes, história pessoal, formação dela, “tudo é falso”. Ainda de acordo com Pedro e Fiona, a xamã que veio a Brasília usa outros nomes, como Meisterin Nayada, Anna Dar e Anna Give. Ela seria de origem ucraniana e se chamaria Maksimova Natalia Sergeevna, afirmam os brasilienses. O uso de diversos nomes seria justificado por uma ascensão espiritual. “Nosso intuito não é nem acusar. Achamos, inclusive, que Nayada é uma vítima. Mas queremos alertar para que outras pessoas não percam anos da vida, como nós perdemos. Como toda seita, eles fazem uma lavagem cerebral”, alega Pedro.


Ele foi para a Rússia fazer o curso proposto pela organização no segundo semestre de 2005. A mulher dele, natural de Barcelona (Espanha), desembarcou em Moscou um semestre depois, em 2006, com o mesmo intuito. Segundo Fiona, durante o processo, o casal foi convencido de que, para evoluir no caminho espiritual, deveria ficar separado. Por dois anos, seguiram a filosofia do grupo em “buscar a superioridade espiritual e se afastar da família biológica”. Ela afirma ainda que, se não recrutasse novos seguidores, era ameaçada a ficar sem comida ou podia ser acordada de madrugada fazendo séries de flexões. Declara ainda ter passado por rituais com gurus e mestres, aos quais hoje classifica como situações de abuso sexual.

Troca de nomes

Segundo Pedro, só para entrar no seminário, era preciso pagar 3 mil euros. “A organização funciona como uma pirâmide, onde os que estão no topo têm braços para fazer o esquema funcionar. Eles convencem as pessoas pelo emocional e a cobrança é tanta que quem se dedica menos é considerado pouco espiritual ou capacitado”, detalha. O grupo, originalmente chamado Ashram Shambala, também teria recebido outras denominações. “A organização é a mesma desde 1989, quando foi criada. Esse homem (Konstantin Rudnev) se autoproclamou guru usando técnicas tradicionais como ioga e meditação. O grupo trabalha com a parapsicologia e estuda métodos de como criar um exército espiritual”, denuncia Pedro. O casal ressaltou, nos relatos aos amigos no Facebook, ainda acreditar na força das terapias, na medicina natural, no xamanismo, na meditação, no ioga e que tudo isso compõe a base dos ensinamentos de Nayada. O grande problema, segundo ele, é a manipulação e o abuso psicológico dos seguidores.


Em um fórum de mensagens na internet sobre o Ashram Shambala, um homem publicou um texto sobre a organização, em 19 de outubro. “Mesmo antes da proibição, eles já eram bem conhecidos por sempre agir secretamente em abrigo e com muitos nomes diferentes. Ex-membros têm descrito que enganar o público ‘estúpido’ é ainda parte da sua doutrina”, diz o relato. O autor do texto afirma que dinheiro era o foco central do grupo: “Eu li sobre casos documentados onde os homens jovens interessados foram mandados embora simplesmente porque eles não tinham valores para oferecer”.

Desaparecimentos
O Correio encontrou, em sites europeus, sete reportagens a respeito da seita de Konstantin Rudnev. Todas a tratam como criminosa. Em vídeos publicados no YouTube, telejornais russos mostram a prisão de Rudnev. Há ainda um documentário de 48 minutos sobre a atividade da organização. As autoridades russas estimam que a Ashram Shambala tinha 30 mil seguidores, até a prisão do seu líder. Dezesseis deles foram testemunhas de acusação no julgamento.


Durante o julgamento de Rudnev, investigadores afirmaram ter encontrado registros de vídeo que mostram alguns seguidores do Ashram Shambala sendo violentados sexualmente. Além disso, muitos integrantes da seita perderam dinheiro e bens, e abandonaram parentes e amigos. Alguns foram dados como desaparecidos, de acordo com os policiais russos.


Em um site especializado, chamado EducaSectas, um homem denominado Manuel Viriato publicou, em 21 de outubro de 2009, um apelo: “Tem um membro da minha família que frequenta essa seita nefasta. Gostaria que me enviasse notícias e vídeos mais recentes, inclusive de ex-membros dessa seita”. Em 23 de abril de 2012, uma mulher respondeu ao internauta: “Se alguém está envolvido da sua família, não sairá com respostas pelo bom senso. Infelizmente, como qualquer seita, os envolvidos ficam hipnotizados e não aceitam nenhuma crítica razoável”.

Regras e punições
Segundo Fiona, mulher de Pedro Sangeon, muitos jovens russos abandonam as famílias para seguir a seita. Uma de suas funções, enquanto trabalhou para a organização, era atuar como assistente para a captação de outras pessoas. “Gradativamente, aumentavam a pressão psicológica e o estresse. Era anular uma conexão com você mesmo, sempre se movendo para servir a eles”, explica.
Ela garante, ainda, ter sido alvo de abuso sexual por um sacerdote. “Essa parte era referente a um rito tântrico, como eles chamavam. Precisávamos, ainda, pagar 1 mil euros por isso. Eles falavam que o ritual de limpeza sexual era para a preparação”, alega. “Para eles, você não está preparado até chegar a um nível de ‘filho inocente’. O objetivo é te manter dependente emocionalmente e a parte sexual faz parte disso”, completa o marido.


Segundo Pedro, os envolvidos na organização estudam as caraterísticas básicas dos seguidores para indicar os tratamentos espirituais e as exigências. “Nós percebemos tudo o que estava acontecendo em 2011, quando enxergamos que estávamos sendo menos requisitados e mais explorados. Os que controlam o grupo são pessoas fanáticas e os fiéis, vítimas”, relembra. Ele diz ainda que quem saísse do grupo era hostilizado. “Eles diziam que essas pessoas iriam se relacionar com drogas, álcool e se envolver em acidentes. Funcionava como estratégia de poder”, diz Pedro.

Outra moradora de Brasília, servidora pública de 50 anos, endossa os relatos de Pedro e Fiona. Ela, que ao contrário do casal prefere o anonimato, conta ter integrado a Ashram Shambala entre 2002 e 2011. “Saí após a prisão do líder, um dos representantes dele no Brasil reuniu um grupo e afirmou que todas as acusações eram verdade. Ouvindo os relatos de outras pessoas e o conteúdo dos testemunhos contra o líder, percebi que havia sido enganada”, comenta. Ela diz que, até 2011, quase todo o seu “bom salário” era destinado às viagens, aos encontros e outras atividades ligadas à seita. “Fui muito para a Rússia. Só não permaneci lá, virei quase uma prisioneira, porque não dependia financeiramente da seita. Mas vi muito jovem seguidor passar frio e fome por causa dela.”
A ex-discípula diz ter sido persuadida a fazer parte da Ashram Shambala porque acreditava — e ainda acredita — nos dogmas dela. “O trabalho em si é muito bom. O problema está no dinheiro, na exploração da crença e da mão de obra. Havia também o abuso sexual. Mas todos acabavam sendo envolvidos por meio de técnicas sutis, com o uso de muita música e hipnose”, revela. A servidora pública afirma ainda ter conhecido na Ashram Shambala a mulher que hoje se identifica como Mahasidda Nayada. “Ela era uma sacerdotista. Creio que ela também é uma vítima, uma das jovens exploradas. Acredito que ela só não passou fome porque era muito bela e dominava todas as técnicas sedutoras da seita”, observa.

Denúncia
A SDH/PR informou que as denúncias registradas no Departamento de Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos são sigilosas e, por isso, nenhuma informação sobre o caso pode ser passado. O casal também procurou a Polícia Federal em 31 de outubro, mas não houve abertura de investigação. Em uma pesquisa textual no site da Organização Internacional de Polícia Criminal (Interpol) não aparece registro de ocorrência no nome da xamã. O Correio enviou e-mail à Embaixada da Rússia, pedindo informações sobre Mahasidda Nayada, mas não obteve retorno até a noite de ontem. Também procurou a pessoa indicada como representante dela no Brasil, que atende pelo nome Ot Ener, mas o celular informado não atendia.

 

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