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Correio Braziliense

Conheça a história de como Brasília integrou o país por meio das rodovias

Pouca água, solo ácido, baixa umidade do ar. Isolada no centro do território brasileiro, e contra a vontade de muitos, decretou-se o nascimento de uma cidade no meio do cerrado


postado em 08/08/2016 06:10 / atualizado em 08/08/2016 12:31

Em 60 anos a estrada que liga Anápolis e Brasília tomou novos contornos(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
Em 60 anos a estrada que liga Anápolis e Brasília tomou novos contornos (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)


“Tive, então, a visão do que deveria ser feito. Rasgaria um cruzeiro de estradas, demandando dos quatro pontos cardeais, tendo por base Brasília. Não se conquista uma terra se não se tem acesso a ela. E a estrada é um elemento civilizador por excelência. Concebi, pois, o plano das grandes longitudinais, cortadas, quase na perpendicular, pelas grandes transversais. No centro do sistema ficaria Brasília, que seria uma torre para se contemplar o Brasil”,

Juscelino Kubitschek no livro Por que construí Brasília.

Pouca água, solo ácido, baixa umidade do ar. Isolada no centro do território brasileiro, e contra a vontade de muitos, decretou-se o nascimento de uma cidade no meio do cerrado. Para chegar ao quadradinho demarcado por Luís Cruls, só de avião, no lombo do burro ou a pé. Até a década de 1950, os poucos caminhos existentes por essas bandas eram de terra batida. Alguns se resumiam a trilhas marcadas pela insistente marcha dos viajantes que seguiam rumo aos povoados de Santa Luzia, Meia Ponte e Arraial dos Couros.

A estrada entre Brasília e Anápolis começou com o desbravamento do cerrado e hoje é importante ligação entre as duas regiões: trecho faz parte da Belém-Brasília, o sonho de Bernardo Sayão e Juscelino Kubitschek(foto: Mario Fontenelle/Arquivo Público do Distrito Federal)
A estrada entre Brasília e Anápolis começou com o desbravamento do cerrado e hoje é importante ligação entre as duas regiões: trecho faz parte da Belém-Brasília, o sonho de Bernardo Sayão e Juscelino Kubitschek (foto: Mario Fontenelle/Arquivo Público do Distrito Federal)


A interiorização do país por meio da transferência da capital para o centro da nação esteve contida em todas as Cartas Magnas desde 1891. Mas foi pelas mãos do presidente Juscelino Kubitschek que, há 60 anos, em 1956 (leia Linha do Tempo), nasceu a epopeia de Brasília. No dia 19 de setembro, a certidão de nascimento da futura capital foi expedida por meio do decreto autorizando a mudança do centro administrativo do Brasil.

A cidade nascida no coração do território brasileiro mudou a rota de desenvolvimento do país. Sua construção aconteceu ao mesmo tempo em que se abriam estradas e se erguiam as pontes para vencer as grandes extensões de cerrado vazio de gente. As BR’s 060 e 153 estão entre as mais importantes. A primeira serviu para unir Anápolis ao canteiro de obras da futura capital. A segunda, ligou Belém (PA) com o resto do país por terra, o grande sonho do engenheiro Bernardo Sayão, um dos braços direito de JK.

“A construção prévia de Brasília seria imprescindível para o êxito daquele ambicioso plano. Qualquer estrada deve ter um ponto de chegada que justifique a sua implantação”, escreveu JK. Com a justificativa de todas as regiões terem acesso a Brasília, a construção da malha rodoviária do Brasil cresceu 200% em um único mandato presidencial.

Ao recortar o Brasil de asfalto, o segundo passo de JK foi a implantação imediata da indústria automobilística. A Willys-Overland se comprometeu a produzir jipes no país, a Vemag, caminhonetes e furgões, e a Mercedes-Benz, fabricação de caminhões de porte médio, movidos a óleo diesel. Neste momento, balizou-se que o desenvolvimento do país viria na boleia de um caminhão. Brasília se tornaria, então, o símbolo dessa escolha.

As estradas rasgadas no cerrado nos anos seguintes possibilitaram o florescimento socioeconômico, especialmente das regiões Centro-Oeste e Norte. Passados 60 anos, elas mantêm o legado. E no século 21, o transporte das riquezas nacionais ainda se dá, predominantemente, pela matriz rodoviária, em cima de caminhões. Dessa forma, se por um lado as estradas ligaram o território nacional, antes restrito ao litoral, por outro transformaram o Brasil em um país essencialmente rodoviário, com pouco espaço para outros modais de transporte, como as ferrovias e as hidrovias.

A opção foi seguida pelos governos subsequentes, tanto na época militar quanto na redemocratização. O Correio publica a partir de hoje uma série de reportagens mostrando as origens dessa opção rodoviária, Brasília como vetor desse desenvolvimento e os impactos da escolha no custo Brasil e na economia nacional. “As rodovias são importantes para o Brasil. O problema é que o transporte ficou muito concentrado nas estradas e, nesse modal, tanto o custo quanto o desperdício são altos, deixando o frete brasileiro caro. Precisamos de uma integração de modais para diminuir o custo Brasil”, analisa Marcus Melo, professor de finanças do Ibmec.

Para saber mais:

Povoados viraram cidades

Meia Ponte era o nome da atual cidade de Pirenópolis, um dos primeiros municípios do estado de Goiás. Santa Luzia era o nome do povoado que deu origem a Luziânia. E Arraial dos Couros virou Formosa. O nome era uma homenagem aos viajantes que acampavam no povoado, em barracas de couro.



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