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Estado de Minas

Comida descartada em supermercado alimenta cerca de 5 mil pessoas carentes

Com o que é descartado diariamente por um hipermercado da cidade, voluntários alimentam, todos os dias, pessoas carentes, como os catadores do Lixão da Estrutural


postado em 15/01/2016 06:15

Ao lado do Lixão da Estrutural, uma mesa repleta de frutas e legumes é montada: para muitos catadores, essa é a comida que alimenta a família(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Ao lado do Lixão da Estrutural, uma mesa repleta de frutas e legumes é montada: para muitos catadores, essa é a comida que alimenta a família (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)


Mesmo debaixo de uma chuva fina, a moradora da Cidade Estrutural Gerlândia de Lima, 35 anos, que há 10 é catadora no lixão do local, pausa os afazeres do trabalho e começa a preencher o vazio do balde trazido de casa. Milho, banana, limão, feijão-de-corda, batata e rúcula são apenas alguns dos mantimentos escolhidos pela catadora em uma mesa improvisada no meio dos materiais recicláveis do lixão. É a comida que vai garantir o sustento dela e dos dois filhos adolescentes nos próximos dias.

Gerlândia é uma das cerca de 5 mil pessoas ajudadas, todos os dias, pelo Alimenta Brasil, programa do Instituto de Pesquisas e Estudos Aplicados à Sociedade (Ipeas), uma Organização Social Civil de Interesse Público (Oscip). O Ipeas é uma associação focada no combate à fome e ao desperdício de comida no Distrito Federal. O projeto recupera alimentos descartados por um supermercado da Asa Sul e doa para instituições conveniadas de Taguatinga, Ceilândia, Cidade Estrutural e Águas Claras.

Boa parte dos beneficiados são como Gerlândia, ou seja, moram na Estrutural e são catadores no lixão. O trabalho do Alimenta Brasil é o que garante, muitas vezes, a refeição dela. “Tem dia que eu não tenho dinheiro para comprar comida. Neste tempo de chuva é pior, pois eu ganho menos.” As doações são a única fonte de alimento para Maria Alves, 37. Com o marido preso, a mãe de oito filhos cuida sozinha da família. Três dos filhos têm menos de 2 anos e exigem dedicação integral, o que impede Maria de trabalhar. Ela foi catadora até os últimos dias da gravidez do filho mais novo, de 6 meses. “Essa comida ajuda muito. Em casa, eu não tenho nada. As minhas coisas vêm lá do lixo. Hoje mesmo, fui lá procurar roupa para os bebês. Saí com um saco grande, cheio de roupa suja, que vou lavar e eles vão usar.”

Passo a passo diário

Voluntários são encarregados de todo o trabalho, que começa com a triagem dos alimentos descartados no supermercado. Lá, até sete toneladas de frutas, verduras e legumes considerados impróprios para comércio vão diariamente para o lixo. Boa parte são produtos que o mercado não quer vender — cachos de fruta incompletos, mercadorias com embalagem danificada —, mas que não estão vencidos ou estragados e são adequados para consumo. O Alimenta Brasil resgata até três toneladas dessa comida e destina à distribuição e à doação.

A comida é separada em caixas e levada a um posto policial abandonado próximo à Feira dos Goianos. O espaço foi cedido pela Associação Comercial e Industrial de Taguatinga (Acit), onde instituições, como abrigos, casas de recuperação para dependentes de drogas e creches, buscam a comida. O excedente é distribuído pelos voluntários na sede da Associação dos Moradores da Estrutural.

O presidente da Ipeas, Carlos Valim, afirma que os alimentos distribuídos provavelmente seriam consumidos pelos próprios catadores, mas depois de misturados com o lixo. Ele destaca que não há envolvimento do governo ou de empresas no financiamento do Ipeas, e os projetos sobrevivem à base de doações. A ajuda na logística da distribuição é a principal carência. “A cada caminhão de comida que buscamos, são alimentadas 5 mil pessoas. Imagina quanta ajuda seria, se eu pudesse buscar com vários caminhões, de vários supermercados?”

O Alimenta Brasil surgiu por acidente. Há 10 anos, quando nasceu com o nome Associação Peixe Verde, a ideia da Oscip era auxiliar na administração das instituições atendidas. Valim buscou apoio financeiro de uma rede de supermercados, que negou ajuda em dinheiro e ofereceu, em vez disso, comida. “Quando me dei conta de quanta comida era, vi a confusão em que tinha me metido. Outras 20 pessoas, entre elas alguns empresários, estavam no projeto, mas não gostaram da ideia de distribuir comida, então saíram”, relata.

Medida socioeducativa


Atualmente, está em andamento um projeto entre o Ipeas e a Secretaria da Criança do DF, que prevê o trabalho de adolescentes infratores no projeto Alimenta Brasil. A parceria estuda também a possibilidade de doação de alimentos para famílias dos jovens que estiverem em situação de vulnerabilidade socioeconômica. O supervisor da Unidade de Atendimento em Meio Aberto (Uama) de Taguatinga, Wellington de Almeida, diz que o projeto só aguarda publicação no Diário Oficial para virar realidade. “Quando trata de medidas socioeducativas, o Estatuto da Criança e do Adolescente afirma que o jovem tem que prestar serviços úteis à sociedade.” Os jovens voluntários estarão envolvidos na triagem e na distribuição dos alimentos.

Almeida declara ainda haver um grande número de jovens que ainda não cumpriram a medida socioeducativa porque não havia escolhas de locais onde o trabalho pudesse ser desenvolvido. “A expectativa é zerar o cadastro de espera. Com ajuda da mão de obra dos adolescentes, o programa pode, inclusive, ser ampliado, abrir noivos pontos de distribuição.”

Programe-se!

Bazar da solidariedade

A Ipeas promove, hoje e amanhã, um bazar para arrecadar fundos destinados ao Alimenta Brasil. Serão vendidos objetos e roupas novos e usados. Local: Salão de festas do Bloco F, Rua 21 Sul, Residencial Araucárias, Águas Claras

Como ajudar
O projeto Alimenta Brasil aceita doações em dinheiro, roupas, ajuda logística (caminhões e espaço para guardar
alimentos) e gasolina.


Doações em dinheiro

» Caixa Econômica
» Agência 3310
» Conta 1460-3
» Operação 3

» Banco do Brasil
» Agência 1419-2
» Conta 24531-3

Outras colaborações
» Carlos Valim, presidente da Ipeas, 9981-8404

Radiografia


» Até 7 toneladas de comida são descartadas, diariamente, por um hipermercado
» 3 toneladas de alimento são resgatadas pelo Alimenta Brasil
» 5 mil pessoas são ajudadas por dia pelo projeto

 

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