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Estado de Minas

Crônica da Cidade


postado em 27/03/2016 15:55

O Cristo de Glauber
Inspirado no Evangelho segundo São Matheus, do italiano Pier Paolo Pasolini, o baiano Glauber Rocha imaginou o filme A Idade da Terra, uma missa bárbara protagonizada por quatro Cristos, que ressuscitam para fazer a revolução do Terceiro Mundo. Brasília é o cenário para as intervenções do mais inflamado deles, o Kristo negro, Kristo Zumbi (Antônio Pitanga). Vestido com roupas coloridas africanas, sob os ventos sibilantes do planalto, ele faz um discurso delirante no alto da Torre de Televisão: “Bem-aventurados os miseráveis. Bendita a bomba atômica, a grande prostituta da Babilônia. Benditos os loucos, pois eles herdarão a razão”.

Ao carregar uma cruz na antiga Ponte Costa e Silva (atual Ponte Honestino Guimarães), o Kristo Negro é acompanhado pela voz de Glauber em off, para comentário sobre Brasília: “Metáfora que não se realiza na história, mas preenche um sentimento de grandeza”. Nesse período, Glauber trabalhou na redação do Correio Braziliense, a convite de Oliveira Bastos, editor-chefe, e de Fernando Lemos, editor-executivo.

Na Semana Santa, Glauber reuniu vários amigos e editou um suplemento especial revelador de suas inquietações sobre a figura de Cristo naquele momento. Vladimir Carvalho foi intimado a escrever um poema: “Pega alguma coisa do seu baú de poemas”, ordenou Glauber. Vladimir não tinha e escreveu: “À frente o caminho,/o horto deserto,/A mesa sem vinho. Percutem o vento e o chicote,/uma sensação de cardos/sobre a fronte./A vida se desprende num filete/Síncope e esfumatura;/Uma grua o sustém no alto./Por fim, o close fatal e o sudário”.

Glauber estava desencantado com as ilusões armadas e os dogmatismos da esquerda. Mas não se entregava ao egoísmo das direitas. Queria uma esquerda à esquerda da esquerda, uma esquerda cósmica, transcendente. O suplemento tem como título Alvorada, renascimento, com a epígrafe antropofágica de Oswald de Andrade: “Tupi or not tupi””, de Oswald de Andrade.

De fato, em atitude antropofágica, Glauber associa livremente as figuras de Zoroastro, Zaratustra, Prometeu e Cristo. Em sintonia com as doutrinas espiritualistas primitivas, acredita que os mortos mantêm conexão e inspiram os vivos: “Os mortos estão vivos desintegrados na matéria subterrânea que germina nossas raízes. Os mortos são nossos inconscientes campos adubos, alicerces em busca da reintegração da ressurreição da rematerialização dos mortos em novos corpo de almas novas. Cada morto é uma estrela. Estrelas anjos do sol”.

Em voo de poeta, Glauber reinventa Cristo na condição de personagem-mito ressuscitado no Terceiro Mundo: “Não acredito no Cristo crucificado. Acredito no Cristo ressuscitado no êxtase do amor. A morte é uma invenção da direita”.

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