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Correio Braziliense

Suspeito de matar dono de food truck continua foragido

Jerry Omar levou facadas pelas costas cinco horas depois de discutir com um morador de rua que perturbava comerciantes das quadras 103 e 302. O assassinato ocorreu na única região do DF em que esse comércio ainda enfrenta resistência


postado em 02/08/2016 06:05

A Kombi onde o suspeito vive fica estacionada na comercial da quadra 103, a 50m do local do crime. Ontem pela manhã, ainda havia sangue e a embalagem da faca usada no assassinato(foto: Gustavo Moreno/CB/D.A Press)
A Kombi onde o suspeito vive fica estacionada na comercial da quadra 103, a 50m do local do crime. Ontem pela manhã, ainda havia sangue e a embalagem da faca usada no assassinato (foto: Gustavo Moreno/CB/D.A Press)
 
 
O primeiro caso de violência desde a regulamentação dos food trucks no Distrito Federal aconteceu no Sudoeste, única região administrativa onde ainda há entraves para a atuação do setor. No fim da noite de domingo, Jerry Omar Correia, 45 anos, morreu assassinado a facadas por um morador de rua. O empresário encerrava o expediente na 1ª Avenida do Sudoeste, no estacionamento da comercial da 103, quando foi atacado pelas costas — ambos haviam discutido cinco horas antes. O suspeito, que chegou a ser detido no mesmo dia, encontra-se foragido.

O crime ocorreu um mês depois de a Administração Regional do Sudoeste/Octogonal lançar campanha em parceria com o Conselho Comunitário de Segurança para combater a mendicância, solicitando aos moradores que não ajudassem a população carente com dinheiro — o acusado vivia em uma Kombi que servia de base para lavadores de carros e fica cerca de 50m do Mr. Wolf, veículo usado por Jerry para fazer cachorro-quente. A iniciativa incluía o cadastro dos lavadores. O suspeito do homicídio, Hugo Tacio de Oliveira Soares, 30 anos, exercia a função na região, mas não tinha registro no órgão.

Antes de assassinar Jerry, o suspeito perturbou proprietários e funcionários do comércio localizado entre as quadras 103 e 302. Embriagado, por volta das 17h, ele incomodou alguns clientes do food truck da vítima. Também reclamou do barulho do gerador de energia elétrica do Mr. Wolf. Diante da ameaça de chamar a polícia, Hugo deixou o local. Dali, ele atravessou a rua e seguiu para uma farmácia. Lá, intimidou a recepcionista, que entrou em contato com a PM. Acabou detido e levado para a 3ª Delegacia de Polícia (Cruzeiro).

A moça, no entanto, não quis formalizar a denúncia, o que resultou na liberdade do suspeito — ele tem passagens por roubo, furto e porte de drogas, mas nenhum mandado de prisão em aberto. “Para mantê-lo preso, era necessário que a vítima efetuasse a ocorrência. Assim, seria caracterizada a ameaça. Nesses casos, é importante que as pessoas façam o registro para manter a prisão, conforme a Justiça exige. Preocupados com a situação, a nossa equipe ainda fez uma ronda próximo à farmácia. Inclusive passou no food truck para lanchar antes de o crime ocorrer”, ressaltou a delegada-chefe da unidade, Cláudia Alcântara.

Após ser liberado, o acusado se deslocou a pé do Cruzeiro para o Sudoeste. Por volta das 23h30, chegou ao local do crime, desferindo facadas em Jerry. A vítima ainda tentou se defender. “Ele dizia que era pai de família e que não tinha feito nada. Um funcionário pegou uma barra de ferro e atacou o criminoso. Depois disso, o Hugo também começou a perseguir essa segunda vítima, que, inclusive, levou uma facada na mão”, detalhou a delegada. O homem fugiu em direção ao Parque da Cidade, mas policiais militares não o encontraram. O empresário morreu no local.

Entraves
Na manhã de ontem, ainda havia marcas de sangue no estacionamento da 103, além da embalagem da faca usada no crime. Moradores e comerciantes relataram que a Kombi onde Hugo mora está abandonada há mais de três anos. Taxistas também relataram que o acusado vivia em conflito na região. Morador da 105, o empresário Rafael Ribeiro, 32 anos, alertou que a permanência de veículos abandonados na região atrai a criminalidade. “Isso é dar margem para a bandidagem. Fiquei impressionado quando soube da morte. Eu mesmo fui vítima de assalto por aqui. Esses carros, na verdade, servem para abrigar o tráfico de drogas”, acredita.

O presidente da Associação Brasiliense de Food Trucks, Ronaldo Vieira, lamentou o assassinato. “A questão vai muito além da falta de segurança. Isso reflete a injustiça do país. Se o autor não tivesse sido liberado, isso não teria acontecido”, reclama. Ele também se queixou das restrições impostas a esse tipo de negócio na região. “Há um problema no qual os proprietários não têm permissão para atuar no Sudoeste. Alguns trabalham aos domingos, pois não há fiscalização”, conta.

O secretário adjunto do Trabalho, Thiago Jarjour, esclareceu que a norma dos food trucks está sancionada, mas se encontra em fase de finalização (leia O que diz a lei). O decreto deve ser publicado no Diário Oficial do DF até o fim do mês. Mesmo assim, ele defendeu que o crime não tem relação com esse processo. “Só precisamos do decreto que trata das minúcias de funcionamento. Isso é uma fatalidade. Podem existir alguns entraves no Sudoeste, mas não foi isso que gerou esse fato”, avaliou Thiago.

A Administração Regional do Sudoeste/Octogonal informou que apenas cumpre a legislação vigente, que não permite o licenciamento de nenhum tipo de atividade comercial nos estacionamentos da 1ª Avenida do Sudoeste. “Não há, no entanto, impedimento ao licenciamento da atividade de food truck na região administrativa, desde que sejam cumpridos os requisitos legais pelo interessado”. Sobre veículos abandonados, o órgão faz levantamento completo de todos passíveis de remoção.

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