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Correio Braziliense

Desafio dos transexuais no mercado de trabalho é a baixa escolaridade

Sem apoio da família e com um sistema educacional exclusivo, a maioria acaba caindo na informalidade ou na prostituição


postado em 18/05/2016 06:10 / atualizado em 18/05/2016 10:45

Taiã Carneiro pode ser considerada uma exceção: cursou a universidade e conseguiu um estágio na ONU. Ainda assim, sente o preconceito(foto: Minervino Júnior/CB/D.A Press)
Taiã Carneiro pode ser considerada uma exceção: cursou a universidade e conseguiu um estágio na ONU. Ainda assim, sente o preconceito (foto: Minervino Júnior/CB/D.A Press)
 

 

A qualificação profissional é um dos desafios que precisam ser transpostos para a real inserção dos transexuais e travestis no mercado de trabalho. A não aceitação familiar — muitos saem de casa ainda jovens — e o despreparo da tradicional educação brasileira em trabalhar a diversidade e de evitar o bullying fazem com que muitos transexuais deixem as salas de aulas precocemente. A soma da baixa escolaridade com os preconceitos sociais torna-se barreira para a empregabilidade. O resultado é a forte presença de transexuais na informalidade e na prostituição. Estimativas da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) apontam que apenas 10% do grupo trabalham registrados.

 

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Em tempos em que a população desocupada chega a 11,1 milhões de pessoas no Brasil, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a preocupação com a formação profissional dos grupos minoritários fica ainda mais latente. “Existe preconceito ao grupo trans mesmo com qualificação. Sem formação, a situação fica pior e, infelizmente, a maioria não tem qualificação. Para pensar em empregabilidade, tem que começar desde a inclusão na sala de aula, permanência, inclusão em cursos profissionalizantes e depois no mercado de trabalho”, defende Symmy Larrat, coordenadora-geral de promoção dos direitos de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais da Secretaria de Direitos Humanos (SDH) da Presidência da República.


Assim como o IBGE não sabe quantificar os transexuais e travestis brasileiros, e as delegacias não conseguem separar crimes de transfobia da agressão comum, também não há nenhum dado da escolaridade. Os desafios ainda são muitos. Sem números, a invisibilidade é uma realidade. “Uma escola inclusiva é um passo importante e urgente”, defende Reinaldo Bugarelli, secretário executivo do Fórum de Empresas e Direitos LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Travestis, Transexuais e Transgêneros).


Porém, o Brasil ainda tem muita resistência ao assunto gênero em sala de aula. Nem mesmo os livros didáticos com o tema inclusão são bem-aceitos na sociedade brasileira. Geralmente, são alvo de críticas de pais, educadores e parlamentares. Uma associação de pais chegou a enviar um e-mail repudiando o uso do X no lugar do O ou do A nos substantivos e adjetivos que diferenciam gêneros. Um dos poucos avanços é o da permissão do uso social no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Mas ainda é apenas o começo.


A estudante Taiã Carneiro, 23 anos, sabe do preconceito e das barreiras enfrentadas pelas transexuais, principalmente em relação à educação. Ela comenta que estar em uma universidade é uma realidade distante de boa parte dos trans. “Fiz a transição dentro do ensino superior. Dificilmente, eu teria conseguido isso se tivesse feito a transição na adolescência. Nessa fase, as pessoas trans são expulsas de casa e se veem sem educação, sem mercado de trabalho que as aceite e têm de recorrer à prostituição.”


Taiã é estagiária na Unaids, órgão ligado à Organização das Nações Unidas (ONU), e faz parte do Corpolítica, coletivo brasiliense que discute gênero em todas as esferas sociais. “Não sei o porquê de o preconceito ainda ser tão grande. O que acontece é que ele impede muitos chegarem ao mercado de trabalho”, afirma. “Penso em seguir uma carreira acadêmica porque lá posso trilhar algo por mim, sem depender tanto do mercado. Não faço ideia de como o mercado vai me recepcionar fora da academia. Eu me sinto uma profissional incrível. Uma empresa que me contratasse não teria apenas o benefício da diversidade, mas alguém competente que vai trazer vantagens.”

 

Precárias políticas de inclusão 


As políticas de inclusão têm vindo em passos lentos. No governo federal, os primeiros atos concretos começaram apenas este ano. Segundo Simmy Larrat, da SDH, existe projeto em parceria com o Ministério da Educação para a inserção do grupo em ambientes escolares e profissionalizantes, tanto no Ensino de Jovens e Adultos (EJA), quanto no Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec). O próximo edital do Pronatec terá inscrição prioritária para o grupo LGBT. No EJA, os profissionais de ensino serão qualificados para receber a população trans.


Em nível distrital, o Centro de Referência da Diversidade Sexual, Religiosa e Racial (Creas) oferece cursos profissionalizantes e intermedeia bolsas de estudos para a população LGBT. Como política pública, o GDF pretende lançar, ainda este ano, um projeto que visa trabalhar em quatro eixos: a qualificação, o empreendedorismo, a indicação para o mercado de trabalho e o preparo do ambiente empresarial.

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