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Estado de Minas

No Taquari, grupo de mulheres confecciona enxovais para gestantes carentes

Com recursos escassos, a Fraterssol promove rifas para comprar aviamentos e conta com doações esporádicas


postado em 19/04/2016 06:06

Por conta própria, a costureira Dominique Letouzé trabalha com grande carinho nas roupinhas. O esforço (foto: Claudio Reis/Esp. CB/D.A )
Por conta própria, a costureira Dominique Letouzé trabalha com grande carinho nas roupinhas. O esforço (foto: Claudio Reis/Esp. CB/D.A )


O Sol está para a humanidade assim como a mãe está para o filho. Essa imagem luminosa guia e inspira o trabalho da Organização Fraterna Raios de Sol (Fraterssol). Há 19 anos, o grupo se dedica a confeccionar enxovais (no valor de R$ 500, cada) para mamães carentes. A iniciativa é tocada por três mulheres, cuja generosidade aquece muitos corações. O ateliê fica no Taquari (setor habitacional próximo ao Lago Norte).

A escolha do tecido mais confortável, o corte do modelo, o cuidado para a costura não irritar a pele do bebê são delicadezas indispensáveis para Dominique Letouzé, coordenadora da Fraterssol. Tudo é aproveitado. Cada retalho é empregado na confecção das roupinhas. É possível enxergar amor em cada peça.

Ela diz que a liderança veio por acaso, quando a fundadora original precisou se mudar para o Nordeste. Já faz uma década que assumiu a responsabilidade. “A oportunidade me apareceu”, ela descreve. Simples assim. Simples também é sua relação com a costura: ela sente que não escolheu o ofício e, sim, que foi escolhida por ele.

A costureira tem na mãe, Juliette, sua principal assistente. A senhora, de 87 anos, não nega trabalho. “É ela quem põe o elástico em todas as calças que vão nos enxovais — por mês, são cerca de 300.” A outra companheira, responsável por toda a parte cadastral e comunicação com as mães beneficiadas, é muito discreta e pediu para não ter o nome citado nesta reportagem.

Nos últimos dois meses, Dominique conta que conseguiu um dinheiro a mais. Com isso, pôde pagar diárias de uma auxiliar extra. “Faço isso quando posso, para compensar o aumento da demanda. Com a atual situação do país, só tende a piorar”, desabafa.

Quatro mulheres da comunidade oferecem seus serviços esporadicamente. Nem com essa ajuda a Fraterssol consegue atender a todos os pedidos. A vontade de ajudar o próximo é maior do que os parcos recursos. Todavia, isso não desestimula o trio. O retorno das mães compensa todo o esforço. Vídeos, cartas, fotos e até mesmo visitas posteriores. Essas são as formas como as grávidas escolhem para agradecer o carinho recebido.

Sacrifício

Sem apoio governamental ou de quaisquer entidades religiosas, a Fraterssol luta para viver. Para seu sustento, conta com alguns doadores, sensibilizados pela causa. São poucos e incertos. “Para comprar todo o material necessário, eu precisaria de 20 doações por mês no valor de R$ 100”, calcula.

Em busca de alternativas, Dominique faz rifas para alimentar o projeto. A líder comenta que, no fim do ano, passado, um colaborador doou uma bicicleta para ajudar a angariar fundos. “Quando a rifa termina, me dá um alívio. Preciso pagar as contas.” No momento, o objeto rifado é uma mochila grande de acampamento.

A atendente de telemarketing Neuzeli Silva Ferreira, 28 anos, foi uma das 47 beneficiadas do mês de março. Quando a mamãe pela quarta vez soube do trabalho realizado pelo grupo, enviou sua história e logo foi adicionada ao grupo de WhatsApp da instituição. Em duas semanas, a grávida de oito meses recebeu a notícia que seu enxoval estava pronto. No dia da retirada, conta que encontrou com Dominique e as outras mães no Teatro Nacional Claudio Santoro, endereço escolhido pela centralidade e pelo fácil acesso. O clima era de felicidade. Todas estavam animadas e muito agradecidas. “Foi gratificante conhecer quem está por trás de um trabalho tão bonito”, conta Neuzeli.

Diante de tantas dificuldades, muitos perguntam a Dominique se ela está pagando uma promessa. “Se estou, não foi nesta vida”, brinca, para depois confessar que faz tudo “por gosto” mesmo. Até o ano passado, Dominique conta que não participava da entrega do material, mas, no início do ano, sentiu que deveria se envolver nessa parte também. “Percebi que precisava ir até o fim. Há uma troca de energia entre eu e as mães”, revela.

 

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