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Estado de Minas

Pianista Neusa França é responsável pela formação de várias gerações

A compositora carioca, que morreu ontem, aos 95 anos, vivia na capital desde 1959. Ela deixou mais de 15 hinos, 10 dos quais levam Brasília no título


postado em 09/03/2016 06:33 / atualizado em 09/03/2016 09:55

(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press - 26/1/13)
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press - 26/1/13)


Uma das fundadoras da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro, pioneira do ensino do piano em Brasília e professora responsável pela formação de boa parte dos pianistas da cidade, Neusa França morreu ontem, às 13h, depois de um mês e oito dias internada no Hospital Santa Luzia em consequência de um AVC. O velório será na Capela 1 do Campo da esperança, a partir de 12h, e o enterro está marcado para as 17h30.

 

A música era um pilar para essa artista que trocou o Rio de Janeiro por Brasília no fim dos anos 1950, acreditando que o projeto de JK era visionário. Mesmo debilitada nos últimos anos, ela encontrava nas partituras e nas melodias um sopro de vida que contaminava alunos, amigos, músicos e conhecidos. Em 2013, Neusa teve uma suspeita de embolia pulmonar e foi atendida em casa pelos paramédicos do Samu antes de ser levada ao hospital.

A compositora carioca adorava viver rodeada de gente e boa música.(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press - 26/1/2013)
A compositora carioca adorava viver rodeada de gente e boa música. (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press - 26/1/2013)


O pianista Dib Franciss acabava de chegar ao apartamento da pianista para uma visita. Com uma máscara de oxigênio no rosto e conectada às máquinas para medir o batimentos cardíacos, ela pediu ao amigo que tocasse alguma coisa. Ele se sentou em um dos dois pianos da sala e tocou Canções sem palavras, de Félix Mendelssohn. A professora cantarolou a melodia do início ao fim e pediu à secretária que servisse lanche para todos. Neusa era assim, tudo era motivo para um “lanchinho”, uma confraternização e um pouquinho de música. Ela logo quis saber, como fazia com todo mundo, se os médicos da UTI Móvel haviam estudado música, se sabiam tocar um instrumento ou se gostavam de música. “Disso tirei uma grande lição: até nas situações mais adversas, era na música que ela encontrava sua alegria, o seu refúgio, a sua guarida”, lembra Franciss, autor de Neusa França: um hino de amor a Brasília, escrito em parceria com Jacy Toffano.

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Neusa adorava viver rodeada de gente: se houvesse música e boa conversa, não havia tempo ruim. Conhecida como a autora do Hino de Brasília, cuja melodia imaginou durante um trajeto de ônibus no Rio de Janeiro, a pianista era uma compositora talentosa. Fez mais de 15 hinos, listados no Catálogo de obras de compositores brasileiros, publicado pelo Ministério das Relações Exteriores em 1979. Desses, 10 levam Brasília no título e um tinha valor afetivo especial. Neusa fez o Hino do Caseb, escola na qual deu aulas durante muitos anos, para homenagear um projeto pioneiro na cidade. Ela também adorava valsa e compôs um livro inteiro de peças do gênero.

A história da pianista com a cidade começa em 1959, antes mesmo da inauguração. Quando desembarcou no chão poeirento da capital, o que se via no Planalto Central era ainda um esqueleto de cidade. Neusa veio do Rio de Janeiro para acompanhar o marido, Oswaldo França, advogado que havia passado no concurso para procurador federal.

A natureza boêmia, generosa e agregadora da pianista não sossegou enquanto ela não instalou nos quartos dos fundos da casa da W3 Sul uma salinha de música para dar aulas e uma rotina de saraus dos quais participavam figuras como Lamartine Babo e Jacob do Bandolim, amigos da pianista. De Lamartine, era amiga e conselheira. Ajudava o compositor a tirar melodias para sambas e choros quando ele empacava nas composições. Fazia o mesmo com Radamés Gnattali, outro amigo que frequentava os saraus dos França em Ipanema, nos anos 1950, e em Brasília, na década seguinte. Boa parte da música produzida durante os encontros era gravada em fitas magnéticas cuidadosamente organizadas na mesma salinha que se tornou o embrião do início da história do piano em Brasília. Ali, Neusa dava as aulas particulares que formaram dezenas de pianistas talentosos na cidade.

 

 Logo que chegou a Brasília, a pianista passou no concurso de seleção de professores da rede pública. Na época, o ensino da música fazia parte do currículo e ela foi dar aulas no Caseb. Professora aposentada da Escola de Música de Brasília (EMB), Soledad Arnaud estudou com Neusa desde os 13 anos. “Ela me passou não só os ensinamentos técnicos, mas me ensinou sobre generosidade e respeito à música. Ela estava sempre aberta a nos ouvir e admirava as qualidades de cada um”, conta.

Além de professora do Caseb, a pianista também foi solista da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro e ajudou a fundar a Escola de Música de Brasília (EMB). No teatro, ela contava com o afeto do amigo Claudio Santoro, que privilegiava o repertório pianístico. “Quando ele fundou a orquestra, convidou a Neusa para ser pianista e ela tocava desde de frevo ao samba. Participava dos espetáculos tocando qualquer tipo de música, muito generosa, presente. Vai fazer muita falta”, lembra Gisele Santoro, viúva de Claudio.

Para agregar, Neusa criou o sarau Vamos ouvir música?, mais tarde intitulado Para gostar de música, durante o qual reunia os alunos em palcos de teatros da cidade para apresentações a cada final de ano, sempre próximo à data de seu aniversário, 7 de dezembro. “Ela tinha uma bandinha e fazia musicalização da criançada na escola, sabia reconhecer o talento na criança e aproveitar de forma única. Ela ultrapassava a intenção, ela educava musicalmente”, lembra Circe Cunha, que foi aluna de Neusa desde pequena e frequentou os saraus. “O piano foi a ferramenta que a Neusa encontrou para agregar as pessoas. Ela dava sempre um jeito de fazer uma reunião social em algum lugar que tivesse um piano”, garante Franciss. Uma das últimas reuniões foi no próprio apartamento da pianista, em 2013, quando recebeu família, alunos e músicos para um pequeno sarau.

 

 

Colaborou Vanessa Aquino

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