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Correio Braziliense

Projeto oferece aulas personalizadas a idosos interessados no meio digital

Depois de ajudar a avó no manuseio do smartphone, jovem transforma os ensinamentos em projeto de conclusão do curso de pós-graduação. Agora, dá aulas a pessoas da terceira idade. Especialista alerta para a segurança nas redes sociais


postado em 26/05/2016 08:15 / atualizado em 26/05/2016 17:16

(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)


Cabelos brancos, rugas e experiência para dar e vender. A terceira idade traz consigo sinais visíveis de que o tempo passa e deixa marcas. A saúde tende a ficar mais frágil, mas a sabedoria ajuda a superar quaisquer dificuldades. E, mesmo com tanto a oferecer, sempre há tempo para aprender, como no caso da pensionista Anna Peleja, 84 anos. Simpática e sorridente, ela recebe, desde março, aulas para aprender a mexer no celular. Toda orgulhosa, comemora cada singelo avanço e avisa: “Logo vou dominar essas tecnologias e ser cada dia mais livre”.

Pela definição da Organização das Nações Unidas (ONU), são consideradas idosas as pessoas com 60 anos ou mais. Nessa faixa etária, há espaço para aqueles que se sentem cada dia mais dispostos a adentrar no universo da tecnologia, como mostra a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2014. O estudo revela que, em um ano, o percentual de idosos que têm acesso à internet saltou de 12,6% para 14,9%. E a tendência é que essa porcentagem aumente ainda mais.
“Eu aprendi a colocar o telefone para vibrar quando vou à missa. Também sei colocar o despertador para tocar na hora da minha novela e mando fotos minhas para a minha família”, comemora dona Anna. Além das habilidades listadas, a matriarca paraense já realiza transações bancárias pelo celular e faz a alegria dos familiares com as mensagens que manda pelo WhatsApp. “Eu sempre tive vontade de aprender, e tenho certeza que ainda vou fazer muita coisa. A gente cria nova vida quando acompanha a evolução do mundo”, garante.

Mães de seis filhos, ela toma aulas com Paula Peleja, 24, uma dos 16 netos que ama de modo incondicional. Oficialmente, as aulas ocorrem há um mês. Mas tudo começou bem antes, quando a neta decidiu ajudá-la a mexer no smartphone que havia ganhado. Aos poucos, a ideia de transformar as esporádicas visitas em aulas de verdade foi ganhando forma. “No ano passado, pensei na possibilidade de dar aulas para os idosos, ensinando tudo que envolve a tecnologia. Pesquisando sobre o assunto para ajudar minha avó, decidi investir nisso como projeto de conclusão da minha pós-graduação”, explica Paula, que se formou em planejamento em marketing pela Fundação Getulio Vargas.

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Com o passar do tempo, a iniciativa transpôs as expectativas iniciais. Hoje, o projeto Vovó Hi-tech cresceu e oferece aulas personalizadas para idosos interessados em adentrar no meio digital. A metodologia varia de aluno para aluno e as aulas podem durar até duas horas. “Ensino como deletar, salvar e enviar mensagens, além de mostrar as funções de cada ícone do telefone”, conta. O plano, segundo Paula, é fazer as vovós dominarem os princípios básicos dos aparelhos tecnológicos e o WhatsApp. Depois, a ideia é ajudá-los a criar e manter perfis em outras redes sociais e em aplicativos específicos, dependendo da necessidade de cada um. Nessa fase, eles também aprendem a se prevenir de golpes.

“Primeiro, eu avalio a facilidade da idosa com o telefone ou o computador. Em seguida, reforço tudo o que é primordial no telefone, desde como segurar o aparelho atá a forma certa de digitar. Ao longo dos encontros, a gente vai repetindo tudo o que a pessoa aprendeu, para reforçar”, pontua. As aulas contam, inclusive, com deveres de casa, que garantem treino contínuo. Quando a reportagem do Correio esteve na casa de dona Anna, no Jardim Botânico, uma das tarefas era tirar um selfie e enviá-lo para a família com uma frase de “bom dia”.

Na lida com a terceira idade, Paula destaca que o principal é explicar que os celulares não são bichos de sete cabeças e fazer com que os idosos acreditem no próprio potencial. “Eu mostro que não é preciso ter medo da tecnologia. Quando a idosa aprende, ela tem uma satisfação pessoal imensa e se sente incluída num meio novo”, diz. Ganhando a vida como consultora de marketing, a jovem sonha com o dia em que o projeto se tornará seu único trabalho. “Eu amo trabalhar com os mais velhos. Ver a felicidade deles ao superar desafios é o que me faz bem”, assegura.

Cuidado com golpes
Para o coordenador da Comissão de Direito Digital do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT), Frederico Ceroy, o uso da tecnologia na terceira idade é benéfico, mas pode trazer riscos. “A grande moeda da internet é a informação. Os criminosos se utilizam de informações pessoais do idoso e até do número do cartão de crédito para dar golpes”, alerta. Nesses casos, ele destaca que os crimes mais comuns são a clonagem de cartões e o estelionato. “É preciso ter cautela ao passar esses dados por meio da internet. A desconfiança é a maior proteção que os idosos podem ter.”
Ceroy destaca que a precaução na internet deve ser redobrada. “Sempre que receber alguma mensagem pedindo algo estranho ou inusitado, valide a informação e confira se ela procede antes de tomar qualquer atitude. Ligue para a o telefone fixo da pessoa ou peça a ajuda de algum familiar”, propõe.

Passo a passo das aulas


1º Identificar as habilidades das vovós.

2º Explicar a linguagem dos celulares e computadores.

3º Ensinar as ações básicas dos aparelhos, como ligar, desligar e mandar mensagens.

4º Monitorar e, entre uma revisão e outra, mostrar como são as funcionalidades de aplicativos.

Contato

Paula Peleja: 9225-0416

 

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