Cidades

Especialistas: falta articulação entre grupos de militância negra no DF

Ativistas dizem que a Marcha das Mulheres serviu para promover a união entre os grupos e também criticam a ausência de diálogo com o governo distrital

Caroline Pompeu - Especial para o Correio
postado em 20/11/2015 06:05

Integrantes do coletivo Negras Vidas, que desenvolve na UnB uma série de atividades em colaboração com outros grupos militantes

Com maioria da população negra, o Distrito Federal aglutina uma série de movimentos engajados nas causas do segmento. Com diferentes níveis de organização, as siglas abordam a questão e lutam contra a discriminação. Especialistas ponderam, contudo, sobre a falta de articulação entre esses movimentos ; uma das pautas da Marcha das Mulheres Negras, realizada nesta quarta-feira, e que terminou em tumulto, bombas e tiros. Representantes dos movimentos negros, por sua vez, reclamam da ausência de diálogo com o governo local, que não dispõe, por exemplo, de um mapeamento sobre os movimentos organizados.

O coordenador da Questão Negra da Diretoria de Diversidade da Universidade de Brasília (UnB), Wanderson Flor do Nascimento, disse que o movimento negro vem se fortalecendo no DF nos últimos 10 anos. Vários coletivos com jovens surgiram. ;Mas o diálogo com o governo enfraqueceu. Ele não está no nível ideal, deveria ser maior, ainda está muito aquém das demandas do movimento negro;, relatou.

Um desses coletivos foi criado por um grupo de 11 estudantes universitários da Universidade de Brasília (UnB), no início de agosto. Os estudantes desenvolveram o Coletivo Negras Vidas para construir a Semana da Consciência Negra e desenvolver uma série de programações na instituição com o apoio de outros grupos organizados da UnB. Eles se reuniram e trouxeram para a UnB várias atividades como palestras, mesa de discussões sobre religiões afro-brasileiras e exposições.

Eles se juntaram pela causa, mas afirmam que não recebem apoio governamental nem da universidade. ;Além da falta de diálogo com o Executivo, é clara a falta de assistência. Os negros se sentem sem representatividade por serem inúmeros e espalhados por grande parte da periferia. Normalmente, movimentos se localizam nas instituições acadêmicas e em colégios. Então, é necessária mais articulação de líderes que compõem esses grupos;, explicou o estudante de pedagogia Jonathan Dutra, 21 anos.

Para a integrante da Comissão dos Jornalistas pela Igualdade Racial do DF (Cojira-DF) e da irmandade Pretas Candangas Juliana Cézar Nunes, o movimento negro do DF é forte, com o rap, os terreiros, grupos universitários, movimentos de periferia e de mulheres. ;Os movimentos nunca deixaram de existir, mas, talvez, estivessem um pouco desarticulados. Muitos militantes acabaram indo para postos institucionais e acadêmicos, o que causou um impacto. A Marcha das Mulheres Negras, porém, funcionou para que se articulassem novamente;, opinou.

Elaine Meireles fez parte do Comitê Impulsor da Marcha das Mulheres Negras no DF. O ato, que estava sendo organizado há dois anos, reuniu mais mulheres do que o esperado pela organização. Foram mais de 30 mil, de acordo com Elaine. Segundo ela, o impacto foi muito positivo, mas a cultura negra na capital não é muito valorizada.

;Só nos últimos meses, tivemos ataques a dois locais de religião afro brasileira. As atitudes racistas são vistas, diariamente, nos noticiários. As mulheres são agredidas em espaços públicos. Há um desconhecimento e preconceito no sentido de que ainda enxergam elementos da cultura negra como demoníacos;, informou Elaine. Ainda na opinião dela, a conversa com o governo distrital existe, mas é fraca. ;O governo ouve o movimento negro apenas em alguns momentos como em conferências de mulheres, da juventude, mas é algo muito pontual;, relatou.

A Secretaria do Trabalho, Desenvolvimento Social, Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos informou que dialoga com todo esse universo, mas não o mapeia e acompanha, no sentido de monitorar.

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