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Estado de Minas

Morador de Brasília, sobrevivente do Holocausto conta a sua história

No Brasil, Nachum Reiman encontrou segurança e, no Lago Norte, mora com os filhos. Aos 94 anos, ele e outros sobreviventes dos campos de concentração serão homenageados


postado em 27/01/2016 07:43 / atualizado em 27/01/2016 09:07

Judeu nascido em Lublin, na Polônia, Nachum Reiman morava em uma comunidade judaica da cidade quando os alemães invadiram o país, em setembro de 1939. Prestes a completar 18 anos, era o filho mais velho de uma mulher que confeccionava sacos de embalar compras. O pai os vendia no atacado a comerciantes. O casal tinha outro filho, um ano mais novo. O Holocausto dizimou a família de Nachum. Ele sobreviveu a essa e a outras tragédias. Buscou refúgio no Brasil, onde conheceu a mulher, com quem teve três filhos. Há um ano e meio, mora em Brasília.

Aos 94 anos, apesar das dificuldades de locomoção e audição, ele ainda mostra grande disposição e humor(foto: Breno Fortes/CB/D.A Press)
Aos 94 anos, apesar das dificuldades de locomoção e audição, ele ainda mostra grande disposição e humor (foto: Breno Fortes/CB/D.A Press)


Nachum (pronuncia-se Narrum), os parentes e milhões de judeus residentes na Polônia entraram em pânico quando se espalharam pelo país os horrores praticados pelos nazistas. Com medo, Nachum decidiu fugir para a Rússia, ao saber que tropas alemãs estava a pouco mais de 30km de Lublin. “Os meus pais e os meus irmãos acreditavam que só teriam de trabalhar em um campo de concentração, para sobreviver”, conta. Mas Rússia também não era um destino seguro. O Exército Vermelho capturou Nachum e milhares de judeus. Para eles, havia duas opções: ir para o campo de batalha, em defesa da Rússia, ou se tornar prisioneiro. Nachum se recusou a vestir a farda do Exército Vermelho.

No alto à esquerda, com amigos poloneses, no fim da Segunda Guerra Mundial(foto: Arquivo pessoal)
No alto à esquerda, com amigos poloneses, no fim da Segunda Guerra Mundial (foto: Arquivo pessoal)
Longe das garras dos alemães, foi parar na isolada e gelada Sibéria, em um campo de trabalho forçado. A rotina era tão pesada quanto nos campos de concentração nazistas. Também eram comuns as agressões dos guardas. Na Sibéria, os presos tinham de acordar às 6h, para, sem vestes e equipamentos adequados, ir à floresta cortar árvores e partir em pedaços a madeira que viraria lenha. A comida era regrada e de baixa qualidade. No inverno, as temperaturas chegavam a -20º C.

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Família brasileira
Vindo de navio, o polonês desembarcou no Rio de Janeiro durante o carnaval de 1954. “Quando desembarquei na Praça Mauá, vi aquela bagunça nas ruas, gente fantasiada, cantando e batucando. Pensei: Meu Deus! Que país maluco é esse?!”. Recebido pela comunidade judaica, logo passou a frequentar sinagogas e eventos de associações israelitas. Em uma delas, conheceu a mulher com quem se casaria, Eugênia, uma judia brasileira.

Desde agosto de 2014, o sobrevivente do extermínio de judeus pelos alemães, mora na casa da filha, no Lago Norte. Aos 94 anos, apesar das dificuldades de locomoção e audição, ele ainda mostra grande disposição e humor. Vai àsinagoga uma vez por semana, adora contar histórias e não guarda mágoas. “Vingança? A minha ficou para trás, no dia em que libertei a minha cidade. Nunca mais voltei lá porque não tinha mais ninguém para ver”, frisa, para logo completar: “Todo judeu tem seu trauma. Cada um o curou a seu modo.”

Homenagem aos sobreviventes
Nachum Reiman estará ao lado de outros sobreviventes do Holocausto, moradores de outras partes do país, hoje à noite, em cerimônia organizada pela Confederação Israelita do Brasil (Conib), no Edifício-Sede da Ordem dos Advogados do Brasil, em Brasília. O evento marca o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, instituído pela ONU.
A data, criada em 2005 pela Assembleia Geral das Nações Unidas, marca o dia em que tropas soviéticas libertaram o campo de extermínio de Auschwitz, na Polônia, em 27 de janeiro de 1945.

A Conib realiza uma alternância para sediar a cerimônia, que em anos anteriores ocorreu em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Recife, Salvador e também em Brasília, em 2013, quando homenageou Souza Dantas, embaixador brasileiro na França, e Aracy Guimarães Rosa, funcionária do consulado em Hamburgo, que salvaram a vida de centenas de judeus europeus nos anos 1930 e 40. Na capital baiana, em 2012, homenageou também os negros que foram vítimas do Holocausto.

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